Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

segunda-feira, junho 20, 2005

Nota

Caros leitores, o Buen Camino ainda não terminou. Faltam ainda alguns capítulos: a missa do peregrino, os dias em Santiago, Finisterra, o regresso e as conclusões.

Por falta de tempo, não me foi ainda possível actualizar o blog, mas prometo que brevemente escreverei o resto e enviarei um mail a avisar que acabou.

Obrigada pelas visitas e pelas palavras de carinho que me têm enviado.

Um beijinho e até breve.
J.

quinta-feira, maio 05, 2005

Introdução

Este blog é criado com um único propósito: transcrever o meu diário de viagem de forma a que todos os que estiverem interessados saibam, de forma mais ou menos pormenorizada, como vivi esta aventura.
Li o Diário de um Mago, do Paulo Coelho há seis anos e desde então fiquei com muita vontade de fazer o Caminho de Santiago.
Decidi fazê-lo há cerca de um mês.
Foi no dia 4 de Abril que eu e a Chris trocámos os e-mails.
Ela deu a ideia:

Minha vontade, nesse momento, era fazer o Caminho de
Santiago de Compostela (ontem pensei muito nisso e
tive vontade de te chamar para irmos juntas (...)mas, pelo que
vejo, para você é muito difícil nesse momento).


Ora, quando há vontade nada é difícil. Precisei só de um dia para me organizar e dali a decidir a data certa foi um passo.
Hoje é dia 5 de Maio e já estou de volta.
Parece mentira que já tenha passado um mês.

Não nos preparámos minimamente. Decidimos fazer 300 km a começar em León no dia 20. No dia 4 de Maio eu tinha de estar de volta. Seria uma média de 25 km por dia.
Toda a gente dizia que era uma loucura, mas mesmo assim fomos e ainda bem!
De acordo com o Paulo Coelho nós lutámos o Bom Combate: lutámos por um sonho, contra tudo e contra todos. E eu estou muito orgulhosa de nós.

Comprei umas botas e durante uma semana fui para o escritório a pé. Foi esta a minha preparação.
Li tudo o que havia para ler.
Passei um fim-de-semana a fazer a mochila, a pesá-la e a desfazê-la e por fim, na véspera, decidi comprar outra, mais pequena e mais leve. Pesava 7,5kg, o que era ainda demais, mas achei que só precisaria de algumas coisas nos primeiros dias (depois enviaria o que deixasse de ser necessário para Santiago) e que a maior parte do peso vinha das pomadas e dos medicamentos que com o tempo se gastariam.
Ainda assim despejei metade de cada coisa (champô, álcool, creme, pasta de dentes, etc), cortei os comprimidos estritamente necessários e deixei um cantil em casa (ia levar dois e acabei por não levar nenhum...)

Quem me conhece sabe que sou muito pouco organizada e o diário não está muito actualizado. Não escrevi todos os dias e quando escrevia era para actualizar dias anteriores. Raramente escrevi no próprio dia.
Muitas vezes fazia apenas pequenas anotações no guia ou em papeis de restaurantes que guardava.
Este blog é o resultado de tudo isso que fui escrevendo e será completado com a memória, que está obviamente fresca já que uma experiência destas é inolvidável.
Algumas coisas ficarão omissas, porque são recordações só minhas ou porque tenho também de proteger a identidade e a intimidade dos outros personagens.
Antes de começar só mais uma apresentação: a Chris.
Uma querida amiga que fiz na pós-graduação, no ano passado, em Coimbra. Brasileira, 34 anos, advogada (para variar). Vejo agora que foi a melhor companhia que poderia ter tido para partilhar esta aventura.
Para quem não entende de blogs: lê-se do fim para o princípio, ou seja, o primeiro post (texto) é o que está no fim da página.

Comecemos então.
Buen camino!

sábado, abril 30, 2005

11.º Dia (III) - Santiago de Compostela

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Estamos no Obradoiro e sento-me no chão. Somos peregrinos, há que agir como tal.
Todos se sentam também.
Quero ligar à minha mãe e ao meu pai e dizer-lhes que estou bem, feliz como nunca estive e que cheguei ao meu destino. Imagino que a minha mãe esteja preocupada pois já passou há muito a hora habitual de lhe ligar. Costumava ligar-lhe no fim de cada etapa e isso acontecia por volta das 5... Imagina concerteza que continuei até Santiago e já deve ter ligado mil vezes para o meu telemóvel, mas como está sem bateria... já deve estar a imaginar-me num hospital... tenho de ligar-lhe mas não sei bem como.
O Chano continua a ligar, furiosamente, para todos os hoteis da sua lista. A nossa única condição é que seja perto da Catedral, para que não tenhamos de caminhar muito mais.
Está tudo cheio.
Eu continuo extasiada. Há muitos turistas ali, todos limpinhos e arrumadinhos. Apetece-me gritar-lhes que sou uma peregrina, que acabei de chegar de Leon, que hoje fiz... quantos? Armando diz que são 43km.
Temos uma reserva no Windsor e decidimos que mais importante que procurar um hotel é ir buscar as nossas Compostelanas. A oficina do Peregrino fecha às 9 da noite e já passa das 8. Não sabemos onde é. Temos apenas uma morada, mas as setas amarelas agora acabaram. Estamos numa cidade grande (para nós é enorme) e eu sinto-me meio perdida.
Tenho vontade de abraçar outra vez os meus amigos.
Levantamo-nos e caminhamos em busca da oficina do peregrino.

Agradeço ao Chano a companhia e a força que me deu. Principalmente hoje. Digo-lhe que me fez muito bem conversar com ele, que gostei muito da sua companhia. Não sei se noutra altura teria dito isto, ou se teria deixado o coração falar desta maneira, mas hoje, depois deste Caminho, sei que não devo nunca deixar nada por dizer, que não posso desperdiçar palavras nem beijos nem abraços.
Ele retribui e vejo que para ele também é um esforço.

Depois de muitas voltas encontramos a oficina do peregrino. Ainda temos de subir umas escadas e nós, as meninas, subimos com grande dificuldade. Mas estamos felizes e é isso que importa.
Perguntamos ali por hotéis e o Chano continua a ligar para milhentos. Tudo cheio.
Há um que tem vagas, mas é caro.
Encontramos um e vamos até lá para espreitar. Sai mais barato que o Windsor, onde ainda temos as nossas reservas, porque como fica mesmo no centro poupamos o taxi. Mas esta pensão, apesar de bonitinha, não nos agrada. Os quartos são abafados e no terceiro andar... sem elevador... e nós não estamos em condições de subir escadas.
Saímos outra vez e começamos a bater em todos os hotéis e pensões que encontramos. Tudo cheio. O Chano quer ficar no hotel caro, mas por mais que me apeteça também ter um pequeno luxo, não posso. Não sei como está o meu saldo, mas imagino que não seja grande coisa e ainda tenho de voltar para o Porto, alimentar-me por aqui até ir embora, ir a Finisterra e pagar as contas quando chegar a Portugal. Tenho de poupar.
Chano liga novamente para o Windsor para saber se ainda temos quartos e para dizer que afinal somos 5 e precisamos de mais um.
Tudo em ordem. Não têm quartos individuais mas vão pôr a Cristina num quarto duplo ao preço do individual.
Chamamos dois taxis e partimos.
O hotel fica muito perto do centro afinal e talvez dê para vir a pé.
Entramos extasiadas e mancas. Eu estou tão feliz que digo ao recepcionista que hoje fizémos 43km, que eu fiz mais de 120km com uma tendinite, que conseguimos chegar.
Ele dá-nos os parabéns e as chaves e nós subimos, de elevador.
Há uns tempos atrás, teria achado estes quartos uma merda... não têm vista, as camas são moles, a casa-de-banho minúscula e a banheira parece um bidé grande.
Hoje tudo isto me parece um hotel 5 estrelas! Não vou precisar de tomar banho de chinelos, tenho uma toalha de banho (nestas últimas semanas limpei-me com uma toalha de rosto), uma de rosto e uma de bidé, sabonete, água quente, um armário e ninguém a dormir por cima de mim!!!
Ligo finalmente à minha mãe. Estou tão feliz!!!
A Chris e eu descalçamo-nos... está um fedor que não se aguenta, mas nem quero saber. Estou cheia de fome, mas estou tão cansada que nem me apetece tomar banho. Dói-me só de imaginar que terei de sair e caminhar mais não sei quanto até um telefone para ligar ao meu pai e depois até ao centro para comer. Por mim comíamos mesmo aqui.
O Chano e o Armando chegam. O Chano tinha ido não sei onde buscar roupa limpa que tinha mandado para aqui antes de começar o Caminho.
O Armando abraça-nos mais uma vez. Estamos todos felizes!
“Só tenho vontade de vos abraçar a todos!”, diz ele.
A mim também me apetece abraçá-lo e beijá-los e dizer-lhes que os amo! Não caibo em mim de contente e sinto um amor enorme por esta gente que mal conheço. Parece que sempre vivi com eles!
O Armando faz-me mais uma massagem no pé. Agora é o outro. Diz que gosta. Eu já nem me importo com o meu cheiro, nem com o meu aspecto. Estou feliz! Sou uma peregrina e cheguei a Santiago!

Combinamos encontrar-nos lá em baixo, na recepção, às 10h30 para jantar.
Tomo um banho com água quente que me sabe pela vida. Obrigada meu Deus! Obrigada por todos os banhos de água fria! Obrigada por todas as noites de roncaria, por todos os beliches que abanavam, pelo frio e pelo calor! Obrigada por todo o desconforto, porque só assim posso dar agora o devido valor a este conforto.
Visto os calções, calço os chinelos, ponho o meu top e a t-shirt lavadinhos (as calças que ontem foram lavadas já estão cheias de caca desde as 9 da manhã!!!), visto o poncho e saio em busca de um telefone público. Quero ligar ao meu pai também, chega de mensagens! Quero dizer-lhe, de viva voz, que cheguei a Santiago e que estou muito, muito feliz! E agradecer-lhe pelo apoio! Quero ouvir a voz dele e senti-lo mais perto de mim hoje, como se aqui estivesse também, tal como já fiz com a minha mãe.
O Chano encontra-me e diz-me que vou ter frio assim, quer que eu vista umas calças dele. Mas dizgo-lhe que não, que estou bem protegida.

Encontro um telefone perto do hotel e ligo ao meu pai. Por momentos, e pela primeira vez, vêm-me as lágrimas aos olhos. Estou orgulhosa.
Volto para o hotel. A Chris está quase pronta, a Cristina não quer sair porque tem muitas dores nos pés. A Chris diz-me que o Chano ficou triste por não aceitar as suas calças... eu acho um piadão e decido então aceitar a sua oferta, segura de que não me vão servir.
Troco de calças no quarto dele, à sua frente. De repente volta a outra Joana, a que não é peregrina e fico meio envergonhada... mas por breves segundos. Lembro-me que dormi várias noites com ele, que fizémos vários quilómetros juntos, que não há dessas coisas entre nós. Somos peregrinos sem sexo nem vergonha. Faz-me mesmo confusão ter-me lembrado deste pudor, que foi coisa que nunca tive nestes últimos dias. Talvez seja por já não estar no Caminho e sim num hotel e portanto, de volta à realidade. É estranho.
Como imaginava, as calças caem-me, apesar de ele ser magro. Mas visto-as mesmo assim para que não se ofenda.
Convenço a Cristina a sair. Mas tanto ela como a Chris querem ir de taxi. A mim, curiosamente, apetece-me caminhar, apesar das dores. O hotel pareceu-me demasiado perto do centro e agora já não tenho mochila, já tomei banho e já descansei um pouco. Armando faz-lhes companhia no taxi e Chano e eu seguimos a pé. Combinamos encontrar-nos no Obradoiro.
Chano dizia que conhecia a cidade, mas perdemo-nos por várias vezes. Eu estou esfomeada e já nem penso direito. Neste momento estou capaz de comer qualquer coisa. Até fígado, se houver!!!
Sinto a falta do meu cajado, principalmente quando se trata de subir escadas... parece que já nem me consigo equilibrar. Realmente, estou a caminhar há 11 dias com ele, e nas aldeias, os passeios eram tão curtos que não sentíamos necessidade do cajado. Mas agora, está a fazer-me uma confusão tão grande caminhar sem ele...
Depois de meia hora de voltas e voltinhas, chegamos finalmente ao Obradoiro. Armando está a comer uns amendoins que ficaram perdidos, sabe Deus quando, dentro do bolso do seu casaco. Partilha-os comigo e conta-me como começou a gostar de anchovas. Num belo dia estava como eu estou agora: vesgo de fome. Não tinha nada mais para comer a não ser uma lata de anchovas, coisa que odiava... até àquele dia. Passou a achá-las uma verdadeira iguaria desde então.

Damos mais umas 500 voltas à procura de um sítio para comer, porque o Chano, obviamente, “conhece” tudo... Imagino que já seja quase meia noite quando finalmente nos sentamos para comer.
O jantar é divertidíssimo. Ainda estamos eufóricos. A Chris é a que está com um ar mais cansado e parece distante.
O Chano oferece-nos o jantar e saímos para um bar.
Encontramos os portugueses e ficamos um pouco à conversa. Eles chegaram de manhã e já fizeram as compras de turista e tudo. Amanhã vão embora logo depois da missa... recordo-me de que o Tiago tem teste na segunda.
A Cristina volta para o hotel, nós ficamos mais um pouco e continuamos a rir. Não sei se por não serem minhas, mas tudo me cai em cima das calças... às tantas é o Armando que entorna uma coca-cola inteira (com rum), em cima de mim... pobre Chano!
Dali, depois de o Armando ter inventado e demonstrado o strip peregrino, vamos para um outro bar com um velho mal-disposto.
Já passa das 3 quando voltamos a pé para o nosso hotel. A mim doem-me as bochechas de tanto rir...

É a Chris que vai à frente, porque para variar o Chano não se lembra do caminho...
Continua a fazer-me confusão caminhar sem o meu cajado e dou a mão ao Armando e ao Chano. Preciso de sentir um apoio.
Chegamos ao hotel e a Chris e o Armando sobem, enquanto eu e Chano ficamos na sala a conversar e a fumar mais um cigarro. Às 4 não aguento o cansaço e subo também.

Que dia comprido, o de hoje... a manhã em Arzúa parece tão distante... quem diri que hoje estaria aqui...

Estou feliz! Agradeço a Deus por este dia maravilhoso, por estas duas semanas, por esta experiência, por estes amigos e por todas as pessoas que conheci no Caminho. Agradeço-lhe por nunca me ter abandonado, por me ter mostrado a sua presença tantas e tantas vezes.

É engraçado isto. Não fiz o Caminho por motivos religiosos e no entanto senti a presença de Deus o caminho todo... sentia-O ao meu lado, nas montanhas, nos rios, nos pássaros, na chuva e na lama, no sol, nos meus amigos, nos albergues... e pela primeira vez, a frase "Deus está em todo o lado" fez sentido. Muito! Não é na igreja, não é no altar, não é na missa. Foi aqui! Nestes 300km. E agradeço-Lhe por isso. Por se ter manifestado em todas as pequenas coisas. Por me ter ensinado tanto!
Sim, estou feliz!
Muito feliz!

11.º Dia de Caminho Parte I : Arzúa - Pedrouzo= 20km

Dormi mal. Muito mal. Estava calor, o quarto muito abafado, a discussão de ontem, o medo de não ouvir o despertador, o miúdo por cima de mim que não parou de se mexer... O telemóvel toca às 6 horas e a mim parece-me que acabei de adormecer. Quero ficar mais uns minutos na cama, mas não posso. Os monitores estão também a acordar a criançada e em breve as casas de banho ficarão cheias. Fiquei também de acordar toda a gente e tenho de despachar-me.
Acordo a Chris e o Chano. Nenhum dos dois dormiu.
Levanto-me. Há uma série de tralhas no chão e algumas em cima da minha cama. São do puto de cima. Deve pesar uns 150kg porque a cada volta a cama abanava toda... Atiro tudo com raiva para cima dele e do que dorme por cima do Chano.

Ontem à noite a Chris e eu deixámos tudo preparado, como fizémos no Cebreiro, de modo a que a saída de hoje fosse o mais silenciosa possível. Pego na minha mochila, no meu saco-cama e no meu cajado e saio para o hall. Pouso tudo e volto para acordar o Armando. Entro no quarto da terceira idade para acordar a Cristina. A sinfonia é impressionante! Cada um ronca para seu lado e não imagino como é que alguém consegue dormir aqui... Não terá sido uma noite muito melhor que a nossa.

A criançada começa a sair para o hall também e eu decido descer para as casas de banho de baixo. Talvez até tome um banho, hoje de água quente.
À entrada do albergue, mesmo na porta, está alguém deitado a fumar um cigarro. Imagino que seja o velho da cruz e fico mais descansada. Coitado, deve ter vindo dormir para aqui.

Aqui tenho a casa de banho toda só para mim. Decido afinal não tomar banho. Parece-me que a água não aquece e não convém nada ir lá para fora de cabelo molhado.
Depois de pronta, saio para a rua. Já lá está o Armando e um monte de crianças e monitores. Como a gauffre que comprei ontem e bebo o leite de morango. Ainda é noite e está uma humidade incrível. Está frio, mesmo. Ainda bem que não vesti os calções de dormir como tinha pensado.
Aquecemos e fazemo-nos ao Caminho.
Está mesmo frio... é humidade, neblina, e imagino que assim que levantar ficará muito calor. Há um provérbio qualquer assim. Em espanhol também, porque o Armando, como se lesse os meus pensamentos, diz-mo. Mas por agora está um gelo... até me doem as mãos mas vai dar muito trabalho procurar as luvas. Tento protegê-las com as camisolas, mas dói mesmo e não há meio de aquecer!!!

Andamos só um pouco pela estrada e entramos no campo outra vez. Começa a amanhecer e os pássaros a acordar. Olho tudo em volta e encho o peito de ar. Quero guardar isto tudo. Quero ver cada pormenor, sentir cada cheiro, ouvir cada pássaro...não perder nada. É o penúltimo dia de viagem e isso angustia-me. Fico um pouquito triste mas faço um esforço para não pensar mais nisso... se penso acabo por não aproveitar estes dois últimos dias.
O Armando vem para perto de mim e pergunta-me o que acho eu da ideia de apanharmos um autocarro em Pedrouzo até Monte do Gozo. Fazíamos os 20 km até lá e depois os últimos 5 e ainda conseguíamos chegar hoje. Ou então ficávamos no albergue de Monte do Gozo e amanhã chegaríamos a Santiago de manhãzinha. Eu digo-lhe que por mim não há problema, afinal já fiz batota de O Cebreiro até Sarria... Mas na verdade fico com um incómodo cá dentro... logo se vê... depende de como estivermos. Queria caminhar estes dois últimos dias, porque logo logo isto vai acabar... Penso para mim que não vale a pena pensar ainda nisso enquanto não chegarmos a Pedrouzo. Por mim fico lá hoje e recomeço amanhã, ou no máximo tento ir até algures entre Pedrouzo e Monte do Gozo e durmo num hostal... quando chegarmos a Pedrouzo veremos, ele vai perguntar outra vez e aí eu vejo o que é melhor.
Vai atrás e percebo que está a falar com os outros. Volta para me dizer que tanto o Chano como a Chris não apreciaram a ideia e que de facto ele também prefere chegar pelos seus próprios meios.


Depois de uma subida íngreme damos de caras com um espectáculo lindo! Subimos tanto que passámos a neblina e ela agora está lá em baixo. O sol, a nascer.

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Ficamos todos maravilhados... não conseguimos dizer nada... limitamo-nos a fotografar desenfreadamente... é impossível não agradecer a Deus por este espectáculo maravilhoso...
É Armando que nos chama... apetece tirar milhentas fotos, mas ainda temos muitos quilómetros pela frente. Há que continuar.

Passamos por uma mini aldeia e está tudo fechado. Eu desespero por um café... mas acho que ainda vai demorar muito tempo até o poder beber. São sete e pouco da manhã e estas coisas não costumam abrir antes das 9h30... Faço as contas mentalmente... ainda falta muito para o meu café...

A mochila começa a magoar-me os ombros e eu, como estou à frente do grupo, paro. O Armando faz-me uma massagem fantástica nos ombros e eu ponho uma camisola à volta da cintura para que a mochila aperte melhor na barriga. Devo estar mesmo mais magra.

Há duas peregrinas a caminhar ao mesmo tempo que nós. Ora passamos nós por elas, ora passam elas por nós. Acho que são americanas. São muito novinhas.

Um pouco antes de Calle encontramos, no meio do bosque, um homem. Diz-nos que há em Calle dois cafés e que o primeiro não presta.
“No segundo há tarte Santiago. Muito boa! Não vão ao primeiro, vão ao segundo.”
Agradecemos e continuamos a andar. Graças a Deus há alguma coisa aberta e eu vou poder tomar o meu café. A minha enxaqueca, que andava a ameaçar desde Arzúa, começa a dar sinais de si e já me dói um olho.
Chegamos ao primeiro café e tem tão bom aspecto que decidimos entrar para experimentar.
A rapariga é simpática e bebemos café. Ainda não são nove horas e já fizemos 8km.
A minha enxaqueca torna-se mais visível e pela primeira vez nestes 15 dias tomo os meus comprimidos da enxaqueca e peço mais um café. Caminhar com calor e enxaqueca não é bom.
Decidimos que em Pedrouzo não ficamos, porque devemos chegar lá por volta da hora do almoço. Fazemos algumas perguntas à rapariga e a um outro senhor que entretanto chegou e dizem-nos que no Monte do Gozo estaremos a meia hora de Santiago. Talvez não valha a pena ficarmos lá uma noite, também. Começamos a animar-nos
Conversamos sobre a discussão de ontem. Armando estava no beliche ao lado do do homem da cruz e assistiu a tudo de camarote. Diz que o outro, o Fernando, o puxou da cama (de cima) e o atirou ao chão sem dó nem piedade. A Cristina apercebeu-se de alguma agitação, mas como estava no outro quarto não sabia bem o que era. Contam-me que afinal era o tal Fernando que estava a dormir no colchão à porta do Albergue. Devia ser para se assegurar que o da cruz não voltaria a entrar. Todos concordamos que a discussão foi exagerada e que o Fernando acabou por perder a razão. O pobre homem da cruz, por pior que tenha feito, é um pobre coitado, doido, provavelmente não tem noção de nada, e tudo aquilo foi exagerado.
Faço uma massagem ao meu joelho e tomo o anti-inflamatório. Já tenho algumas dores, o que não é nada bom... Não é normal já ter dores a esta hora da manhã... Se não fosse por ele, acho que seria capaz de chegar ainda hoje a Santiago. Estamos a caminhar a um bom ritmo. Lembro-me que há também o calor e se agora estamos muito bem, daqui por duas horas estaremos todos de pernas inchadas e muito mais cansados. É melhor não fazer grandes planos.
A rapariga, muito bonita, pergunta-nos se encontrámos pelo caminho um homem a fazer publicidade ao segundo café de Calle. Dizemos que sim.
“E disse-vos o quê?”
Ela explica que esse homem é o dono do segundo café e que todos os dias vai para o Caminho dizer mal do primeiro. Chega mesmo a dizer que está contaminado e que as coisas estão todas estragadas. Os peregrinos acreditam e raramente param no primeiro, onde estamos agora. A rapariga diz que já chamou por diversas vezes a polícia, que já fez queixa a uma série de entidades, mas o homem não desiste e continua a fazer esta publicidade enganosa e negativa e a estragar o negócio deste pequeno café.
Ficamos indignados.
Pedimos-lhe que nos tire uma foto e seguimos. Passamos pelo tal café do homem do bosque e compreendemos por que tem de fazer publicidade negativa: o café tem um aspecto horrível.


O sol aquece e nós continuamos no campo. O meu joelho doi cada vez mais...
Numa subida encontramos um monumento triste.
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À direita, no nicho, está um par de botas de ferro. À esquerda uma placa com uma vieira. Por baixo da vieira diz:
“ A GUILLERMO WATT
PEREGRINO
Abrazo a Dios a los 69 años
A una jornada de Santiago
El 25 de Agosto de 1993, año santo
vivas in cristo”
Fico toda arrepiada.
A um dia apenas!
Rezo uma Avé-Maria e um Pai- Nosso por ele e peço ajuda a Deus para que me deixe chegar a Santiago. Nada é garantido e o facto de ter chegado até aqui não significa que o Caminho esteja feito... Coitado do senhor... de onde terá vindo? Como terá morrido? Do coração, provavelmente... 25 de Agosto... devia estar muito calor... e ainda por cima em ano santo! Fico verdadeiramente impressionada!

São 10h30 quando decidimos parar novamente.
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Estamos em Brea (há muitas “Breas” na galiza e esta deve ser a décima por que passamos!) e já fizémos mais 6,5 km. Estamos neste momento a 5 km de Pedrouzo. Chegaremos lá antes da hora do almoço e talvez almocemos noutro ponto qualquer mais à frente.
Peço gelo para o meu joelho... estou com muitas dores e mal consigo andar até à casa de banho.
O Armando e o Chano pedem um Aquarius cada um e perguntam se não queremos também.
Por todo o Caminho vi peregrinos a beber aquilo, mas nunca quis experimentar. Parece-me um refrigerante e não quero beber nada que tenha cafeína ou açúcar a mais. O Armando explica que não, que não tem gaz nem açúcar demais, que é bom porque repõe os minerais que vamos perdendo. Nós ficamos convencidas e experimentamos também. De facto é bom.
Estamos cada vez mais animados e começamos a colocar a hipótese de chegar hoje a Santiago... Se nos mantivermos a este ritmo é possível. O único problema é o meu joelho... A Chris está bem melhor das suas bolhas e nos últimos km já vinha à frente, muito mais depressa que eu e a caminhar muito bem, como se passeasse. A Cristina está mais dorida, por causa das suas bolhas e diz que fica em Pedrouzo, não quer continuar.
Levantamo-nos para sair, muito animados com a perspectiva de chegar hoje e mando mensagem ao meu pai e à minha mãe. Não lhes quero dizer que talvez cheguemos hoje a Santiago para que não fiquem preocupados. Se a minha mãe desconfia, vai ficar preocupada e ansiosa e com medo pelo meu joelho e não vale a pena preocupar-se.
Digo-lhes apenas que já fiz 15 km e peço-lhes que rezem por mim. É o suficiente para que a minha mãe me ligue em pânico... pensa que aconteceu alguma coisa... explico que não, que está tudo bem, que estou muito feliz e que tenho de desligar porque já íamos recomeçar a caminhar. Pergunta se chegamos hoje. Digo que não sei.

Recomeçamos e passa por nós o homem da cruz com o miúdo que dormiu por cima do Chano e um outro.
Caminhamos muito pela estrada com carros a passar. Não gosto disto. É o penúltimo (ou último, quem sabe?) dia e queria continuar pelo campo.
Logo depois de Santa Irene voltamos a entrar no bosque. As dores no meu joelho estão a passar e já caminho melhor.
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Estou feliz, muito feliz.
Um dos fechos da minha mochila rebenta e cai tudo o que tinha lá dentro. Mais um. Já rebentou quase tudo... a cabaça já caiu n vezes e agora vai presa no fecho da mochila da frente, só um dos fechos da mochila funciona e este agora saltou completamente. Era onde tinha presa a minha vieira e guardo-a agora na mochila da frente. O Chano volta a pôr tudo dentro da bolsa e fecha-a com uns alfinetes.
Os papéis inverteram-se e agora é a Chris que caminha à frente. Vai com o Armando. Eu fico um pouco para trás e caminho com o Chano.
Atrás de nós, muito atrás, a Cristina. Vem cheia de dores nas suas bolhas apesar de hoje calçar sandálias, e pesa-lhe muito a mochila.
Estamos quase a chegar a Pedrouzo e o sol já queima.
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Chano fala-me das ilhas. Pergunto-lhe como está, se já tem as respostas que procurava. Diz-me que não, mas que pelo menos saiu da bola e que agora terá a calma e a serenidade para que as respostas cheguem por si. Digo-lhe o mesmo. Falamos um pouco mais sobre tudo isso. Ele está feliz. Enfim, não totalmente, porque o Caminho está a acabar e isso deixa-o triste. Tanto eu como ele queríamos continuar a caminhar.
Esta manhã Armando dizia-me a mesma coisa.
“Não sei como será quando chegar, porque sinto que esta é a minha vida! Parece que sempre fiz isto, que o meu dia-a-dia era este e quando penso na vida que tinha antes do caminho, parece que não é realidade, parece que não existiu. A minha vida é caminhar!”
Mesmo triste por estar a chegar, o Chano parece-me bem melhor do que nos primeiros dias. Parece mais feliz, mais despreocupado. Continuamos a conversar mais um pouco e entramos na estrada.
A Cristina e a Chris querem parar e descansar. A Cristina aliás, quer ficar ali.
Sim, eu também estou cansada, mas talvez fosse melhor aproveitar o facto de o meu joelho estar melhor para caminhar... Ou talvez não... Está muito calor e estou com alguma fome. Vamos parar por ali.
O Armando sugere que pousemos as mochilas no albergue e que procuremos um sítio para almoçar. Descansamos um pouco e continuamos até onde der.
Encontramos o albergue, mas como é meio-dia e meia ainda está fechado. Pousamos tudo e sentamo-nos nuns bancos à sombra. Estão ali as peregrinas americanas. Converso um pouco com elas. Tiraram uma semana de férias e vieram fazer o Caminho. Hoje ficam por ali.
Descalço-me e deito-me no chão, com as pernas para cima.
Converso com Armando e Chano. A Cris e a Christina estão num outro banco mais à frente. Ambas se descalçaram e estão a tratar-se.
Falamos sobre várias coisas, sobre o Caminho, no que nos deu, nas lições que tirámos, no simbolismo do Caminho.
Armando fala-me da música que estava a ouvir. Fala da vida, de como tudo está ligado, das voltas que a vida dá.
É uma da tarde quando nos levantamos.
Entretanto chegaram os miúdos das Canárias. Também vão continuar. Hoje ficarão no Monte do Gozo.
Almoçamos no Regueiro, um restaurante mesmo ao lado do Caminho que o meu guia sugere.
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A Cristina, a Chris e o Armando pedem um menu. Eu e o Chano um hamburguer. Está demasiado calor para comer tanto... Bebemos vinho, claro. E comemos o delicioso pão da Galiza.
Estamos todos excitados e rimos à gargalhada por tudo e por nada. O Armando brinca e diz piadas e tudo é motivo de piada. Ele tem um humor bestial.
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Cristina

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Chris

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Armando

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Eu

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A famosa tarte Santiago


A Cristina e a Chris decidem tomar um relaxante muscular cada uma... que mais tomarão?
O Armando goza... estamos todos viciados em pomadas e medicamentos. Sentiremos a falta destes cheiros e destas coisas quando chegarmos.
Conversamos sobre os nossos planos. A Cristina já desistiu de ficar em Pedrouzo. Caminhará mais um pouco connosco mas só até encontrar um hostal. No máximo até Labacolla.
O Chano e eu queremos chegar hoje a Santiago e achamos que é possível. A Chris e o Armando são os mais cautelosos. Falam do meu joelho e do pé de Chano. Temos os dois tendinites e somos os mais optimistas.
A verdade é que neste momento não me dói o joelho e acho perfeitamente possível fazer 20 km durante a tarde. Não precisamos de ter pressa em chegar, podemos ir parando a cada 5 km e se pensarmos que é 5+5+5+5 parece fácil. É certo que está calor, mas...
Combinamos que vamos ver. Vamos com calma e paramos onde tivermos de parar. Vamos até onde os nossos pés e as nossas pernas nos deixarem ir.
O Chano oferece-se novamente para levar a mochila da Cristina. Ele está por tudo! Quer é chegar hoje!

Diz que se chegarmos hoje a Santiago, oferece-nos o jantar.


Quero escrever, mas não vou tirar o meu caderno da mochila que com estes alfinetes todos dá demasiado trabalho.
Arranco um papel do bloco do empregado de mesa e escrevo lá. Escrevo também no meu guia:
“São duas da tarde, viemos de Arzúa e acabámos agora de almoçar. Vamos tentar chegar hoje a Santiago. Que Deus e Santiago nos ajudem. A alegria já é imensa e a excitação também! Duas semanas maravilhosas!!! E está quase. Obrigada Deus!”
“Estou entusiasmada!”
Na página que tem a etapa Pedrouzo- Santiago escrevo “30.04 de tarde. Oxalá que sim!”
Estou feliz, feliz, feliz! Num excitex que só visto! Sim, eu serei capaz de chegar hoje a Santiago! Até estou emocionada!

11.º Dia de Caminho Parte II- Pedrouzo - Santiago = 23km

Pagamos, aquecemos, fazemos os últimos xixis, enchemos as garrafas e partimos.
Está um calor abrasador e a Cristina entra na farmácia.
“Mas que mais drogas vai esta mulher comprar?”, pergunta Armando. Rimos todos. Acabou de tomar um relaxante muscular, estamos todos quitados com medicamentos e drogas de todos os tipos e a esta altura do campeonato ainda há o que comprar na farmácia???
O Chano continua a alongar e passa alguém que fica a olhar para ele com ar de espanto. Ele está agarrado a uma parede enquanto na borda de um canteiro alonga os gémeos. É o suficiente para que eu me ria até chorar... é mesmo da excitação.
A Cristina volta e recomeçamos a caminhar.
O sol aperta muito e eu arrependo-me de não ter trazido o meu protector solar. Sinto o braço e a cara a arder e adivinho um escaldão.
Mas a Cristina tem protector à mão, na bolsa da cintura e empresta-me.
Ela trocou de mochila com o Chano, mas não se ajeita. Quer a sua de volta.
Claro, depois de quase 300km com a sua, que já se adaptou ao seu corpo, deve ser muito desconfortável ter agora uma mochila diferente, mesmo que seja mais leve. Voltam a trocar.
Caminhamos devagar, para não nos rebentarmos.
A Chris e o Armando estão à frente, o Chano continua a caminhar comigo, e a Cristina continua atrás.
Ela queixa-se muito. Diz que somos todos malucos, que se chegar hoje a Santiago quer ser canonizada.
“Claro que sim! Santa Cristina de las Ampollas!”, diz-lhe Armando. Rapidamente arranja nome para todos nós no caso de sermos também canonizados.

Voltamos a entrar no bosque e aqui está-se melhor, mais fresco.

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Está muito calor e custa muito caminhar... apetecia-me fazer uma sesta, ou sentar-me num sítio fresco, mas quero também chegar a Santiago. Quero muito.
“Se chegarmos hoje a Santiago quem vai para o hospital sou eu, em coma alcoólico!”, digo eu, enquanto chamo uma série de nomes menos bonitos a esta terra maldita que é cheia de subidas e descidas... Hoje merecerei tudo! O Chano diz-me para pensar em toalhas, lençóis, água quente, cama... sim, e penso também num quarto só com a Chris, sem ninguém por cima de mim a mexer-se, sem roncos...
Imagino a minha cama no Porto, o meu quarto vazio e sinto uma angústia enorme. Acho que vou sentir-me muito sozinha quando voltar... já não terei mais ninguém no meu quarto...
O bosque não dura por muito tempo e em breve chegamos a uma estrada. Olho tudo em volta com mais amor ainda. Penso nos milhares de peregrinos que ao longo destes mil e tantos anos passaram por aqui, sem as condições que eu tenho hoje, sem estradas, sem albergues, com sol e chuva. Todos nós tínhamos o mesmo objectivo, mesmo que por razões diferentes e fico contente por existir ainda um Caminho de Santiago. Um Caminho com mais de mil anos que eu estou agora a percorrer.
Há por aqui várias subidas e descidas ainda e afinal o Caminho não é tão fácil como se dizia.
De vez em quando passamos por um casal jovem. Encontramo-los sempre parados, deitados no chão. Nunca passaram por nós. Talvez tenham passado sempre que parámos nos cafés. Vi-os pela primeira vez em Arzúa, ontem, no albergue. São os dois muito bonitos. Ele parece o Brad Pitt.
Chegamos ao aeroporto, o que quer dizer que estamos já muito perto de Labacolla. A cada marco que passamos, o nosso coração enche-se de alegria... 15, 15,5, 14, 14,5...
Faltam 13 km para Santiago, estamos a chegar a San Paio onde vamos parar e eu e o Chano esperamos um pouco pela Cristina. Estamos mesmo ao lado do aeroporto. É nessa altura que o meu joelho começa a doer muitíssimo. Não devia ter parado! De repente quase que não o consigo mexer e é com uma enorme dificuldade que recomeço a caminhar.
Chego a San Paio a arrastar o joelho e peço gelo à senhora do hostal-restaurante onde entramos.
Estão ali vários peregrinos que encontrámos no Caminho. Uns ficarão ali, outros no Monte do Gozo. Todos nos dizem que somos doidos por querer chegar hoje a Santiago.
Na verdade, o alemão do tal casal de Airexe que ontem estava em Arzúa disse-me que não era muito boa ideia chegar amanhã a Santiago, a menos que fosse de madrugada. Os miúdos das escolas vão chegar Domingo também e muitos outros peregrinos e a fila para as Compostelanas vai ser enorme e não conseguiremos ter a nossa antes da missa.
Explico isso a um peregrino dinamarquês que conheci em Villafranca no albergue do Jesus. Explico também que amanhã quero acordar tarde (nove horas pelo menos) que não quero dormir mais uma noite num albergue, que quero ter uma cama e não um beliche, que quero um banho de espuma em vez de um duche frio de dois minutos... que não quero dormir no saco-cama que ultimamente se enrola todo durante a noite... Ele ouve-me com atenção, mas continua a achar uma loucura.
Há ali também uma italiana com uns comprimidos naturais que curam tudo e o Armando pede-lhe um. Estamos já completamente viciados em tudo o que seja pastilha...
Bebemos os nossos Aquarius e pedimos mais uma rodada. Estamos viciados nisto. Nesta altura estamos já dopados mesmo e rimos por tudo e por nada... os outro olham para nós como se fossemos doentes mentais.


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Estamos todos estropiados e no entanto rimos até às lágrimas com as maiores idiotices e ainda queremos chegar a Santiago hoje.
Chegam entretanto os miúdos de uma das escolas e o casal jovem e bonito. O Armando fala com o rapaz. São dinamarqueses.
Recomeçamos o Caminho embora eu tenha dores horríveis no joelho. Tomo outro anti-inflamatório mas parece que o meu joelho arde por dentro de tão quente que está. Imagino o motor de um carro que sobreaqueceu.
Como caminho com dificuldade, o Chano e eu partimos na frente. Há uma grande subida e as dores são indescritíveis. Começo a duvidar que consiga chegar hoje a Santiago... Nós não falamos, só caminhamos e eu tento não me concentrar na dor.
Entramos numa aldeia e passamos por uns peregrinos franceses com umas mochilitas pequeninas. Chega um carro com matricula francesa e percebo pela conversa que são peregrinos com apoio de carro. Para eles é fácil... No fundo, fico com pena deles.
Há uns montes à nossa frente e imagino que tenhamos de os subir. O Chano pergunta a um homem qual é o melhor caminho para chegar a Santiago: o Caminho ou a estrada. O homem diz que é o Caminho, que só teremos mais esta subida e que depois é tudo plano, que por ali vamos mais protegidos porque há árvores. A estrada é mais quente e perigosa e não compensa.
Vamos pelo Caminho, então.

Subimos. Eu já não tenho mais truques para que a coisa custe menos. Custa de todas as maneiras. O Chano sugere que eu caminhe de costas mas dá igual. O meu joelho dói até mesmo parado e eu imagino que chegando a Santiago terei de ir para o hospital. Mas era esse o acordo com Deus: deixar que eu chegasse a Santiago mesmo que ficasse toda rebentada.
No alto da subida, alerta ampollas: o Armando tem de parar e pôr vaselina. Empresto-lhe a minha que é a que está mais à mão. O Chano fica com ele mas nós, meninas, continuamos. Voltamos a cantar. Agora o Caminho é plano mas muito feio. Estamos ao lado de uma estrada e digo mal do homem que nos disse que este era melhor. Tem subidas sim (já vejo mais umas descidas e subidas ao fundo), não estamos nada mais protegidas do sol e é feio!
Passamos pela TV Gallega e Armando e Chano aproximam-se. Vamos parar em San Marcos, que fica a 1km do Monte do Gozo. A Chris precisa de parar para fazer não sei o quê.
Eu digo que talvez seja melhor que eu continue. O meu joelho está um pouco melhor. Tenho medo de parar e ficar com tantas dores que não consiga caminhar mais. Foi por ter parado antes de San Paio que fiquei com tantas dores e não quero isso outra vez...
O Chano diz que se eu continuar acompanha-me.
O Armando e a Chris vão parar e a Cristina quer ficar no Monte do Gozo. Trocamos números de telefone para nos encontramos em Santiago e eu percebo que se eu continuar a caminhar talvez chegue primeiro a Santiago. A Chris entretanto diz que já não quer parar, que vai continuar comigo, mas eu sei que ela precisa de parar. Ela hoje deu-lhe forte e deve estar cansada.
É a decisão mais difícil de todo o Caminho e peço a Deus um sinal. Todos os sinais que lhe peço dizem-me para continuar, mas mesmo à entrada de San Marcos decido parar. Quero entrar em Santiago com a Chris e não vou arriscar não o fazer. Santiago só faz sentido se chegar com a Chris, a minha companheira de sempre! Claro que quero entrar com todos eles, com Armando e com Cristina, se der. Depois do dia de hoje, quero entrar com os 4 e acho que devemos entrar os 5 juntos! Mas essencial é mesmo a Chris e tenho de parar com ela.
Paramos todos.
As dores no meu joelho são tantas que mal me arrasto. Está um calor insuportável lá dentro e sentamo-nos cá fora a beber os nossos Aquarius, a nossa droga. Que pena não ter descoberto esta maravilha mais cedo...
Estou cheia de fome e com muita vontade de fazer xixi, mas nem posso pensar que tenho de caminhar até lá.
Há ali uma balança e o Chano pesa-se. Também tenho curiosidade de saber quanto estou a pesar agora. Acho que estou mais magra, mas por outro lado tenho uma barriga que não tinha quando cheguei. E devo ter muito mais músculo e o músculo pesa mais. Não tenho coragem de me pesar, porque isso implica tirar o gelo que tenho no joelho, pôr-me em pé e caminhar, e não consigo.
O Armando tenta fazer-me uma massagem no joelho, mas está demasiado gelado. Limita-se a aquecê-lo com uma mão por cima e outra por baixo. Dividimos o meu chocolate. Ele também é guloso.
O Chano começa a ligar para os hotéis todos em Santiago. Traz uma lista enorme de hotéis que já tinha visto antes de vir para o Caminho. Está tudo cheio, mas ele continua. Finalmente deixa uma reserva feita no Hostal Windsor. O problema é que fica a 10 minutos do centro e nós queremos um hotel ao lado da Catedral para não termos de caminhar mais. Hoje podemos ir e vir de taxi, mas amanhã e depois...
A Cristina liga para a família e diz que afinal chega já amanhã. Diz que está com uma brasileira e uma portuguesa malucas que a querem arrastar para Santiago ainda hoje, mas ela não consegue. Tem muitas bolhas e vai ficar ali em San Marcos, porque há ali um hostal.
Reparo no pé dela. Acabou de aparecer uma bolha enorme de lado. Parece que vai rebentar a qualquer momento e não consigo compreender como é possível que apareça uma bolha ali naquele sítio. E daquele tamanho! Dói-me só de olhar.
O Armando não consegue massajar o meu joelho e então tira-me a bota e a meia para me massajar o pé. Fico com vergonha. Não gosto dos meus pés que são muito feios, mas não estou em posição de ter vaidades neste momento. Afinal de contas a aparência do meu pé é o que menos importa agora... estou cansada, suja, malcheirosa, queimada do sol... Ele diz-me que os meus pés são bonitos e que estão muito bem tratados. Nunca os tratei. Limitei-me a passar talco ou vaselina por causa das bolhas. E por falar em bolhas, acho que está a nascer-me uma no pé esquerdo, mesmo no tornozelo.
Chega entretanto o casal dinamarquês bonito. Bebem qualquer coisa enquanto se sentam a conversar connosco. São muito simpáticos e descubro que são eles os amigos do Paul, o velhote belga que fez o Caminho do Norte. Eles falam do que se passou esta noite no Albergue. O rapaz dormia por cima do Armando, mesmo ao lado do velho da cruz e também assistiu a tudo. Fez-lhes muita confusão porque, tal como o Paul, estavam habituados a ter o albergue só para eles e de repente não só encontram muita gente, como ainda assistem a uma discussão daquelas.
Depois de conversar um pouco, eles decidem ir também para Santiago hoje. O Chano indica-lhes um restaurante e diz que é onde estaremos hoje. Gato Preto.
Vou à casa-de-banho a muito custo. O meu joelho agora dói menos e peço a Deus que me acompanhe nestes últimos 6km.
Pegamos nas nossas mochilas e preparamo-nos para seguir. São 6h30.

O rapaz fica admirado com a quantidade de coisas que trago comigo. Tudo pendurado. De facto nem sei o que pareço.
Tenho uma mochila grande, uma mochila pequena à frente, uma bolsa à cintura, um cajado com um cachecol pendurado, a cabaça pendurada na mochila da frente. Um poncho de lã pendurado na mochila das costas, uma sweat à cintura e uma t-shirt presa numa alça da mochila grande. Explico que é o que fui despindo e que assim não pesa tanto, porque está mais repartido. E pergunto porque raio tem um ténis calçado num pé e no outro uma bota. Os pares estão pendurados na sua mochila. É a namorada que explica: as botas magoavam-no num pé e os ténis no outro. Então ele deu-lhe a ideia de se calçar com os dois: o ténis no pé que a bota magoava, a bota no pé que o ténis magoava. Hoje está muito melhor e caminha muito bem!
Despedimo-nos e voltamos a caminhar.
A Cristina decide vir connosco afinal.
Mais uma subida e já se vê Santiago. Está muito muito perto, mas ainda temos 5 km até à Catedral. Começo a ficar emocionada e angustiada. O Caminho está mesmo a acabar e agora não há como não chegar. Dado o primeiro passo depois de San Marcos, não há como voltar atrás.
Mais uma descida e uma ponte à nossa frente. Olho a placa ao nosso lado
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Peço à Chris que me tire uma foto com a sua máquina. Só tenho mais duas fotografias e quero guardá-las para a Catedral.
(a Chris tirou mas não mandou ainda e a que está por cima é do Chano)
Procuro o meu telemóvel para ver as horas, mas está desligado, sem bateria. ( não sei se foi a Chris que me disse, mas tenho a ideia de que eram 7h30)
Conseguimos! Estamos em Santiago! Rimos as duas e damos as mãos. Nós conseguimos! Nós conseguimos! Nós conseguimos! Contra tudo e contra todos, fizémos o Caminho de Santiago, o nosso Caminho, à nossa maneira e caminhámos mais de duzentos quilómetros. Estamos em Santiago! Conseguimos!!!
Estou tão feliz...
Faltam ainda alguns quilómetros até á Catedral, onde termina o Caminho.
Enquanto atravessamos a cidade, estes 11 dias tão intensos passam à minha frente, como cenas de um filme a que assisti. Custa-me a crer que tenham passado só 11 dias. Vejo o aeroporto de Leon com a avionetazinha que nos trouxe de Madrid, o albergue das monjas e a chegada, o medo e a excitação na bênção da primeira noite, o vento de Leon e Villar de Mazarife e Fabiana. Vejo Santibañez e a velha do albergue manhoso, a holandesa que vinha da Holanda a pé, Astorga e o francês que apregoava a tempestade, Santa Catalina, Andrea, os velhotes espanhois e o Americano. O dia de Ponferrada e Villafranca. Jesus e Angel. O Cebreiro e Eduardo e a sensação de que tinha saltado uma parte importante. A camioneta e todas as aldeias e as etapas que saltámos. Todos os meus medos e tristezas, todas as alegrias. O recomeço, Chano, Portomarín, Airexe... O reencontro com os espanhóis, os portugueses, Melide. Ontem e hoje. E hoje parece que durou uma semana. Sinto Armando e Cristina como amigos de sempre. Chano nem se fala e Chris é como uma irmã. Nem acredito que daqui por uns dias voltaremos a ter um oceano a separar-nos.

Aperto o meu cajado bem forte e despeço-me dele, agradecendo-lhe a companhia e a ajuda que me deu... o meu companheiro de tantos quilómetros.
A Chris continua, mecanicamente, a anunciar a sua chegada com o cajado: tok, tok, tok.
Armando diz-me que está muito orgulhoso de todos nós. Que maravilha que é chegar com amigos. Tivemos a chegada que merecíamos, com as pessoas que merecíamos.
É engraçada a vida.

No Caminho, tal como na vida, fazemos amigos que entretanto perdemos. Mais adiante reencontramos alguns e conhecemos outros. E só se tornam nossos amigos porque perdemos os anteriores, porque ficámos disponíveis, receptivos. O Caminho, como a vida, é cheio de encontros e reencontros e perdas e ganhos.
Mais uma lição: não vale a pena ficar triste e presa ao passado porque a vida é um grande ciclo, ou uma sucessão de ciclos. E o que se perde agora recupera-se mais tarde. Mas só recuperarei se estiver aberta a isso, desligada do passado, se aceitar que o passado é isso mesmo.

A Cristina continua lá atrás e de vez em quando esperamos por ela.
A Chris continua com a pica toda e quer chegar rapidamente à Praça do Obradoiro. Está sempre a perguntar se ainda falta muito. Sim, um bocado, mas vai parecer muito mais. Foi sempre assim. Os últimos quilómetros foram sempre os que pareciam demorar mais tempo, principalmente em cidades. Agora será pior, porque são os últimos quilómetros do Caminho. Curiosamente, nem me parece isso. Parece-me que o Caminho já acabou. Estes já não contam. A etapa de hoje está feita. E está feito o Caminho, embora ainda não seja capaz de realizar isto.
Chegamos ao centro, eu continuo a ver as imagens mais marcantes do meu Caminho, a lembrar todas as minhas lições e a agradecer a Deus. Tenho tanto para agradecer!!! Estou tão agradecida!!! E vou-Lhe pedindo que permita que estes efeitos se mantenham em mim por muito tempo. Que o espírito do Caminho não esmoreça nunca!
Já avistamos as torres da Catedral.
Mais um pouco e aqui está ela!
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Apesar de tudo é visível a minha cara de felicidade. Extrema felicidade.
A Cristina chora como um bebé. Eu estou também muito emocionada. Todos estamos e ninguém fala.
Damos a volta e chegamos enfim ao Obradoiro. Agora sim, a nossa peregrinação acabou. Aqui estamos nós. Doridos, cansados, malcheirosos, mas terrivelmente felizes! A Catedral à nossa frente. Nós juntos.
Abraçamo-nos os cinco. Conseguimos! Nós conseguimos! 43km num só dia, debaixo de um sol abrasador. O dia mais quente de todo o Caminho (uns 30 graus, imagino).
Eu, o Armando e o Chano com tendinites, a Chris e a Cristina com bolhas e conseguimos. CONSEGUIMOS!!!!!!!!!
Não consigo dizer nada. Só quero continuar a abraçá-los a todos e a saborear aquele momento. Eu consegui! Eu consegui!
A minha auto-estima está lá em cima, tão alta como as torres desta catedral. Se eu consegui isto, consigo tudo! Dou-me conta que afinal era isto que procurava. Vim para aqui em busca de respostas mas no fundo, no fundo, o que eu precisava era de recuperar a minha auto-estima. Agora vejo isso. Nada me preocupa. As respostas virão. Eu gosto de mim. Sei que sou capaz de conseguir tudo o que quiser ser ou fazer porque tenho uma vontade de ferro! E tudo o que se quer com muita força consegue-se.
Eu consegui fazer 150km com uma tendinite!
Eu consegui caminhar estes 43km com calor e dores de meia-noite. Eu consegui chegar a Santiago.
Eu consegui amar-me!
Sinto uma paz enorme! Eu gosto de mim e afinal é essa a resposta para todas as perguntas. Eu gosto de mim!
Baixei as minhas defesas como nunca e dei. E dei-me. Sem pensar, sem pedir nada em troca, sem esperar nada, sem medo nenhum. Dei-me. E recebi tanto em troca!!!
Amei os meus amigos e sinto o amor deles. E é esse amor que faz com que neste momento eu me ame a mim também.
Então é isto a felicidade...

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sexta-feira, abril 29, 2005

ARZÚA

A hospitaleira pede-nos que esperemos um pouco. Cheira a limpo e tem muito bom aspecto este albergue. Ela volta e indica-nos o caminho até ao quarto. Ali distribui-nos pelas camas: um em cima, dois em baixo. Já lá está um peregrino mal-cheiroso numa das camas de baixo. De resto o quarto está vazio. Tanto o Chano como a Chris preferem ficar em baixo e eu não gosto de camas de cima. Além disso o meu joelho não está em condições de subir e descer escadas. Se o quarto está vazio, posso escolher e escolho também eu uma cama de baixo. A hospitaleira volta com mais duas crianças.
“Então? Eu disse que era uma em cima e duas em baixo!”
“Pois foi, mas nenhum de nós está em condições de subir para uma cama de cima: eu estou mal do joelho e eles os dois dos pés.”
Ela fica mal disposta (não é nada simpática) e diz que a esta altura do campeonato toda a gente tem queixas e que se assim fosse então ninguém ficava com as camas de cima. Eu ainda respingo... o quarto está vazio, eu cheguei primeiro, posso escolher! Mas também posso sair e esperar que a cama de cima esteja ocupada e entrar quando souber que ela me vai atribuir uma cama de baixo...
Fico com a minha caminha e pronto.
O quarto é bonito e está impecavelmente limpo. Tem as janelas todas abertas, as paredes são de pedra e as camas são de madeira e têm umas cobertas com florzinhas miudinhas. É lindo e cheira muito bem. Enfim... nós entretanto descalçamo-nos e o peregrino inglês que lá está tem ar de quem já não toma banho há muito muito tempo. As unhas dele são uma coisa indescritível. O cheiro a detergente rapidamente se mistura com um cheiro menos bom, mas como as janelas estão abertas...
Nós pomos as nossas botas na janela do hall. Estamos com muita fome e preferimos comer antes de tomar banho, até porque entretanto estão a chegar os miúdos todos.

Vamos para um café um pouco abaixo do albergue. Temos fome mas o calor é demais... A Chris e eu pedimos uma salada mista cada uma (na verdade é uma salada de atum) e dividimos uma tortilha de batata. O Chano pede um bocadillo de tortilha, mas para variar, trazem-lhe um pão inteiro. Não admira que estes galegos sejam todos gordos!
Conversamos sobre amanhã. Chano vem connosco outra vez e concorda com o plano: acordar de madrugada para começar a caminhar às 7. Já somos um grupo de 3 e não de 2. Ele brinca e diz que nós os dois levantamo-nos às 6 mas a Chris tem de se levantar às 5.
Eu volto ao meu “amuo”. Ele diz que se explicou mal, que quis dizer que lhe parecia, no início, que a Chris se preocupava muito comigo, mas agora já não sabe. Diz também que estava a brincar quando ontem disse que eu ressonava. Na verdade nunca me ouviu ressonar. Acrescenta que acha muito sexy uma mulher que ressona!!! Credo! O sol fez-lhe mal à moleirinha! Isso ou o Caminho, que tantos quilómetros no meio do mato a ver nada mais que peregrinos, devem ter os seus efeitos na cabeça das pessoas...
Explica que isso e uma barriguinha são o que ele considera mais sexy numa mulher. Gosta de mulheres naturais e não há nada mais natural que ressonar e ter barriga. Digo-lhe então que nesse caso, não há peregrina que não seja sexy porque nada há de mais natural, de menos artificial que a mulher peregrina. É impossível disfarçar o que quer que seja aqui no Caminho. Afinal de contas dormimos juntos, ressonamos, acordamos juntos (para mim nada há de mais íntimo), escovamos juntos os dentes, suamos e cheiramos mal, sofremos e alegramo-nos... partilhamos tudo com toda a gente que nos acompanha, que dorme connosco no albergue, que faz parte do Caminho connosco. Não há como esconder o que quer que seja. Aqui somos levados ao limite. Tudo é levado ao limite. E somos todos o mais naturais que podemos ser.

Acabamos o nosso repasto e nem temos sequer vontade de comer tarte Santiago. O calor dá cabo do nosso apetite. O Chano oferece-nos o almoço e nós combinamos que então lhe ofereceremos o jantar.
(mas acabamos por nos esquecer)

Voltamos para o Albergue e reparamos que estão lá dois grupos de crianças: os bascos, que são os tais 15 que dormiram com os portugueses e que estão no nosso quarto, e os das Canárias que estão “acampados” em colchonetes no que costuma ser a cozinha do albergue.
Da casa de banho, que outrora foi limpa e arrumada, sai uma nuvem de vapor acompanhada de gritaria e gargalhada. São as meninas todas que por lá estão a tomar banho e a deixar tudo num caos.
Tento ir eu também tomar banho mas apesar do cilindro gigantesco, já não há água quente. Prefiro então esperar uma hora ou duas e então subo outra vez para descansar. Dormimos mal e vai saber-nos bem uma sesta.
O Chano escreve no seu diário e a Chris já se deitou depois de ter expulso, a muito custo, os miúdos gordos que estavam sentados na sua cama. Na cama ao lado da da Chris está o peregrino inglês mal-cheiroso e vai conversando com uma das miúdas bascas. Os outros miúdos estão sentados por ali, ao lado da cama da Chris e todos conversam altíssimo, como se nenhuma de nós ali estivesse. Caramba! Em quase todos os albergues há avisos quanto ao sono do peregrino: é sagrado! Em todos os textos que li sobre o Caminho se dizia a mesma coisa: não faça barulho no quarto porque algum peregrino pode querer descansar e o descanso do peregrino é sagrado. Mas estas crianças não compreendem isso. Ponho a venda e os tampões mas eles continuam como se nada fosse. E o que mais me custa é o inglês que é já um homem feito, e alimenta esta excitação toda. Podiam ao menos ir conversar para lá para baixo, ou para o jardim do albergue...
A Chris e eu vamos fazendo schh de vez em quando, mas eles querem lá saber. Ao fim de uma hora a Chris decide levantar-se. Eles acalmam e eu adormeço finalmente.
Dormi quase uma hora e quando acordo a Chris já tomou banho e já está a ver que roupas vai lavar. Ali não há lavadora. As meninas das Canárias lavaram as suas roupas à mão mas nós temos tanta caca que aquilo só vai lá com água quente e máquina de lavar. Além disso, desde O Cebreiro que não lavamos a roupa como deve ser e mesmo aí foi com o champô e o gel de banho da Chris e a coisa não ficou muito bem. Vamos pôr tudo numa lavandaria.
Eu desço também para tomar um banho. Ainda estou meio a dormir, mas acordo rapidamente: a água está gelada!!! Mas não vou esperar mais tempo porque vão chegando mais peregrinos e imagino que a água não volte a aquecer. Vai de fria mesmo. Já não tomo um bom banho de água quente há uns dias. Nem sei quando foi a última vez. Talvez no Cebreiro...

Saímos para a lavandaria, de roupas na mão e à saída encontramos a Cristina. Está no quarto do “velhos”. Ela tem 53 anos e já não é considerada jovem. Por um lado é melhor porque o quarto dos velho é sempre mais sossegado. Mas por outro... a sinfonia de madrugada é sempre muito maior... são os velhos os que mais roncam.

A lavandaria está fechada e nós aproveitamos para fazer os telefonemas do costume. A Cristina liga à família do marido, que a vai buscar a Santiago, que chega na segunda-feira. Quer ir com calma. Amanhã vai até Pedrouzo, no Domingo até ao Monte do Gozo e na segunda chega a Santiago. Está com muitas bolhas e tem muita dificuldade a andar.
Eu ligo à minha mãe que, apesar da resistência do início, está a acompanhar o meu Caminho a par e passo. Sabe sempre onde estou e calcula sempre onde vou chegar no dia seguinte. Diz-me que andamos a subir e a descer. Por acaso andamos, mas acho que não é a isso que se refere. Diz que o tempo amanhã vai ficar pior, que dão chuva e descida da temperatura. Ainda bem, que não aguentarei outro dia com este calor. De facto, nós já passámos por tudo! Nortada, frio, vento forte, chuva torrencial, lama, calor, humidade... tudo! Já não devo precisar do meu poncho, mas estou a dois dias de Santiago. Se já o carreguei até aqui, já não vale a pena estar a mandá-lo para Santiago.
Tenho pena que o Caminho esteja a acabar e já cheira mesmo a fim, a últimos cartuchos.

A lavandaria abre e nós pomos lá as nossas roupas. Vai custar €10, o que é caro, mas não há outra hipótese. É também uma certa vaidade: estou prestes a chegar ao meu destino e quero ter pelo menos uma muda limpa, ou menos suja, para chegar a Santiago.

Damos umas voltas pela cidade. Não podemos cozinhar hoje, porque a cozinha está ocupada com as crianças, mas levamos um vinho para tomar antes do jantar. O albergue tem um patiozinho simpático que me apetece aproveitar. Compramos também coisas para o pequeno-almoço de amanhã. A Cristina também virá connosco e ficaremos os quatro em Pedrouzo. Ou talvez tentemos ir um pouco mais longe, para ficar o mais perto possível de Santiago. Amanhã veremos como corre o Caminho.
A Chris e eu compramos também umas camisetas. São do género do meu top, que na verdade é uma camiseta de cavas. Os próximos dias serão quentes e preciso de dois em vez de um.
Já desisti de procurar o fecho para a minha peiteira. Já fiz quase todo o caminho com o saco plástico ao peito, não vale a pena estar a preocupar-me mais com isso.

Voltamos para o Albergue. Eu vou ao quarto pousar as compras e desço com uma laranja na mão. Tenho fome, mas só me apetecem coisas frescas. Sento-me ao lado do Chano que está ali também. Quem também está ali é a nossa velhota-avózinha de Airexe. Reparo que tem uma deficiência no ombro. Uma marrequinha. É tão querida esta senhora. Não sei como faz... caminha devagar mas chega sempre ao mesmo sítio que nós. E tem um ar super-frágil, mas não deve ser nada! Que coragem! E sempre com aquele sorriso de avózinha querida.

Entretanto chega Armando. Ou melhor, já chegou e já se instalou. Agora desce e senta-se connosco. Está com dores no pescoço e nas costas e Chano explica-lhe como deve apertar e regular a mochila. Ele não sabia nada e chega à conclusão que fez o Caminho quase todo com um sofrimento desnecessário.
Está escaldado no pescoço. Não estava preparado para o calor de hoje. É engraçado e divertido este Armando. Estranho que esteja aqui, pois tinha dito que ia ficar em Ribadiso. Ele explica mas já nem sei porque decidiu continuar. Descansou só um pouco em Ribadiso e decidiu ir até Arzúa.

Ele sai para comer e a Chris e eu vamos buscar as nossas roupas à lavandaria. À saída reparamos num homem estranho que está à porta. Já o tinha visto mais cedo e percebi que era amigo da hospitaleira, ou pelo menos seu conhecido. É velho e tem ar de pedinte, ou maluco. Ou as duas coisas. Traz uma cruz enorme com uma foto. Não percebo se é peregrino embora esteja ali no albergue.
“Estás a ver, Chris, é por isto que temos de ter cuidado no albergue e andar sempre com as nossas coisas. Entram estes malucos, não há vigilância nenhuma e qualquer pessoa entra no quarto e leva o nosso dinheiro.”

Algumas roupas ainda estão húmidas (as minhas, para variar) e têm de ser penduradas. Eu vou para o quarto pousar as nossas roupas e buscar o vinho e os copos que comprámos. A Cristina tinha comprado aperitivos e trá-los também. Quando volto para o patio, a Chris está a conversar com um velhote. Como de costume diz-me:
“Olha só, Joana, ele é belga! Já falei p’ra ele que você fala francês e que vai conversar com ele!”
Rio-me para dentro. A Chris é tão engraçada! “Oferece-me” a toda a gente! Acho tão engraçado!
Parece uma criança! Volto a pensar no que o Chano disse. Eu é que me sinto a adulta da “relação”. Acho o máximo!
Dou-me conta de que, acabado o Caminho, volto a estar sem a Chris e sinto um nó no estômago. Durante estes dias, criei a ilusão de que nunca mais me iria separar dela.
Vem-me à ideia o nosso almoço de despedida em Coimbra, quando imaginei que nunca mais a iria ver. Era tudo tão diferente! A Chris parece-me outra pessoa. Em Coimbra tão mais velha que eu, aqui tão mais nova... Às vezes, como agora ou sempre que se ri, parece-me mesmo mais nova que eu. Ela é mesmo muito engraçada.

Estendo as nossas roupas húmidas e volto para o sítio onde ela está com o velhote, com quem começo a conversar. Pergunta-me o que tenho no joelho (desta vez é bem visível porque estou de calções e joelheira). Como não sei dizer tendinite em francês uso a palavra espanhola. Há expressões que toda a gente compreende aqui, mesmo que não fale uma palavra de espanhol: tendinitis, ampollas, hasta luego, buen camino, agua caliente e calefacción. É a linguagem do Caminho e faz parte da sobrevivência de qualquer peregrino.
O senhor, que se chama Paul, pergunta-me então se eu quero que me ajude, se pode fazer uma coisa. Não magoa, explica ele, e talvez me ajude.
Claro que sim! Toda a ajuda é bem vinda!
Diz que é magnetizador e que gosta muito de fazer isto. Começa a sua sessão, muito parecida à que Jésus fez em Villafranca.
Primeiro “desbloqueia” o caminho. Diz-me que tenho problemas no fundo das costas, pergunta se me dói. Digo que não. Ele guina a cabeça, como quem diz “como queiras... talvez seja”. Volta a passar as mãos pelas costas (sempre sem me tocar) e repete o mesmo.
“Não, não! Tem dores aqui!”
“Asseguro-lhe que não!”
“Sim, sim. Tem um mal qualquer... tem problemas afectivos.”
“Sim”, digo timidamente com um meio sorriso. Mas imediatamente penso “que os não tem???”
Ele continua. Diz que problemas com joelhos reflectem medo da morte. Mais uma vez tenho de lhe dizer que não. Chateia-me isto, porque dá a sensação que não estou a levar a sério, que não estou a acreditar nele e eu quero acreditar, eu estou receptiva a tudo isto. Explico que da minha morte não tenho medo algum, mas sim das pessoas que amo.
Continua a sessão, com uma série de perguntas. Uma delas é o que quero mais numa palavra. Força, digo eu.
Ouço chegar um casal muito barulhento que cumprimenta a Cristina com uma grande festa.
A sessão termina e Paul diz-me que terei de contar 3 dias a partir de hoje. Ao terceiro dia terei de pôr a minha mão sobre o meu joelho e pensar numa palavra, na palavra que quero para o meu joelho. A partir daí, sempre que tiver dores, só terei de repetir o mesmo.
Agradeço e continuamos a conversar enquanto bebemos o vinho.


Armando volta, furioso. Tinha ido comer e esperou 10 minutos. No café onde estava o empregado não o via! Desistiu e irá comer connosco.
A Chris diz-me que o casal que chegou, ruidoso, é o tal que armou discussão num albergue com a hospitaleira. A Cristina tinha-nos contado isso. Num albergue, já não sei onde, ela acordou com uma gritaria sem sentido. Era o peregrino que discutia com a hospitaleira.
Conversamos com Paul. Ele fez o Caminho do Norte que é o mais difícil. Durante todo o seu Caminho apenas encontrou um casal dinamarquês. O Caminho estava vazio. Hoje, o Caminho do Norte encontra o Caminho Francês e de repente ele está num albergue com montes de gente. Faz-lhe tudo muita confusão. Diz também que só vai chegar a Santiago na segunda feira porque só aí estará preparado para voltar para o mundo.
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São sete horas e decidimos ir jantar. Convidamos o Paul que nos diz que está á espera dos seus amigos dinamarqueses.

O nosso grupo está agora maior: a Chris, eu, o Chano, a Cristina e o Armando.
No restaurante está o inglês malcheiroso e convidamo-lo para a nossa mesa.
Eu vou à casa-de-banho e quando volto é a mesma conversa: quem fala inglês? A Joana! Lá terei eu de fazer conversa com o inglês.
Tem 30 anos, começou o Caminho em Saint-Jean e daqui por um ano será advogado... para não variar.
O César, um dos portugueses, também está a uma cadeira de acabar o curso de Direito e depois disso fará o estágio... advogados, juristas, futuros advogados... o Direito deve dar a volta à cabeça de muita gente...
O jantar é divertido, como sempre e é de facto uma maravilha estar aqui.
Armando comprou um lencinho de seda branco para pôr ao pescoço e rimos imenso com ele. É divertidíssimo. Alinha também no nosso plano: amanhã seremos cinco! Caminharemos o mais que pudermos, ficaremos num hostal algures entre Pedrouzo e Santiago e Domingo acordaremos cedo outra vez e estaremos na missa ao meio dia já com as nossas compostelanas.
Continua a conversa típica do peregrino e eu e Armando discutimos pomadas. Eu acho que as minhas são as melhores, ele acha que são as dele.
“E pernas cansadas? Eu tenho uma de hortelã e...(???)”
“Arnica? É que eu também tenho uma de hortelã e arnica para as pernas cansadas!”
“Não, não é arnica. E cheira bem? A minha tem um cheiro...”
Rimos. Isto de facto é de doidos mas de que mais havemos de falar?
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Entretanto chegaram vários peregrinos para jantar. Na mesa ao lado da nossa estão três. Um com um ar deplorável de mendigo que já tinha encontrado algures... julgo que no café de Gonzar. Viaja com um cão sarnento. Com ele está o tal casal barulhento. Ele chama-se Fernando ou qualquer coisa parecida. Tem ar de porco mas de facto tem uma presença incrível. Ele sozinho enche a sala. Tem uma voz cavernosa. A namorada tem um ar limpinho. É inglesa. Diz-me o inglês que eles são uma “pareja del camino”. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa.
“É impressionante a quantidade de pessoas que se conhecem e apaixonam no Caminho, não é?”, diz-me ele. “A sério? Nunca me apercebi. Nem sequer sabia que isso acontecia.”
É verdade pelos vistos. Parece que é mais comum do que se pensa. Eu confesso que sempre achei que este Caminho seria uma coisa tão espiritual, tão mais acima, que não haveria espaço para paixões e amores... mas talvez seja mesmo por isso... tanta espiritualidade faz com que as pessoas estejam mais disponíveis para o amor talvez.

Saímos para tomar um café e não paramos de rir. Armando é de facto divertidíssimo e com o seu pañuelo fica demais...
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Continua a risota no café... estou já com dores na cara...
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Voltamos a discutir a etapa de amanhã e Armando recebe um telefonema da cunhada. Ela já fez o Caminho e diz que a partir de agora acabaram as subidas e descidas. O Caminho é quase todo plano, por asfalto e faz-se muito bem. É fácil, portanto, estaremos todos muito bem acompanhados uns dos outros.

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Finalmente recolhemos. Amanhã eu acordarei a Cristina e o Armando ("vais reconhecer-me pelo pañuelo") e seguimos os cinco.
Está um fedor no quarto que não se pode!!! Os monitores dos miúdos são gordos e fedorentos e nenhum deixou as botas lá fora! Todos conversam alto apesar de alguns peregrinos já estarem deitados. Está aqui o casal austríaco que encontramos em Airexe e como é natural, já estão deitados a tentar dormir.
O Armando chama-nos e senta-se no chão ao lado da cama da Chris. Traz todas as suas pomadas e cremes e ali fica a mostrá-las. Eu vou buscar as minhas e ali passamos uns 15 minutos a experimentar todas, a trocar impressões e a rir que nem malucos! Parece que estamos numa prova de vinhos!
Deitamo-nos finalmente, mas além da barulheira, não temos sono.
O Chano vem para a minha cama mostrar-me as suas fotos. Tem lá algumas de Las Palmas e faz-me uma certa confusão vê-las. É a prova de que ele tem uma vida, de que nós todos temos uma vida, de que eu tenho uma vida e que ela está à minha espera... na próxima semana acabou o Caminho...
Uma das fotos é do seu aniversário que foi há pouco tempo. As velas confirmam os 35 anos! Não parece nada!
Ele volta para a sua cama e quer conversar. Pede-me que lhe conte como são os meus dias. Mais uma vez obriga-me a lembrar que tenho uma vida e que não é esta. Digo-lhe que os meus dias são todos diferentes mas explico-lhe mais ou menos o que será um dia normal desde que acordo até que me deito.
Pede-me depois para lhe falar da minha ideias de negócio. Eu tinha-lhe dito que tinha algumas e começo a contar-lhas. Ele vai dando umas dicas: faz isto, não faças aquilo...
Finalmente despedimo-nos e eu ponho a minha venda e os meus tampões. O miúdo que está por cima de mim não pára de se mexer e a cama abana toda. Salta e volta a subir para a cama e a confusão é geral. Chegam os monitores e eu penso que vão pôr ordem naquilo, mas afinal fazem ainda pior... falam como se não houvesse ali mais ninguém a não ser os miúdos! Todos conversam apesar dos insistentes shhhh de toda a gente.
Demoro muito para adormecer.
De repente volto a ouvir uma chinfrineira bestial. Tenho a sensação que tinha acabado de adormecer...
Continuo a ouvir barulho e começo eu a fazer shhh. A Chris dá-me um toque no ombro e eu tiro a venda.
“Shh! Joana, tá havendo uma discussão ali! Não fala nada!”
O inglês acorda também e salta da cama. Alguém acendeu a luz e conseguimos ver o que se passa.
Há um homem no chão, sentado, e o espanhol barulhento, Fernando (?), grita com ele.
O que está no chão é o velho da cruz.
“Agarra a tua cruz e pira-te! Pira-te daqui, já to disse! Pira-te ou atiro-te pela janela! É lixo! E lixo como tu merece dormir na rua! Vai para a rua! Pira-te!!!”
Continua nesta lenga-lenga, que te pires, que agarres na tua cruz e vás para a rua, que te atiro da janela, as mulheres há que respeitá-las, patati patatá. A voz cavernosa assusta e ele grita a plenos pulmões. O inglês tentou acalmá-lo e levou uma sapatada. O velho da cruz levanta-se e o outro continua a empurrá-lo e a gritar. Tenta voltar para a cama mas o outro empurra-o e grita mais. Percebe-se que o velho fez alguma coisa à namorada do outro, mas não me parece que haja motivo para tanta algazarra.
Finalmente o velho pega na cruz e sai para a rua. Apaga-se a luz outra vez e todos se deitam. Mas de repente ouve-se a voz cavernosa outra vez.
“Pira-teeeee!!!! Já te disse! Atiro-te pela janela!!! Sai daqui!”
O velho tinha voltado. Talvez se tivesse esquecido de alguma coisa, mas se assim foi, azar... já perdeu o direito a ela.
Tudo se acalma outra vez e eu volto a pôr a minha venda e os tampões. Não percebi o que se passou, e penso no velho. Coitado, onde estará a dormir?
Olho para as horas: meia-noite.

10º Dia de Caminho: Melide – Arzúa =14km

Dormimos mal.
Um dos peregrinos sentiu-se mal durante a noite e ficámos todos preocupados. Houve grande reboliço no quarto e demorei muito tempo para adormecer. Parecemos mesmo uma família... ficamos preocupados com quem mal conhecemos...
Eu acordo cedo, antes do despertador tocar. A Chris acorda também. Diz-me que o peregrino foi para o hospital de ambulância. Agora então fico ainda mais preocupada porque ele nem sequer está no quarto.
Acordam todos e há alguém que diz que ele está bem, que já voltou, mas que ficou num outro quarto.
Uff...
Estou cheia de fome... arranjo-me num instante.
Os velhotes espanhóis também já estão prontos e saem. Dizem que estão no primeiro café que estiver aberto.
A Chris começa a preparar os pés e eu digo-lhe o mesmo: estou no primeiro café que estiver aberto à tua espera. Ela pergunta-me se não quero deixar ali a mochila e depois venho buscar, mas eu não quero ter de voltar ali e prefiro levá-la.
Está um dia bonito!
São sete e meia da manhã e tenho de ir até ao centro para encontrar um café aberto. Os espanhóis não estão lá. Devem ter ido para um outro, mas não me apetece andar mais porque tudo o que andar agora terá de ser percorrido depois outra vez. Além disso a Chris tem de encontrar-me e eu disse-lhe que estava no primeiro.
Este tem bom aspecto e entro. Não há ali peregrino nenhum, só meia-dúzia de melidenses. Peço o meu pequeno-almoço e corro para a casa de banho (no albergue não havia papel).
Pela primeira vez no Caminho vou comer os churros! Faz-me um bocado de confusão comer tanta gordura ao pequeno-almoço (eu que nunca tomo pequeno-almoço!), mas sou peregrina e tenho de ter grandes reservas!!!
São bons, mas muito gordurentos.
Entretanto chegam umas meninas do grupo da escola.
Eu aproveito para ir pondo o meu diário em dia e vou deitando o olho à rua, na esperança de ver a Chris chegar.
São oito e meia e ela ainda não chegou. Ela costuma demorar uma hora, por isso espero mais um pouco. Volto à casa-de-banho e peço um café. Estou com dores de cabeça. Deve ter sido de dormir mal... e do vinho de ontem...
A Chris não chega e decido voltar para o Albergue para ver o que se passa. No caminho encontro Chano que me diz que ela está no Albergue à minha espera. Fico furiosa...Então combinamos uma coisa... de certeza que ainda não tomou pequeno almoço e ainda vamos ficar aqui mais uma hora... É certo que hoje não temos muitos quilómetros para fazer, mas mesmo por isso... podíamos aproveitar para chegar bem cedo e descansar muito...
Chego ao albergue e a Chris está sentada no banco... coitadita... está à minha espera como uma criança que espera a mãe à porta do colégio.
“Então, Chris?”, pergunto, já calma. Ela entendeu mal. Tentou procurar-me mas não me encontrou (entretanto abriram outros cafés e o “primeiro aberto” deixou de ser o primeiro onde eu estava), e pensou que se tivesse enganado e que tivéssemos combinado ali. Não lhe levo a mal, eu devia ter explicado melhor. Na verdade imaginei que isso pudesse acontecer, mas pensei que ela percebesse que se eu não estava no primeiro café que ela encontrasse, estaria no seguinte.
Saímos outra vez para que ela possa tomar o pequeno almoço. Reencontramos Chano pelo caminho. Está sentado a olhar para o pé. A Chris diz que ele ia à farmácia comprar qualquer coisa porque estava pior do seu pé. Vamos até lá. Pode ser que precise da minha tornozeleira. Mas ele comprou já uma ligadura e está a pô-la. Pergunta se pode vir connosco. Claro que sim. E se pode fazer etapa de hoje connosco. Claro!
Em Airexe falei-lhe da nossa intenção de ir a Finisterra de autocarro, depois de chegarmos a Santiago. Tradicionalmente, o peregrino, depois de chegar a Santiago e assistir à missa, continuava o seu Caminho por mais quatro dias até Finisterra. Ali queimava a sua roupa e apanhava uma concha de vieira que levaria para casa como prova da sua peregrinação. Ainda há muitos a fazerem isso, mas como nós não temos tempo para caminhar mais quatro dias, vamos de autocarro até lá (muitos fazem isto também). Ontem, o Chano disse-me que, se não nos importássemos, também gostaria de ir connosco até Finisterra. É simpático, ele. E pelos vistos gosta de nós, da nossa companhia.
Vamos os três para um café para que a Chris tome o seu pequeno-almoço. Eu aproveito para tratar do meu joelho: ponho creme, massajo, ponho a ligadura e a joelheira.
Começo a meter-me com a Chris e a explicar ao Chano que todos os dias espero por ela uma eternidade... Ela confirma. Só esperou por mim uma única vez: em León quando eu adormeci. Brincamos um pouco com isso e o Chano diz que por acaso a sensação que tem é a oposta: é a Chris que cuida de mim. Que cuida de mim??? Amuo... na brincadeira. Sei que não é verdade. Na realidade sinto que é mais o oposto, mas imagino que ele se tenha explicado mal.
Já passa das nove quando nos fazemos à estrada.
Ontem decidimos que íamos até Arzúa. A alternativa era ir até Santa Irene (porque não há albergues entretanto) e isso é demais... São 30 km e não queremos fazer tanto. E depois de Arzúa, temos cada vez menos campo e queremos aproveitá-lo. O ideal seria mesmo ficar em Ribadiso, como o Armando, mas isso são só 10km e é pouquíssimo!
Falámos sobre isso ao jantar (porque é o tema de conversa preferido do peregrino) e tanto a Cristina como os portugueses alinharam no nosso plano: ficar hoje em Arzúa.
Não sabemos ainda quando vamos chegar a Santiago, nem como vamos fazer. Queríamos chegar no Domingo. Hoje vamos até Arzúa, amanhã íamos até Pedorouzo (20km) e no Domingo acordaríamos cedo para chegar a Santiago antes da missa. Mas isso implica fazer 20km antes do meio-dia. Ou melhor, antes das 11 da manhã, porque antes da missa temos de ir à oficina do peregrino buscar as nossas Compostelanas. Não sei se conseguiremos... o problema é que entre Pedrouzo e Santiago não há albergues. Quer dizer, o único que existe é em Monte do Gozo, mas fica a 5 km de Santiago. E fazer 35km amanhã é impensável. Talvez seja melhor apontar para Segunda-feira. Logo se vê...

Passamos por algumas aldeias e rapidamente entramos no bosque outra vez, onde tudo é verde.

Chano vem um pouco atrás de nós e nós não percebemos se prefere que esperemos por ele ou se quer caminhar um pouco sozinho. De vez em quando conversamos com ele. Ontem à noite disse, diante do grupo todo, que eu ressonava. E muito. Junto isso à história de ser a Chris a cuidar de mim e começo a pegar com ele, a dizer que estou chateada, que já não lhe falo mais... e amuo outra vez. Pelo menos vamos rindo.
Está um dia muito bonito e parece que vai fazer calor.
Estamos agora em bosques frescos, com eucaliptos e aproveito para encher os pulmões de ar, pode ser que se limpe alguma coisa.
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Passamos por um novo riozinho
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Hoje estou bem disposta e leve. Muito leve e feliz! Falo muito com a Chris e digo-lhe que também ela está a fazer-me bem. Esta história de esperar sempre por ela é um belo exercício à minha paciência. Se fosse a minha irmã eu hoje teria ficado chateada, teria gritado, teria ficado zangada. Mas não fiquei. Fiquei na altura, mas assim que a vi passou logo.

Em Boente estou aflitinha para fazer xixi. Tanto, que já nem consigo aguentar a bolsa que trago à cintura! Mas os cafés estão fechados... A Chris tenta ligar ao Rodrigo e eu procuro um canto para fazer xixi... vai no mato mesmo.
Passam por nós os ingleses dos burros.
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O Chano descobre um cafezito aberto e entramos para tomar um café. Não podemos encher as nossas garrafas porque não há ali água. A senhora diz-nos que teremos uma fonte uns quilómetros mais à frente. Este café não é muito amigo do peregrino, apesar de estar mesmo no Caminho.
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Retomamos o Caminho e o sol já está muito muito quente. Subimos e descemos inúmeras vezes e o calor aperta. Quase não há bosques agora e fazemos o Caminho por asfalto, sem qualquer protecção natural contra o sol.

Decidimos parar mais uma vez num parque de merendas. Estamos ainda antes de Ribadiso da Baixo, por isso imaginamos que estaremos a uns 5 km, no máximo, de Arzúa. Eu tenho as pernas inchadas por causa do calor e preciso também de parar. O Chano está com dores no pé... estamos todos rotos e imagino que o vinho de ontem não terá ajudado. Devíamos fazer uma vida saudável...
Sentamo-nos numa sombra e eu deito-me no chão com as pernas levantadas. Já não me importo se me sujo ou não. Suja estou eu que as minhas calças estão cheias de caca de vaca... não vale a pena preocupar-me mais.
Descalço as botas e as meias para os pés secarem, tiro a joelheira e levanto as pernas. No yoga aprendi que a posição invertida sobre os ombros facilita a circulação e assim me ponho durante uns bons minutos. Também não me importo que alguém me veja, nem se estou a fazer má figura. Que diabos, sou peregrina e cada um faz o que lhe é mais confortável.
Chano também se deitou no chão e ouve música. Pergunta-me se quero ouvir a sua música preferida enquanto me estende o aparelhómetro. Que simpático.

Apesar de estarmos entre duas aldeias quase pegadas e mesmo ao lado da estrada que as une, não se ouve barulho nenhum. Tudo é verde e a poucos metros há vacas a pastar.
Não aguentaria fazer o Caminho no Verão. Ainda não é meio-dia e já está este calor todo... as minhas pernas não aguentam... Sugiro que amanhã nos levantemos às 6 e comecemos a caminhar às 7 para evitar o calor. Renovo a vaselina nos meus pés (desde Airexe que deixei de pôr talco)

Mais descansados retomamos o Caminho e eu volto a ficar aflita... adianto-me e desta vez nem tiro a mochila.
Depois de uma grande descida chegamos a Ribadiso da Baixo, onde o Armando vai ficar. Não passámos por ele, nem ele por nós ainda. O Albergue tem de facto um ar amoroso e fica mesmo sobre o rio Iso.

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É uma aldeia a fazer lembrar Airexe e volto a pensar se não será melhor ficar aqui. Mas não, continuamos. Parece mal fazermos só 10km hoje e se a ideia é chegar a Santiago e ainda ter tempo de ir a Finisterra (e eu quero voltar para o Porto na Terça-feira), o melhor é continuar até Arzúa.
Começo a aperceber-me que Arzúa é uma cidade e até já a vejo lá ao fundo. Fico com um nó na garganta e vou pedindo a Deus que não seja. Faço até pequenos sacrifícios... mas à medida que vamos avançado vou percebendo que é mesmo uma cidade. Espero ao menos que seja pequena, que não seja como Melide, que o albergue fique fora, mesmo no campo...

Chegamos a Arzúa debaixo de um calor tórrido. Vamos pela estrada e o alcatrão quase derrete. Fico triste com a minha decisão, mas agora já não há nada a fazer. No próximo Caminho planearei melhor e ficarei em Ribadiso.
Repete-se o sofrimento de todas as cidades: onde está o albergue??? O meu guia diz que temos de andar 20 minutos, depois de entrar em Arzúa, para o encontrar.
Chegamos à Rua principal, no centro e encontramos o Paulo sentado numa esplanada. Diz que vão continuar até Santa Irene. Nós não conseguimos. Fazer agora mais 17km com este calor é impossível, e nem queremos avançar mais hoje. Ficamos por ali mesmo.

Continuamos a caminhar e o albergue aparece lá ao fundo. Novo nó: à porta estão muitas crianças de um dos grupos barulhentos... Não acredito!!!!!!!!
O Albergue ainda não abriu e esperamos um pouquinho. Assim que abre entramos deixando as crianças para trás. Devem estar à espera de alguém.

quinta-feira, abril 28, 2005

Jantar em Melide

Entramos no Ezequiel por volta das sete. Não há mais ninguém ali... será que nos servem? O Homem nem pergunta o que queremos. É muito simpático, diz-nos onde nos sentamos e traz-nos pão e vinho branco. O pão galego é delicioso!!!
As mesas são de taberna, com bancos corridos, o que para mim é excelente: preciso de pôr gelo no joelho e de ter a perna estendida.

Poucos minutos depois chega uma mulher, peregrina também, e senta-se na outra ponta da nossa mesa. Nós as duas continuamos a conversar. De repente a peregrina do fundo dá um grito e salta para o lado da Chris
“Ai eu não acredito! Vocês estão falando português?”
É brasileira também! Ficamos as três excitadíssimas! Ainda não tínhamos encontrado brasileiros no Caminho e imagino que a Chris esteja feliz! Tal como eu estava esta tarde quando encontrámos os portugueses.
Chama-se Cristina e começou o Caminho em Léon, como nós, mas está a fazer o Caminho sozinha. Conta-nos as suas desventuras destes dias. Tem milhentas bolhas e já caiu... tem uma ferida no joelho que não sara de maneira nenhuma. Hoje está num hostal e está toda contente: tem toalhas, não tem de tirar o saco-cama, tem uma casa de banho com banheira e água quente e só para ela...
Estamos todas felizes! Ela fala, fala e vê-se que está feliz, que tinha muito para dizer, que esperava por este momento há muito tempo! Este Caminho é de facto cheio de surpresas!

Conta-nos a mesma história que os portugueses contaram sobre os brasileiros malucos. Acrescenta que eles ainda queria ir passar a tarde de Domingo no Porto e por isso têm de fazer o Caminho de taxi. Devem ser os que apareceram ontem em Airexe, de taxi, a carimbar as credenciais... a descrição corresponde...
Chegam os portugueses e o nosso polvo.
Logo depois chegam os espanhóis. Estamos todos à mesa e ali ficamos a conversar e a comer, felizes e satisfeitos.

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Os portugueses e os espanhois já se tinham conhecido também num albergue.
É bom estar aqui e já nem me lembro que isto está quase a acabar. Ontem de manhã decidi que não ia pensar nisso: ia pura e simplesmente aproveitar cada dia, cada hora, cada minuto, como se amanhã não existisse.
Rapidamente chegam mais peregrinos. A mesa atrás de mim está cheia. Mesmo por trás de mim está o rapaz, o nosso amigo espanhol cujo nome ainda não aprendi. Creio que é Chano mas como não tenho a certeza, prefiro não lhe chamar nada. Na mesa dele está também o peregrino da harpa. O rapaz conta-me que o encontrou no Caminho. O velhote pediu-lhe que lhe fizesse um favor. Tirou a harpa, começou a tocar e pediu-lhe que tirasse uma foto.

O jantar é divertidíssimo e o nosso amigo espanhol chama-me de vez em quando para contar mais qualquer coisa. De vez em quando diz que está tonto, que não percebe o que se passa mas que este vinho é muito forte... Há duas mesas, mas no fundo só há uma. É o Caminho: somos todos uma grande família e isto parece um jantar de amigos de longa data. Estamos todos muito alegres por causa do vinho e cada vez rimos mais. Estamos leves e felizes. É de facto maravilhoso estar aqui!

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Comemos imenso e no fim ainda pedimos uma tarte Santiago (claro). Chega a dolorosa... €11. Mas valeu a pena. Comeu-se bem e a companhia foi do melhor.
São dez da noite e temos de ir indo. Meio às curvas, mas lá vamos. Os velhotes espanhois já foram há um bocado e agora somos só os tugas. E a Chris que para mim é tuga também.
Tiramos umas fotos para mais tarde recordar

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e ainda ficamos um bocado a conversar à porta do Albergue com o Chano e uns outros que lá estão e que estavam na mesa dele ao jantar. Um deles está a fazer o Caminho de bicicleta e chega amanhã a Santiago. Quer fazer o Caminho português ao contrário e ir até Lisboa. O Paulo, que já fez o Caminho português dá-lhe as informações todas.

Despedimo-nos e subimos finalmente.
O dia acabou muito bem e agradeço a Deus por isso. E por ter encontrado o Paulo, o César e o Tiago que é um amor de menino! E divertido também! E agradeço por ter encontrado os nossos velhotes espanhóis! E agradeço por termos encontrado a Cristina. E agradeço por tudo, por este Caminho, por isto tudo!


Nota: a maioria das fotos são do Paulo

9.º Dia de Caminho: Airexe - Melide= 23 km

Acordo sem despertador às 7 da manhã. Dormi tão bem…
O casal alemão (ou serão austríacos?) ainda dorme. É impressionante o que estes dois dormem! Ontem, antes das nove da noite, já ressonavam, e às 7 da manhã ainda dormem na paz do senhor!
Deixo-me ficar mais um bocadinho a saborear o meu acordar ali. Estão ainda todos a dormir e não sou eu que vou fazer barulho. Não tenho pressa de chegar a lado nenhum. Tiro a venda e olho para o lado. O meu amigo acordou também e tal como eu está ainda a apreciar os primeiros minutos de sossego. Diz-me bom dia e eu sorrio. Volto a fechar os olhos e viro-me para o lado.
Os alemães levantam-se e eu acordo a Chris.
Despachamo-nos, apanhamos a roupa que ainda não secou e penduramo-la nas nossas mochilas.
Eu sou a primeira a sair para a rua, como de costume, e ali espero pela Chris enquanto fumo o primeiro cigarro do dia.
O rapaz sai também e espera comigo. Eu estou com muita vontade de ir à casa de banho e digo à Chris que vou indo. Explico ao rapaz que vou tomar o pequeno-almoço e que ali espero pela Chris que já não deve demorar.
Tomamos o pequeno-almoço os três juntos, no mesmo sítio bonito onde jantámos.
Enquanto comemos vejo chegarem dois peregrinos. São os que vimos ontem ao almoço em Ventas de Narón: o madrileno e o gordo que eu acho que é americano. O madrileno entra para o café em frente e o gordo continua o caminho. Devem ter saído muito cedo!
O nosso amigo dá-nos o seu contacto e pede o nosso também. Assim é que é. Este de certeza não precisou perder amigos no Caminho para aprender!
Saímos um pouco antes das nove, depois do habitual aquecimento.
Nós seguimos as duas enquanto ele fica a aquecer. Percebemos que quer caminhar sozinho e nós também preferimos assim.
Conversamos imenso as duas e passamos por várias terrinhas simpáticas. Numa delas encontramos a nossa velhota-avozinha do albergue. Lá vai, devagar devagarinho, com o seu saquinho na mão e a mochila às costas, sempre a sorrir. Vai até Casa Nova ou Leboreiro, ainda não sabe bem. De qualquer forma, não quer andar muito.

É amorosa!
Nós continuamos e conversamos mais um pouco.
O Caminho tanto vai pela estrada como pelo campo mas é sempre muito, muito bonito. E a luz de início de dia dá-lhe um encanto... Tudo é verde...
Entramos num caminho mais largo, com uma grande descida. Logo depois um campo enorme, verde. à esquerda está uma espécie de oficina e apoio ao peregrino e entramos. Tem vários panfletos espalhados pelas paredes. Brochuras dos vários caminhos, cartões de vários albergues. Tem casa de banho e aproveitamos.
Não nos demoramos muito ali e a rapariga não sabe dar informações nenhumas.
Um pouco mais à frente há um albergue enorme com um óptimo aspecto. Estamos em Avenostre.
Continuamos a caminhar. Temos pressa de chegar a Palas de Rei. É uma cidade grande e a Chris quer trocar os seus cheques. Eu quero aproveitar para tentar levantar dinheiro outra vez que já estou a precisar e não sei quando poderei fazê-lo.
A entrada é por uma descida enorme de alcatrão, com uns cafés pelo caminho. Eu nem acredito que aquilo já é Palas de Rei, mas a Chris jura que sim. E tem razão.
Há logo à entrada uma igrejazinha, minúscula mas muito bonita.
Continuamos a seguir as setas amarelas até ao Centro e assim que chegamos vemos um anúncio: massagens ao peregrino, curamos tendinites. Sinto-me muito tentada mas tenho de poupar dinheiro e isto vai atrasar-nos muito. O dia ainda agora começou, ainda temos 16km pela frente e não quero demorar-me muito aqui. Estávamos num bom ritmo e quero continuar.
Dirijo-me à primeira caixa multibanco que me aparece. Sem grandes esperanças meto o meu american express e peço a Deus que aquilo funcione se não fico em muito maus lençóis... Miraculosamente a máquina pede-me o pin e depois vomita os meus €100! Ai que maravilha! Estou rica outra vez!
AChris entra no seu banco para que lhe troquem os cheques e eu aproveito para entrar numa loja a perguntar se tem fechos para a peiteira da mochia... não acredito que vou fazer o Caminho todo com este saco plástico enrolado ao peito... Não tem.
No banco também não trocam e mandam-na para um outro mais adiante. Enquanto ela anda nestas andanças, vou ao DIA comprar pão e mortadela para o almoço e fruta para o caminho. Há ali tartes Santiago, mas comprar uma agora implica ter de a carregar até ao albergue, andar de saco pendurado e eu já trago tanta coisa pendurada em mim... Nãããã. Fica para depois.
Segue-se o que a mim me parecem três horas (foi só uma) de corridas a bancos. A Chris não consegue encontrar um banco que lhe troque os cheques.
Enquanto isso vou dando as minhas voltas e entro numa farmácia para comprar uma ligadura. Esta joelheira já não aperta o suficiente e ainda só fizémos 7km e já tenho dores. Enquanto espero a minha vez cheiro a amostra de perfume que ali está. É uma colónia de criança e cheira tão bem... Custa €2,60 e faço um-dó-li-tá para decidir se levo ou não. É dinheiro que gasto desnecessariamente e é peso que terei de carregar por mais uns dias, mas sabia-me tão bem ter um cheiro que não fosse a pomadas... e um perfume, mesmo que seja de bébé, disfarça as roupas sujas... Não é que as minhas cheirem mal (por acaso estou surpreendida com o meu desodorizante que se revelou ser maravilhoso!), mas um perfumezinho é outro conforto. O nosso amigo espanhol cheira a perfume. É uma forma de não perder a classe. Peregrino sim, mas cheiroso!
Acabo por não levar e vou ter com a Chris ao banco de onde não sai há 5 minutos (deve ser bom sinal).
Ali trocam-lhe os cheques mas demora um tempo infinito. Eu tenho tempo de pôr e tirar várias vezes a ligadura: da primeira vez apertei-a tanto que fiquei sem circulação.
Vou tomar um café enquanto espero e tento descobrir como se fazem chamadas a cobrar no destino.
Finalmente a Chris aparece, já contente com o seu dinheiro, e seguimos. Paramos ainda numa tabacaria para ela comprar uma tesoura (anda a cortar as almofadinhas dos pés com o meu canivete) e eu compro um cartão de telefones.
Sentados pelas escadas do albergue, muitos adolescentes... Tinha razão: estão ali as várias escolas que cruzámos. Ainda bem que ficámos em Airexe.

Retomamos o Caminho. O meu joelho está tão bem apertado agora que sinto o outro completamente desprotegido. Devia ter feito isto há mais tempo: tenho uma ligadura por baixo da joelheira e isto dá-me um apoio bestial.

Saímos de Palas de Rei
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e seguimos pela estrada por uns metros para logo entrar novamente no campo.
Está um calor dos diabos e eu começo a minha sessão de strip em andamento e sem tirar a mochila. Estou uma profissional! Talvez me dedique a isto quando voltar a Portugal. Já consigo até tirar uma camisola!!! Tendo em conta que tenho uma mochila nas costas e outra à frente e mais a máquina fotográfica pendurada no braço... é obra! Só preciso que a Chris me segure no cajado.
Voltamos a atravessar a estrada e então reentramos no campo profundo, sem barulhos de carros.

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O cheiro é incrível e só se ouvem os passarinhos a chilrear. E umas rãs a coachar.

De repente paramos extasiadas. À nossa frente novamente um lago ou um pântano, com uma ponte de pedra para passarmos.
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À nossa direita um pântano lindo.
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Pena as fotos não terem cheiro nem som. Ouvem-se milhentas rãs a coxar. Ficamos ali um bom bocado a apreciar esta maravilha. Quero guardar este momento para sempre, este som, este cheiro, este verde. Encho o peito de ar e retenho a respiração por um momento, como que a guardar este oxigénio e este cheiro todo para mais tarde recordar. Fecho os olhos. Queria ter uma câmara de filmar no lugar dos olhos para poder guardar tudo isto para sempre e poder lembrar sempre todos os pormenores. Isto é lindo!

Seguimos a custo depois de algumas fotos.

Voltamos a passar uma aldeola e reparamos que há um peregrino a falar com um aldeão.
"Não é o espanhol?", pergunta a Chris.
"Não Chris, são velhotes".
"Não... o outro espanhol! É ele sim, Joana!"
Não queremos acreditar! É o nosso amigo espanhol dos primeiros dias! Um dos velhotes de quem nos separámos no dia de Villafranca e Ponferrada e chuva e... Aceleramos o passo e vamos até ele que nos reconhece. Despede-se do homem com quem falava e conversa connosco enquanto caminhamos os três. Estou tão feliz! Reencontrámos o nosso amigo! Os nossos amigos, porque o outro já está mais adiante de certeza.
Tinha-me esquecido de como era difícil acompanhar o passo deste homem. Parece que corre. Vai contando uma série de coisas. Diz quantos quilómetros faltam para Santiago. Percebo que está a guiar-se pelos marcos do Caminho. Não coincidem com o meu guia, ora estão adiantados, ora estão atrasados em relação ao meu guia.
Digo-lhe que de acordo com o meu guia aqueles mojones não estão certos, que foram ali colocados mais por oportunidade que por distâcia. Ele diz que não, que é o oposto. Que é o meu guia que não está certo.
Encontramos António, o outro espanhol. Diz-me bom dia mas não me reconhece. É o outro, Miguel, que lhe diz quem sou. É natural... estou sem impermeável, sem as calças meio-impermeáveis, com muito menos roupa... Não consigo descrever a alegria que sinto neste momento! Reencontrei os meus velhotes! É indescritível!
Dizem-nos que vão para Melide e a Chris quer parar. Eles vão muito depressa e nós não lhes acompanhamos o passo facilmente. Estamos a chegar a Casanova e há ali um restaurante--albergue. Eles dizem que é muito bonito e muito bom. Despedimo-nos com um até logo, muito felizes por revê-los. Logo à noite estaremos juntos outra vez.
Entramos no tal restaurante mas digo à Chris que ficamos ali uma meia hora só. Temos pão e mortadela e vamos só beber um vinho. Todas aquelas crianças devem estar a caminho de Melide e eu quero ter uma cama quando lá chegar, por isso convém chegar cedo. Além disso já perdemos muito tempo em Palas de Rei e só voltámos a caminhar há uma hora. Tantas paragens quebram o ritmo.
Enquanto entramos e procuramos um sítio fresco para nos sentarmos, parece-me ouvir falar português.
"Estou a imaginar... deve ser galego", penso.
Continuo a ouvir qualquer coisa familiar e olho para os peregrinos pelos quais passámos. Estavam 3 sentados lá dentro (nós íamos a sair para o quintal) e parece-me que um deles tem cara de português e diz qualquer coisa em português. Ele também olha para mim enquanto diz qualquer coisa para o lado. Reparo na t-shirt dele. Diz Portugal.
"Pode ser só um turista que comprou a t-shirt", penso eu enquanto volto para perto deles sem parar de olhar para o tal. Sem pensar muito pergunto
"São portugueses?"
"Sim!!!"
Volto para trás e reentro no restaurante, sem sequer me lembrar que a Chris ainda está no quintal.
Não acredito! São os primeiros portugueses peregrinos que encontro!!! Que emoção! Voltar a ouvir o meu portugês sem sotaque! Nem me tinha apercebido que tinha saudades disto!
A Chris volta para dentro também e sentamo-nos numa mesa. Começamos a falar, a fazer uma série de perguntas.
Para melhorar, são todos do Porto! Nem acredito!
Paulo, César e Tiago. Começaram no sábado em Ponferrada.
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Acabamos por ficar ali uma hora! Eles comem um menu e nós acabamos por pedir uma sopa galega para acompanhar o vinho.
Contam-nos que também dormiram com um grupo de 15 adolescentes de uma escola e depois de muitas perguntas percebemos que não é nenhum dos grupos que encontrámos. Há pelo menos 3 grupos de crianças barulhentas!!! Estes são de tal modo indisciplinados que ninguém dormiu no albergue e os portugueses acabram por sair às 6 da manhã.
Contam-nos também que encontraram dois brasileiros meio doidos. Foram de táxi de Porto a Ourense onde apanharam novo taxi até Ponferrada. Fizeram 40 km num dia (o que inclui parte da subida do Cebreiro), mais 40 no dia seguinte e estão todos rotos... Por causa disso decidiram fazer o resto do Caminho de táxi...

O César, o Paulo e o Tiago também vão ficar hoje em Melide e ao fim daquela hora parecem-me já grandes amigos! É engraçado que com excepção do Tiago que é mais novo que eu (mais uma novidade), não consigo tratá-los por tu. São os únicos peregrinos, com excepção do francês amalucado de Astorga e da belga de ontem, que não trato por tu.
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Quando já estamos a terminar a nossa sopa aparece o madrileno de ontem, o que me pediu o cinzeiro em Ventas de Narón e que eu vi esta manhã a chegar a Airexe. Senta-se connosco. A Chris pergunta-lhe se sabe alguma coisa do casal de ontem, da belga com a tendinite. Um peregrino que estava sentado ao fundo do restaurante a escrever pergunta se são um casal que ele conhece e descreve-os. O rapaz tem tendinites nos dois joelhos e caminha com dificuldade e ela é loura. Dizemos que sim, que ela é loura mas ele não tem problema nenhum.
"Não devemos estar a falar das mesmas pessoas então. Não sei nada deles. Deixei-os em...(???) e não os vi mais".
Já sei de quem está a falar. Eles dormiram connosco há duas noites atrás em Portomarín, mas eu não os vi também.
O nosso amigo madrileno conversa connosco. Diz que hoje fica ali, no albergue municipal, e que amanhã vai até Ribadiso da Baixo que é a última aldeia antes de Santiago. A partir de Ribadiso o caminho segue sempre perto da carretera e fica muito feio. Quer aproveitar o campo enquanto pode. Sugere-nos isso também.
A mim agrada-me a ideia de ter mais uma noite como a de Airexe, no meio do campo e da natureza, numa aldeia pequenina e de gente simpática. Mas ficar amanhã em Ribadiso significa que amanhã farei só 10 km oq ue me parece pouco. Ele mostra-me o plano que fez em Madrid: 20km por dia. Foi tudo pensado ao pormenor. Amanhã 20 até Ribadiso, sábado mais 20 até Pedrouzo e no Domingo mais 20 até Santiago. Se sair cedo, chega lá a tempo da missa.
"Amanhã vemos isso então".
De facto parece-me exequível fazer 20 km no domingo e estar em Santiago ao meio dia. Basta que comecemos a caminhar às 7 da manhã e que não façamos estas paragens.
Converso mais um pouco com os portugueses. O Tiago está também viciado em Tartes Santiago e come duas! A mim também me apetecia, mas ainda tenho 10 km até Melide e pão e mortadela na mochila.
Despedimo-nos de todos e seguimos.
Passamos pelo abergue municipal onde vai ficar o madrileno e parece-nos fechado. Parece que o plano dele vai por água abaixo... A Chris diz-me que se chama Armando. É simpático, ele.
De repente o Caminho foi inundado de gente. É muito bonito, com as copas das árvores a tocarem-se e pedras e rochas no chão, mas nem conseguimos apreciar como deve ser porque é tanta gente e a falar tanto... A maioria é do grupo de adolescentes. Há um casalzinho. Ela caminha com grande dificuldade e tem a dor estampada no rosto! Pergunto-lhe se está bem. Diz que são as bolhas. Seguem-se as perguntas do costume... já as pinhascte? puseste betadine? tens compeeds?. A burra não as pinchou!!! Até a mim me doi só de pensar!
Continuamos a caminhar e de repente, quando dou conta, o Caminho já está quase vazio outra vez.
Uns passos mais à frente começo a ouvir uma música bonita. Olho em frente para perceber de onde vem e vejo dois peregrinos a olhar para o campo. Continuo a caminhar e percebo que é dali que vem a música. É uma harpa. Estamos num trecho lindíssimo e esta música não poderia ser mais adequada. E vem não se sabe de onde...
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Aproximamo-nos.
É um peregrino que está a tocar! Um velhote amoroso! Trouxe a sua harpa e toca no Caminho!
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Image hosted by Photobucket.com (foto do Chano, num outro ponto do Caminho, quando conheceu o peregrino da Harpa)

Isto é de facto maravilhoso! Surpreendente! As pessoas que aqui se encontram, esta paz, estas surpresas, estas coisas... é incrível! Estou num outro mundo e estou a adorar! O Caminho dá-me tanto e eu nada dou ao Caminho! Sinto isso mesmo! O Caminho dá-me muitas coisas! Muito mais do que esperava quando para aqui vim! Estou a receber tanto! E quero tanto que isto dure...

Um pouco mais à frente voltamos a encontrar um grupo grande de adolescentes. São rapazes e muito barulhentos. Irrita-me esta barulheira toda. Há um que não pára de falar ao telemóvel. Sinto que estou a ser egoísta e arrogante, mas que raio estão estes miúdos a fazer no MEU Caminho? Ultrapassamo-los e comentamos esta algazarra toda. A Chris diz-me que eles nos devem estar a passar outra vez que ouve passos.
“Que passem de uma vez mas que passem lestinhos e caladinhos!”, digo-lhe eu.
“Olá!”
Afinal são os portugueses. Vão os três juntos em passo aceleradíssimo!
Estamos a chegar a Leboreiro e caminhamos agora por um caminho romano.
Leboreiro é feio e não corresponde minimamente ao meu guia.

O resto do Caminho é feito quase a par e passo com os adolescentes. Ora passamos nós, ora passam eles. E de repente tornou-se tudo feito. Estamos ao lado da estrada a passar por uma zona industrial horrorosa. Melide espera-nos lá ao fundo e embora já a vejamos, sabemos que ainda falta uma boa hora. Que seca! Esta é sempre a parte pior! Os últimos quilómetros da etapa são sempre os mais difíceis e nem sequer é pelo cansaço físico. E então quando se trata de uma cidade grande, a angústia é maior... Já imagino que o Albergue não será logo à entrada e por isso a chegada, o fim de etapa, será ainda mais penoso!

A Chris está cansada e quer parar. Eu também estou um pouco e tenho fome. Paramos por um bocadinho então. Não queria, porque quero passar esta criançada e chegar antes deles para poder ter uma cama, mas temos mesmo de parar.
Estamos as duas cansadas e quase nem falamos. Enchemos as garrafas, como mais um quadrado de chocolate e alongamos. Estamos num parque de merendas. À direita a estrada. Larga e longa. À esquerda fábricas. Coladas ao caminho há uma série de pedras, tipo as dos dez mandamentos (do filme), com nomes. São membros (damas e cavalheiros) de qualquer coisa que tem a ver com a Ordem de Santiago, acho eu. De vez em quando uns mini-monumentos ao peregrino. Um deles homenageia uns peregrinos mortos durante o Caminho há uns anos atrás. Imagino que tenham sido atropelados.
Enchemos o peito de ar e preparamo-nos para recomeçar os últimos 4 ou 5 km.
Os rapazes tinham passado por nós e acelero um pouco o passo. Encontro-os um pouco mais à frente, sentados no chão. Estão todos rotos, coitados e fico com pena deles. Percebo que estão a pensar o mesmo que eu, porque assim que me vêem põem-se em pé num salto e recomeçam a caminhar à minha frente. Reparo nas mochilas deles. Devem trazer roupa até dizer chega porque estão bem cheias e trazem sapatos pendurados. Alguns coxeiam.
Voltamos a entrar no bosque, mas por pouco tempo. Passamos Furelos que é uma mini-aldeia mesmo às portas de Melide. Tem uma ponte lindíssima e um rio com uma corrente fortíssima. Lindo de morrer!

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Melide está cada vez mais perto. Agora só falta uma subida por uma rua. Parece que já estamos na cidade e começa a angústia. Vejo vários peregrinos sentados no chão a descansar e à minha frente caminha o tal casal por quem perguntava o espanhol ao almoço. Reparo que o rapaz caminha com dificuldade e tem duas joelheiras. Eu também tenho muitas dores no joelho e por isso quero chegar rapidamente para poder descansar.
Chegada lá acima espero pela Chris que vem longe. Vejo-a pequenina lá ao fundo e espero que chegue mais perto para retomar. Vou fazendo isto a cada 100 metros. E ela pergunta sempre “é aí o albergue?”, o que só contribui para aumentar a minha impertinência. Estou a ficar irritada. Quero chegar e descansar, tomar um banho, comer e deitar-me um pouco. E de cada vez que paro ela pergunta se já é ali e lembra-me que não, que ainda falta um bocado e que não sei onde raio está a porcaria do albergue. Ela não tem culpa, também está impaciente e deve ter muitas dores nos pés porque vem mesmo muito devagarinho.
Entramos no centro da cidade e deixa de haver o que quer que seja de indicações. Espero então pela Chris, que mais uma vez me pergunta se já é ali, e agora caminhamos juntas até encontrarmos uma seta amarela. Para nosso desespero há duas a apontar para sítios diferentes. Seguimos uma delas e encontramos o nosso amigo espanhol (o de Airexe). Já tomou banho e está a sair com outros peregrinos. Diz que o albergue é já ali e que as meninas ainda não chegaram (refere-se às adolescentes). Afinal ficou no Albergue.
Depois de várias voltas, de perguntar a várias pessoas e de seguir várias indicações diferentes, lá encontramos o Albergue, mesmo no fim de cidade!
Estão aqui os burros!

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Li sobre esta família num jornal no Cebreiro. São uma família de 4: pai, mãe e dois filhos com 7 e 10 anos. São ingleses e o pai é psicólogo. Começaram o Caminho em Roncesvalles onde alugaram dois burros que lhes carregassem os sacos. Eles fazem o Caminho a pé.

À porta do Albergue é a confusão total. Montes de gente à porta, uma barulheira incrível, peregrinos de mochila às costas com ar de quem ainda não decidiu se ali fica. Nós entramos. Não há hospitaleira. Este é um albergue de donativo (na Galiza deixaram de haver albergues privados) e por isso imagino que seja mau.
Subimos à procura de cama. Os quartos já estão cheios, mas lá conseguimos encontrar duas camas de baixo num quarto quase lotado. Ouvimos vozes e percebemos que estão ali os portugueses. Eu, esfomeada que estou, como o pão com a mortadela que comprámos e sabe-me pela vida, apesar de o pão estar duro que nem cornos. A Chris está estoirada e nem quer tomar banho. Quer descansar. Aproveitamos para ver o guia e calcular as próximas etapas. Fiquei a pensar no que disse o madrileno (Armando). De facto, gostava de ficar mais uma noite na aldeia...

Os nossos novos amigos vão tomar banho e ouvem-se os gritos deles cá fora... a água deve estar gelada, mas ainda assim perguntamos quando eles saem. Ingénuas...
Vou procurar um quarto menos vazio e encontro os velhotes espanhóis (Miguel e António). O quarto deles parece-me menos cheio, mas eles dizem-me que as camas que quero já estão ocupadas. Só há as de cima e como eu não gosto de dormir no beliche de cima, prefiro ficar no quarto onde estamos.

Já temos tudo fora da mochila, estamos descalças e a preparar-nos para descansar quando chegam uns espanhóis gordos que imagino serem os monitores do grupo das crianças barulhentas. Dizem que a cama da Chris, apesar de não ter nada lá em cima, já estava ocupada por um deles. São antipáticos e eu faço a minha cara de má e ainda respingo. Por um lado estou contente que estava com vontade de ir para o quarto dos espanhóis velhotes que parece-me menos cheio. Nem que fique nas camas de cima. Mudamo-nos para lá. Afinal as camas não estão ocupadas. Eles dizem que não perceberam o que se passou mas quem ali estava deixou de estar. Estão também furiosos com este grupo. Dizem que vieram todos tomar banho para aquela casa-de-banho, embora ninguém esteja naquele quarto e que só lhes apetece fechar a porta à chave.
Logo atrás de nós vêm os portugueses que também desistiram de ficar naquele quarto. Melhor. Tomamos de assalto aquele corredor. É todo nosso! Há quatro beliches e são todos nossos!

Eu e a Chris vamos tomar banho. De facto esta canalização foi feita a pensar no peregrino... a água alterna entre quente e gelada a cada 30 segundos. É para facilitar a circulação! O que vale é que somos bem rápidas a tomar banho e já nem sentimos.
Os velhotes vão conhecer a cidade mas nós não temos coragem. A mim só me apetece pôr as pernas para cima, que sinto-as inchadíssimas e pesadas. Conversamos com os nossos amigos. O Tiago vai ter um teste na segunda-feira e tem de estudar. Não sei como consegue!
Saímos às 6, depois de combinarmos com eles o jantar no “Ezequiel” , o melhor restaurante de polvo das redondezas.
Movemos-nos com grande dificuldade... perecemos duas patas chocas...
Entramos num café para tomar qualquer coisa. Estamos com fome mas não queremos comer agora para não estragar o apetite para o jantar. Estão lá António e Miguel. Sentamo-nos e convidamo-los para a nossa mesa e ali ficamos um bom pedaço a beber uma cerveja e a comer aperitivos.

Perguntamos pelos outros: o italiano (Andrea), nunca mais viram. O Americano decidiu fazer etapas mais pequenas para não chegar cedo demais a Santiago.

Falamos de etapas e quilómetros, como manda a etiqueta do peregrino, e António conta-nos partes do seu Caminho. Eles vão chegar a Santiago depois de amanhã. Amanhã farão trinta e tal quilómetros até Arca/Pedrouzo que fica a 20Km de Santiago, e no Sábado saem cedo para chegarem antes da missa.

No ano passado fizeram o Caminho em 29 dias. Este ano queriam tentar fazê-lo em 25, mas vão acabar por fazer os 800km que separam Saint-Jean de Santiago de Compostela em 22 dias!!! Têm o triplo da minha idade!!!