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O meu Caminho de Santiago!

sexta-feira, abril 29, 2005

10º Dia de Caminho: Melide – Arzúa =14km

Dormimos mal.
Um dos peregrinos sentiu-se mal durante a noite e ficámos todos preocupados. Houve grande reboliço no quarto e demorei muito tempo para adormecer. Parecemos mesmo uma família... ficamos preocupados com quem mal conhecemos...
Eu acordo cedo, antes do despertador tocar. A Chris acorda também. Diz-me que o peregrino foi para o hospital de ambulância. Agora então fico ainda mais preocupada porque ele nem sequer está no quarto.
Acordam todos e há alguém que diz que ele está bem, que já voltou, mas que ficou num outro quarto.
Uff...
Estou cheia de fome... arranjo-me num instante.
Os velhotes espanhóis também já estão prontos e saem. Dizem que estão no primeiro café que estiver aberto.
A Chris começa a preparar os pés e eu digo-lhe o mesmo: estou no primeiro café que estiver aberto à tua espera. Ela pergunta-me se não quero deixar ali a mochila e depois venho buscar, mas eu não quero ter de voltar ali e prefiro levá-la.
Está um dia bonito!
São sete e meia da manhã e tenho de ir até ao centro para encontrar um café aberto. Os espanhóis não estão lá. Devem ter ido para um outro, mas não me apetece andar mais porque tudo o que andar agora terá de ser percorrido depois outra vez. Além disso a Chris tem de encontrar-me e eu disse-lhe que estava no primeiro.
Este tem bom aspecto e entro. Não há ali peregrino nenhum, só meia-dúzia de melidenses. Peço o meu pequeno-almoço e corro para a casa de banho (no albergue não havia papel).
Pela primeira vez no Caminho vou comer os churros! Faz-me um bocado de confusão comer tanta gordura ao pequeno-almoço (eu que nunca tomo pequeno-almoço!), mas sou peregrina e tenho de ter grandes reservas!!!
São bons, mas muito gordurentos.
Entretanto chegam umas meninas do grupo da escola.
Eu aproveito para ir pondo o meu diário em dia e vou deitando o olho à rua, na esperança de ver a Chris chegar.
São oito e meia e ela ainda não chegou. Ela costuma demorar uma hora, por isso espero mais um pouco. Volto à casa-de-banho e peço um café. Estou com dores de cabeça. Deve ter sido de dormir mal... e do vinho de ontem...
A Chris não chega e decido voltar para o Albergue para ver o que se passa. No caminho encontro Chano que me diz que ela está no Albergue à minha espera. Fico furiosa...Então combinamos uma coisa... de certeza que ainda não tomou pequeno almoço e ainda vamos ficar aqui mais uma hora... É certo que hoje não temos muitos quilómetros para fazer, mas mesmo por isso... podíamos aproveitar para chegar bem cedo e descansar muito...
Chego ao albergue e a Chris está sentada no banco... coitadita... está à minha espera como uma criança que espera a mãe à porta do colégio.
“Então, Chris?”, pergunto, já calma. Ela entendeu mal. Tentou procurar-me mas não me encontrou (entretanto abriram outros cafés e o “primeiro aberto” deixou de ser o primeiro onde eu estava), e pensou que se tivesse enganado e que tivéssemos combinado ali. Não lhe levo a mal, eu devia ter explicado melhor. Na verdade imaginei que isso pudesse acontecer, mas pensei que ela percebesse que se eu não estava no primeiro café que ela encontrasse, estaria no seguinte.
Saímos outra vez para que ela possa tomar o pequeno almoço. Reencontramos Chano pelo caminho. Está sentado a olhar para o pé. A Chris diz que ele ia à farmácia comprar qualquer coisa porque estava pior do seu pé. Vamos até lá. Pode ser que precise da minha tornozeleira. Mas ele comprou já uma ligadura e está a pô-la. Pergunta se pode vir connosco. Claro que sim. E se pode fazer etapa de hoje connosco. Claro!
Em Airexe falei-lhe da nossa intenção de ir a Finisterra de autocarro, depois de chegarmos a Santiago. Tradicionalmente, o peregrino, depois de chegar a Santiago e assistir à missa, continuava o seu Caminho por mais quatro dias até Finisterra. Ali queimava a sua roupa e apanhava uma concha de vieira que levaria para casa como prova da sua peregrinação. Ainda há muitos a fazerem isso, mas como nós não temos tempo para caminhar mais quatro dias, vamos de autocarro até lá (muitos fazem isto também). Ontem, o Chano disse-me que, se não nos importássemos, também gostaria de ir connosco até Finisterra. É simpático, ele. E pelos vistos gosta de nós, da nossa companhia.
Vamos os três para um café para que a Chris tome o seu pequeno-almoço. Eu aproveito para tratar do meu joelho: ponho creme, massajo, ponho a ligadura e a joelheira.
Começo a meter-me com a Chris e a explicar ao Chano que todos os dias espero por ela uma eternidade... Ela confirma. Só esperou por mim uma única vez: em León quando eu adormeci. Brincamos um pouco com isso e o Chano diz que por acaso a sensação que tem é a oposta: é a Chris que cuida de mim. Que cuida de mim??? Amuo... na brincadeira. Sei que não é verdade. Na realidade sinto que é mais o oposto, mas imagino que ele se tenha explicado mal.
Já passa das nove quando nos fazemos à estrada.
Ontem decidimos que íamos até Arzúa. A alternativa era ir até Santa Irene (porque não há albergues entretanto) e isso é demais... São 30 km e não queremos fazer tanto. E depois de Arzúa, temos cada vez menos campo e queremos aproveitá-lo. O ideal seria mesmo ficar em Ribadiso, como o Armando, mas isso são só 10km e é pouquíssimo!
Falámos sobre isso ao jantar (porque é o tema de conversa preferido do peregrino) e tanto a Cristina como os portugueses alinharam no nosso plano: ficar hoje em Arzúa.
Não sabemos ainda quando vamos chegar a Santiago, nem como vamos fazer. Queríamos chegar no Domingo. Hoje vamos até Arzúa, amanhã íamos até Pedorouzo (20km) e no Domingo acordaríamos cedo para chegar a Santiago antes da missa. Mas isso implica fazer 20km antes do meio-dia. Ou melhor, antes das 11 da manhã, porque antes da missa temos de ir à oficina do peregrino buscar as nossas Compostelanas. Não sei se conseguiremos... o problema é que entre Pedrouzo e Santiago não há albergues. Quer dizer, o único que existe é em Monte do Gozo, mas fica a 5 km de Santiago. E fazer 35km amanhã é impensável. Talvez seja melhor apontar para Segunda-feira. Logo se vê...

Passamos por algumas aldeias e rapidamente entramos no bosque outra vez, onde tudo é verde.

Chano vem um pouco atrás de nós e nós não percebemos se prefere que esperemos por ele ou se quer caminhar um pouco sozinho. De vez em quando conversamos com ele. Ontem à noite disse, diante do grupo todo, que eu ressonava. E muito. Junto isso à história de ser a Chris a cuidar de mim e começo a pegar com ele, a dizer que estou chateada, que já não lhe falo mais... e amuo outra vez. Pelo menos vamos rindo.
Está um dia muito bonito e parece que vai fazer calor.
Estamos agora em bosques frescos, com eucaliptos e aproveito para encher os pulmões de ar, pode ser que se limpe alguma coisa.
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Passamos por um novo riozinho
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Hoje estou bem disposta e leve. Muito leve e feliz! Falo muito com a Chris e digo-lhe que também ela está a fazer-me bem. Esta história de esperar sempre por ela é um belo exercício à minha paciência. Se fosse a minha irmã eu hoje teria ficado chateada, teria gritado, teria ficado zangada. Mas não fiquei. Fiquei na altura, mas assim que a vi passou logo.

Em Boente estou aflitinha para fazer xixi. Tanto, que já nem consigo aguentar a bolsa que trago à cintura! Mas os cafés estão fechados... A Chris tenta ligar ao Rodrigo e eu procuro um canto para fazer xixi... vai no mato mesmo.
Passam por nós os ingleses dos burros.
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O Chano descobre um cafezito aberto e entramos para tomar um café. Não podemos encher as nossas garrafas porque não há ali água. A senhora diz-nos que teremos uma fonte uns quilómetros mais à frente. Este café não é muito amigo do peregrino, apesar de estar mesmo no Caminho.
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Retomamos o Caminho e o sol já está muito muito quente. Subimos e descemos inúmeras vezes e o calor aperta. Quase não há bosques agora e fazemos o Caminho por asfalto, sem qualquer protecção natural contra o sol.

Decidimos parar mais uma vez num parque de merendas. Estamos ainda antes de Ribadiso da Baixo, por isso imaginamos que estaremos a uns 5 km, no máximo, de Arzúa. Eu tenho as pernas inchadas por causa do calor e preciso também de parar. O Chano está com dores no pé... estamos todos rotos e imagino que o vinho de ontem não terá ajudado. Devíamos fazer uma vida saudável...
Sentamo-nos numa sombra e eu deito-me no chão com as pernas levantadas. Já não me importo se me sujo ou não. Suja estou eu que as minhas calças estão cheias de caca de vaca... não vale a pena preocupar-me mais.
Descalço as botas e as meias para os pés secarem, tiro a joelheira e levanto as pernas. No yoga aprendi que a posição invertida sobre os ombros facilita a circulação e assim me ponho durante uns bons minutos. Também não me importo que alguém me veja, nem se estou a fazer má figura. Que diabos, sou peregrina e cada um faz o que lhe é mais confortável.
Chano também se deitou no chão e ouve música. Pergunta-me se quero ouvir a sua música preferida enquanto me estende o aparelhómetro. Que simpático.

Apesar de estarmos entre duas aldeias quase pegadas e mesmo ao lado da estrada que as une, não se ouve barulho nenhum. Tudo é verde e a poucos metros há vacas a pastar.
Não aguentaria fazer o Caminho no Verão. Ainda não é meio-dia e já está este calor todo... as minhas pernas não aguentam... Sugiro que amanhã nos levantemos às 6 e comecemos a caminhar às 7 para evitar o calor. Renovo a vaselina nos meus pés (desde Airexe que deixei de pôr talco)

Mais descansados retomamos o Caminho e eu volto a ficar aflita... adianto-me e desta vez nem tiro a mochila.
Depois de uma grande descida chegamos a Ribadiso da Baixo, onde o Armando vai ficar. Não passámos por ele, nem ele por nós ainda. O Albergue tem de facto um ar amoroso e fica mesmo sobre o rio Iso.

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É uma aldeia a fazer lembrar Airexe e volto a pensar se não será melhor ficar aqui. Mas não, continuamos. Parece mal fazermos só 10km hoje e se a ideia é chegar a Santiago e ainda ter tempo de ir a Finisterra (e eu quero voltar para o Porto na Terça-feira), o melhor é continuar até Arzúa.
Começo a aperceber-me que Arzúa é uma cidade e até já a vejo lá ao fundo. Fico com um nó na garganta e vou pedindo a Deus que não seja. Faço até pequenos sacrifícios... mas à medida que vamos avançado vou percebendo que é mesmo uma cidade. Espero ao menos que seja pequena, que não seja como Melide, que o albergue fique fora, mesmo no campo...

Chegamos a Arzúa debaixo de um calor tórrido. Vamos pela estrada e o alcatrão quase derrete. Fico triste com a minha decisão, mas agora já não há nada a fazer. No próximo Caminho planearei melhor e ficarei em Ribadiso.
Repete-se o sofrimento de todas as cidades: onde está o albergue??? O meu guia diz que temos de andar 20 minutos, depois de entrar em Arzúa, para o encontrar.
Chegamos à Rua principal, no centro e encontramos o Paulo sentado numa esplanada. Diz que vão continuar até Santa Irene. Nós não conseguimos. Fazer agora mais 17km com este calor é impossível, e nem queremos avançar mais hoje. Ficamos por ali mesmo.

Continuamos a caminhar e o albergue aparece lá ao fundo. Novo nó: à porta estão muitas crianças de um dos grupos barulhentos... Não acredito!!!!!!!!
O Albergue ainda não abriu e esperamos um pouquinho. Assim que abre entramos deixando as crianças para trás. Devem estar à espera de alguém.