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O meu Caminho de Santiago!

sábado, abril 30, 2005

11.º Dia de Caminho Parte I : Arzúa - Pedrouzo= 20km

Dormi mal. Muito mal. Estava calor, o quarto muito abafado, a discussão de ontem, o medo de não ouvir o despertador, o miúdo por cima de mim que não parou de se mexer... O telemóvel toca às 6 horas e a mim parece-me que acabei de adormecer. Quero ficar mais uns minutos na cama, mas não posso. Os monitores estão também a acordar a criançada e em breve as casas de banho ficarão cheias. Fiquei também de acordar toda a gente e tenho de despachar-me.
Acordo a Chris e o Chano. Nenhum dos dois dormiu.
Levanto-me. Há uma série de tralhas no chão e algumas em cima da minha cama. São do puto de cima. Deve pesar uns 150kg porque a cada volta a cama abanava toda... Atiro tudo com raiva para cima dele e do que dorme por cima do Chano.

Ontem à noite a Chris e eu deixámos tudo preparado, como fizémos no Cebreiro, de modo a que a saída de hoje fosse o mais silenciosa possível. Pego na minha mochila, no meu saco-cama e no meu cajado e saio para o hall. Pouso tudo e volto para acordar o Armando. Entro no quarto da terceira idade para acordar a Cristina. A sinfonia é impressionante! Cada um ronca para seu lado e não imagino como é que alguém consegue dormir aqui... Não terá sido uma noite muito melhor que a nossa.

A criançada começa a sair para o hall também e eu decido descer para as casas de banho de baixo. Talvez até tome um banho, hoje de água quente.
À entrada do albergue, mesmo na porta, está alguém deitado a fumar um cigarro. Imagino que seja o velho da cruz e fico mais descansada. Coitado, deve ter vindo dormir para aqui.

Aqui tenho a casa de banho toda só para mim. Decido afinal não tomar banho. Parece-me que a água não aquece e não convém nada ir lá para fora de cabelo molhado.
Depois de pronta, saio para a rua. Já lá está o Armando e um monte de crianças e monitores. Como a gauffre que comprei ontem e bebo o leite de morango. Ainda é noite e está uma humidade incrível. Está frio, mesmo. Ainda bem que não vesti os calções de dormir como tinha pensado.
Aquecemos e fazemo-nos ao Caminho.
Está mesmo frio... é humidade, neblina, e imagino que assim que levantar ficará muito calor. Há um provérbio qualquer assim. Em espanhol também, porque o Armando, como se lesse os meus pensamentos, diz-mo. Mas por agora está um gelo... até me doem as mãos mas vai dar muito trabalho procurar as luvas. Tento protegê-las com as camisolas, mas dói mesmo e não há meio de aquecer!!!

Andamos só um pouco pela estrada e entramos no campo outra vez. Começa a amanhecer e os pássaros a acordar. Olho tudo em volta e encho o peito de ar. Quero guardar isto tudo. Quero ver cada pormenor, sentir cada cheiro, ouvir cada pássaro...não perder nada. É o penúltimo dia de viagem e isso angustia-me. Fico um pouquito triste mas faço um esforço para não pensar mais nisso... se penso acabo por não aproveitar estes dois últimos dias.
O Armando vem para perto de mim e pergunta-me o que acho eu da ideia de apanharmos um autocarro em Pedrouzo até Monte do Gozo. Fazíamos os 20 km até lá e depois os últimos 5 e ainda conseguíamos chegar hoje. Ou então ficávamos no albergue de Monte do Gozo e amanhã chegaríamos a Santiago de manhãzinha. Eu digo-lhe que por mim não há problema, afinal já fiz batota de O Cebreiro até Sarria... Mas na verdade fico com um incómodo cá dentro... logo se vê... depende de como estivermos. Queria caminhar estes dois últimos dias, porque logo logo isto vai acabar... Penso para mim que não vale a pena pensar ainda nisso enquanto não chegarmos a Pedrouzo. Por mim fico lá hoje e recomeço amanhã, ou no máximo tento ir até algures entre Pedrouzo e Monte do Gozo e durmo num hostal... quando chegarmos a Pedrouzo veremos, ele vai perguntar outra vez e aí eu vejo o que é melhor.
Vai atrás e percebo que está a falar com os outros. Volta para me dizer que tanto o Chano como a Chris não apreciaram a ideia e que de facto ele também prefere chegar pelos seus próprios meios.


Depois de uma subida íngreme damos de caras com um espectáculo lindo! Subimos tanto que passámos a neblina e ela agora está lá em baixo. O sol, a nascer.

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Ficamos todos maravilhados... não conseguimos dizer nada... limitamo-nos a fotografar desenfreadamente... é impossível não agradecer a Deus por este espectáculo maravilhoso...
É Armando que nos chama... apetece tirar milhentas fotos, mas ainda temos muitos quilómetros pela frente. Há que continuar.

Passamos por uma mini aldeia e está tudo fechado. Eu desespero por um café... mas acho que ainda vai demorar muito tempo até o poder beber. São sete e pouco da manhã e estas coisas não costumam abrir antes das 9h30... Faço as contas mentalmente... ainda falta muito para o meu café...

A mochila começa a magoar-me os ombros e eu, como estou à frente do grupo, paro. O Armando faz-me uma massagem fantástica nos ombros e eu ponho uma camisola à volta da cintura para que a mochila aperte melhor na barriga. Devo estar mesmo mais magra.

Há duas peregrinas a caminhar ao mesmo tempo que nós. Ora passamos nós por elas, ora passam elas por nós. Acho que são americanas. São muito novinhas.

Um pouco antes de Calle encontramos, no meio do bosque, um homem. Diz-nos que há em Calle dois cafés e que o primeiro não presta.
“No segundo há tarte Santiago. Muito boa! Não vão ao primeiro, vão ao segundo.”
Agradecemos e continuamos a andar. Graças a Deus há alguma coisa aberta e eu vou poder tomar o meu café. A minha enxaqueca, que andava a ameaçar desde Arzúa, começa a dar sinais de si e já me dói um olho.
Chegamos ao primeiro café e tem tão bom aspecto que decidimos entrar para experimentar.
A rapariga é simpática e bebemos café. Ainda não são nove horas e já fizemos 8km.
A minha enxaqueca torna-se mais visível e pela primeira vez nestes 15 dias tomo os meus comprimidos da enxaqueca e peço mais um café. Caminhar com calor e enxaqueca não é bom.
Decidimos que em Pedrouzo não ficamos, porque devemos chegar lá por volta da hora do almoço. Fazemos algumas perguntas à rapariga e a um outro senhor que entretanto chegou e dizem-nos que no Monte do Gozo estaremos a meia hora de Santiago. Talvez não valha a pena ficarmos lá uma noite, também. Começamos a animar-nos
Conversamos sobre a discussão de ontem. Armando estava no beliche ao lado do do homem da cruz e assistiu a tudo de camarote. Diz que o outro, o Fernando, o puxou da cama (de cima) e o atirou ao chão sem dó nem piedade. A Cristina apercebeu-se de alguma agitação, mas como estava no outro quarto não sabia bem o que era. Contam-me que afinal era o tal Fernando que estava a dormir no colchão à porta do Albergue. Devia ser para se assegurar que o da cruz não voltaria a entrar. Todos concordamos que a discussão foi exagerada e que o Fernando acabou por perder a razão. O pobre homem da cruz, por pior que tenha feito, é um pobre coitado, doido, provavelmente não tem noção de nada, e tudo aquilo foi exagerado.
Faço uma massagem ao meu joelho e tomo o anti-inflamatório. Já tenho algumas dores, o que não é nada bom... Não é normal já ter dores a esta hora da manhã... Se não fosse por ele, acho que seria capaz de chegar ainda hoje a Santiago. Estamos a caminhar a um bom ritmo. Lembro-me que há também o calor e se agora estamos muito bem, daqui por duas horas estaremos todos de pernas inchadas e muito mais cansados. É melhor não fazer grandes planos.
A rapariga, muito bonita, pergunta-nos se encontrámos pelo caminho um homem a fazer publicidade ao segundo café de Calle. Dizemos que sim.
“E disse-vos o quê?”
Ela explica que esse homem é o dono do segundo café e que todos os dias vai para o Caminho dizer mal do primeiro. Chega mesmo a dizer que está contaminado e que as coisas estão todas estragadas. Os peregrinos acreditam e raramente param no primeiro, onde estamos agora. A rapariga diz que já chamou por diversas vezes a polícia, que já fez queixa a uma série de entidades, mas o homem não desiste e continua a fazer esta publicidade enganosa e negativa e a estragar o negócio deste pequeno café.
Ficamos indignados.
Pedimos-lhe que nos tire uma foto e seguimos. Passamos pelo tal café do homem do bosque e compreendemos por que tem de fazer publicidade negativa: o café tem um aspecto horrível.


O sol aquece e nós continuamos no campo. O meu joelho doi cada vez mais...
Numa subida encontramos um monumento triste.
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À direita, no nicho, está um par de botas de ferro. À esquerda uma placa com uma vieira. Por baixo da vieira diz:
“ A GUILLERMO WATT
PEREGRINO
Abrazo a Dios a los 69 años
A una jornada de Santiago
El 25 de Agosto de 1993, año santo
vivas in cristo”
Fico toda arrepiada.
A um dia apenas!
Rezo uma Avé-Maria e um Pai- Nosso por ele e peço ajuda a Deus para que me deixe chegar a Santiago. Nada é garantido e o facto de ter chegado até aqui não significa que o Caminho esteja feito... Coitado do senhor... de onde terá vindo? Como terá morrido? Do coração, provavelmente... 25 de Agosto... devia estar muito calor... e ainda por cima em ano santo! Fico verdadeiramente impressionada!

São 10h30 quando decidimos parar novamente.
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Estamos em Brea (há muitas “Breas” na galiza e esta deve ser a décima por que passamos!) e já fizémos mais 6,5 km. Estamos neste momento a 5 km de Pedrouzo. Chegaremos lá antes da hora do almoço e talvez almocemos noutro ponto qualquer mais à frente.
Peço gelo para o meu joelho... estou com muitas dores e mal consigo andar até à casa de banho.
O Armando e o Chano pedem um Aquarius cada um e perguntam se não queremos também.
Por todo o Caminho vi peregrinos a beber aquilo, mas nunca quis experimentar. Parece-me um refrigerante e não quero beber nada que tenha cafeína ou açúcar a mais. O Armando explica que não, que não tem gaz nem açúcar demais, que é bom porque repõe os minerais que vamos perdendo. Nós ficamos convencidas e experimentamos também. De facto é bom.
Estamos cada vez mais animados e começamos a colocar a hipótese de chegar hoje a Santiago... Se nos mantivermos a este ritmo é possível. O único problema é o meu joelho... A Chris está bem melhor das suas bolhas e nos últimos km já vinha à frente, muito mais depressa que eu e a caminhar muito bem, como se passeasse. A Cristina está mais dorida, por causa das suas bolhas e diz que fica em Pedrouzo, não quer continuar.
Levantamo-nos para sair, muito animados com a perspectiva de chegar hoje e mando mensagem ao meu pai e à minha mãe. Não lhes quero dizer que talvez cheguemos hoje a Santiago para que não fiquem preocupados. Se a minha mãe desconfia, vai ficar preocupada e ansiosa e com medo pelo meu joelho e não vale a pena preocupar-se.
Digo-lhes apenas que já fiz 15 km e peço-lhes que rezem por mim. É o suficiente para que a minha mãe me ligue em pânico... pensa que aconteceu alguma coisa... explico que não, que está tudo bem, que estou muito feliz e que tenho de desligar porque já íamos recomeçar a caminhar. Pergunta se chegamos hoje. Digo que não sei.

Recomeçamos e passa por nós o homem da cruz com o miúdo que dormiu por cima do Chano e um outro.
Caminhamos muito pela estrada com carros a passar. Não gosto disto. É o penúltimo (ou último, quem sabe?) dia e queria continuar pelo campo.
Logo depois de Santa Irene voltamos a entrar no bosque. As dores no meu joelho estão a passar e já caminho melhor.
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Estou feliz, muito feliz.
Um dos fechos da minha mochila rebenta e cai tudo o que tinha lá dentro. Mais um. Já rebentou quase tudo... a cabaça já caiu n vezes e agora vai presa no fecho da mochila da frente, só um dos fechos da mochila funciona e este agora saltou completamente. Era onde tinha presa a minha vieira e guardo-a agora na mochila da frente. O Chano volta a pôr tudo dentro da bolsa e fecha-a com uns alfinetes.
Os papéis inverteram-se e agora é a Chris que caminha à frente. Vai com o Armando. Eu fico um pouco para trás e caminho com o Chano.
Atrás de nós, muito atrás, a Cristina. Vem cheia de dores nas suas bolhas apesar de hoje calçar sandálias, e pesa-lhe muito a mochila.
Estamos quase a chegar a Pedrouzo e o sol já queima.
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Chano fala-me das ilhas. Pergunto-lhe como está, se já tem as respostas que procurava. Diz-me que não, mas que pelo menos saiu da bola e que agora terá a calma e a serenidade para que as respostas cheguem por si. Digo-lhe o mesmo. Falamos um pouco mais sobre tudo isso. Ele está feliz. Enfim, não totalmente, porque o Caminho está a acabar e isso deixa-o triste. Tanto eu como ele queríamos continuar a caminhar.
Esta manhã Armando dizia-me a mesma coisa.
“Não sei como será quando chegar, porque sinto que esta é a minha vida! Parece que sempre fiz isto, que o meu dia-a-dia era este e quando penso na vida que tinha antes do caminho, parece que não é realidade, parece que não existiu. A minha vida é caminhar!”
Mesmo triste por estar a chegar, o Chano parece-me bem melhor do que nos primeiros dias. Parece mais feliz, mais despreocupado. Continuamos a conversar mais um pouco e entramos na estrada.
A Cristina e a Chris querem parar e descansar. A Cristina aliás, quer ficar ali.
Sim, eu também estou cansada, mas talvez fosse melhor aproveitar o facto de o meu joelho estar melhor para caminhar... Ou talvez não... Está muito calor e estou com alguma fome. Vamos parar por ali.
O Armando sugere que pousemos as mochilas no albergue e que procuremos um sítio para almoçar. Descansamos um pouco e continuamos até onde der.
Encontramos o albergue, mas como é meio-dia e meia ainda está fechado. Pousamos tudo e sentamo-nos nuns bancos à sombra. Estão ali as peregrinas americanas. Converso um pouco com elas. Tiraram uma semana de férias e vieram fazer o Caminho. Hoje ficam por ali.
Descalço-me e deito-me no chão, com as pernas para cima.
Converso com Armando e Chano. A Cris e a Christina estão num outro banco mais à frente. Ambas se descalçaram e estão a tratar-se.
Falamos sobre várias coisas, sobre o Caminho, no que nos deu, nas lições que tirámos, no simbolismo do Caminho.
Armando fala-me da música que estava a ouvir. Fala da vida, de como tudo está ligado, das voltas que a vida dá.
É uma da tarde quando nos levantamos.
Entretanto chegaram os miúdos das Canárias. Também vão continuar. Hoje ficarão no Monte do Gozo.
Almoçamos no Regueiro, um restaurante mesmo ao lado do Caminho que o meu guia sugere.
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A Cristina, a Chris e o Armando pedem um menu. Eu e o Chano um hamburguer. Está demasiado calor para comer tanto... Bebemos vinho, claro. E comemos o delicioso pão da Galiza.
Estamos todos excitados e rimos à gargalhada por tudo e por nada. O Armando brinca e diz piadas e tudo é motivo de piada. Ele tem um humor bestial.
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Cristina

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Chris

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Armando

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Eu

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A famosa tarte Santiago


A Cristina e a Chris decidem tomar um relaxante muscular cada uma... que mais tomarão?
O Armando goza... estamos todos viciados em pomadas e medicamentos. Sentiremos a falta destes cheiros e destas coisas quando chegarmos.
Conversamos sobre os nossos planos. A Cristina já desistiu de ficar em Pedrouzo. Caminhará mais um pouco connosco mas só até encontrar um hostal. No máximo até Labacolla.
O Chano e eu queremos chegar hoje a Santiago e achamos que é possível. A Chris e o Armando são os mais cautelosos. Falam do meu joelho e do pé de Chano. Temos os dois tendinites e somos os mais optimistas.
A verdade é que neste momento não me dói o joelho e acho perfeitamente possível fazer 20 km durante a tarde. Não precisamos de ter pressa em chegar, podemos ir parando a cada 5 km e se pensarmos que é 5+5+5+5 parece fácil. É certo que está calor, mas...
Combinamos que vamos ver. Vamos com calma e paramos onde tivermos de parar. Vamos até onde os nossos pés e as nossas pernas nos deixarem ir.
O Chano oferece-se novamente para levar a mochila da Cristina. Ele está por tudo! Quer é chegar hoje!

Diz que se chegarmos hoje a Santiago, oferece-nos o jantar.


Quero escrever, mas não vou tirar o meu caderno da mochila que com estes alfinetes todos dá demasiado trabalho.
Arranco um papel do bloco do empregado de mesa e escrevo lá. Escrevo também no meu guia:
“São duas da tarde, viemos de Arzúa e acabámos agora de almoçar. Vamos tentar chegar hoje a Santiago. Que Deus e Santiago nos ajudem. A alegria já é imensa e a excitação também! Duas semanas maravilhosas!!! E está quase. Obrigada Deus!”
“Estou entusiasmada!”
Na página que tem a etapa Pedrouzo- Santiago escrevo “30.04 de tarde. Oxalá que sim!”
Estou feliz, feliz, feliz! Num excitex que só visto! Sim, eu serei capaz de chegar hoje a Santiago! Até estou emocionada!