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O meu Caminho de Santiago!

sábado, abril 30, 2005

11.º Dia de Caminho Parte II- Pedrouzo - Santiago = 23km

Pagamos, aquecemos, fazemos os últimos xixis, enchemos as garrafas e partimos.
Está um calor abrasador e a Cristina entra na farmácia.
“Mas que mais drogas vai esta mulher comprar?”, pergunta Armando. Rimos todos. Acabou de tomar um relaxante muscular, estamos todos quitados com medicamentos e drogas de todos os tipos e a esta altura do campeonato ainda há o que comprar na farmácia???
O Chano continua a alongar e passa alguém que fica a olhar para ele com ar de espanto. Ele está agarrado a uma parede enquanto na borda de um canteiro alonga os gémeos. É o suficiente para que eu me ria até chorar... é mesmo da excitação.
A Cristina volta e recomeçamos a caminhar.
O sol aperta muito e eu arrependo-me de não ter trazido o meu protector solar. Sinto o braço e a cara a arder e adivinho um escaldão.
Mas a Cristina tem protector à mão, na bolsa da cintura e empresta-me.
Ela trocou de mochila com o Chano, mas não se ajeita. Quer a sua de volta.
Claro, depois de quase 300km com a sua, que já se adaptou ao seu corpo, deve ser muito desconfortável ter agora uma mochila diferente, mesmo que seja mais leve. Voltam a trocar.
Caminhamos devagar, para não nos rebentarmos.
A Chris e o Armando estão à frente, o Chano continua a caminhar comigo, e a Cristina continua atrás.
Ela queixa-se muito. Diz que somos todos malucos, que se chegar hoje a Santiago quer ser canonizada.
“Claro que sim! Santa Cristina de las Ampollas!”, diz-lhe Armando. Rapidamente arranja nome para todos nós no caso de sermos também canonizados.

Voltamos a entrar no bosque e aqui está-se melhor, mais fresco.

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Está muito calor e custa muito caminhar... apetecia-me fazer uma sesta, ou sentar-me num sítio fresco, mas quero também chegar a Santiago. Quero muito.
“Se chegarmos hoje a Santiago quem vai para o hospital sou eu, em coma alcoólico!”, digo eu, enquanto chamo uma série de nomes menos bonitos a esta terra maldita que é cheia de subidas e descidas... Hoje merecerei tudo! O Chano diz-me para pensar em toalhas, lençóis, água quente, cama... sim, e penso também num quarto só com a Chris, sem ninguém por cima de mim a mexer-se, sem roncos...
Imagino a minha cama no Porto, o meu quarto vazio e sinto uma angústia enorme. Acho que vou sentir-me muito sozinha quando voltar... já não terei mais ninguém no meu quarto...
O bosque não dura por muito tempo e em breve chegamos a uma estrada. Olho tudo em volta com mais amor ainda. Penso nos milhares de peregrinos que ao longo destes mil e tantos anos passaram por aqui, sem as condições que eu tenho hoje, sem estradas, sem albergues, com sol e chuva. Todos nós tínhamos o mesmo objectivo, mesmo que por razões diferentes e fico contente por existir ainda um Caminho de Santiago. Um Caminho com mais de mil anos que eu estou agora a percorrer.
Há por aqui várias subidas e descidas ainda e afinal o Caminho não é tão fácil como se dizia.
De vez em quando passamos por um casal jovem. Encontramo-los sempre parados, deitados no chão. Nunca passaram por nós. Talvez tenham passado sempre que parámos nos cafés. Vi-os pela primeira vez em Arzúa, ontem, no albergue. São os dois muito bonitos. Ele parece o Brad Pitt.
Chegamos ao aeroporto, o que quer dizer que estamos já muito perto de Labacolla. A cada marco que passamos, o nosso coração enche-se de alegria... 15, 15,5, 14, 14,5...
Faltam 13 km para Santiago, estamos a chegar a San Paio onde vamos parar e eu e o Chano esperamos um pouco pela Cristina. Estamos mesmo ao lado do aeroporto. É nessa altura que o meu joelho começa a doer muitíssimo. Não devia ter parado! De repente quase que não o consigo mexer e é com uma enorme dificuldade que recomeço a caminhar.
Chego a San Paio a arrastar o joelho e peço gelo à senhora do hostal-restaurante onde entramos.
Estão ali vários peregrinos que encontrámos no Caminho. Uns ficarão ali, outros no Monte do Gozo. Todos nos dizem que somos doidos por querer chegar hoje a Santiago.
Na verdade, o alemão do tal casal de Airexe que ontem estava em Arzúa disse-me que não era muito boa ideia chegar amanhã a Santiago, a menos que fosse de madrugada. Os miúdos das escolas vão chegar Domingo também e muitos outros peregrinos e a fila para as Compostelanas vai ser enorme e não conseguiremos ter a nossa antes da missa.
Explico isso a um peregrino dinamarquês que conheci em Villafranca no albergue do Jesus. Explico também que amanhã quero acordar tarde (nove horas pelo menos) que não quero dormir mais uma noite num albergue, que quero ter uma cama e não um beliche, que quero um banho de espuma em vez de um duche frio de dois minutos... que não quero dormir no saco-cama que ultimamente se enrola todo durante a noite... Ele ouve-me com atenção, mas continua a achar uma loucura.
Há ali também uma italiana com uns comprimidos naturais que curam tudo e o Armando pede-lhe um. Estamos já completamente viciados em tudo o que seja pastilha...
Bebemos os nossos Aquarius e pedimos mais uma rodada. Estamos viciados nisto. Nesta altura estamos já dopados mesmo e rimos por tudo e por nada... os outro olham para nós como se fossemos doentes mentais.


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Estamos todos estropiados e no entanto rimos até às lágrimas com as maiores idiotices e ainda queremos chegar a Santiago hoje.
Chegam entretanto os miúdos de uma das escolas e o casal jovem e bonito. O Armando fala com o rapaz. São dinamarqueses.
Recomeçamos o Caminho embora eu tenha dores horríveis no joelho. Tomo outro anti-inflamatório mas parece que o meu joelho arde por dentro de tão quente que está. Imagino o motor de um carro que sobreaqueceu.
Como caminho com dificuldade, o Chano e eu partimos na frente. Há uma grande subida e as dores são indescritíveis. Começo a duvidar que consiga chegar hoje a Santiago... Nós não falamos, só caminhamos e eu tento não me concentrar na dor.
Entramos numa aldeia e passamos por uns peregrinos franceses com umas mochilitas pequeninas. Chega um carro com matricula francesa e percebo pela conversa que são peregrinos com apoio de carro. Para eles é fácil... No fundo, fico com pena deles.
Há uns montes à nossa frente e imagino que tenhamos de os subir. O Chano pergunta a um homem qual é o melhor caminho para chegar a Santiago: o Caminho ou a estrada. O homem diz que é o Caminho, que só teremos mais esta subida e que depois é tudo plano, que por ali vamos mais protegidos porque há árvores. A estrada é mais quente e perigosa e não compensa.
Vamos pelo Caminho, então.

Subimos. Eu já não tenho mais truques para que a coisa custe menos. Custa de todas as maneiras. O Chano sugere que eu caminhe de costas mas dá igual. O meu joelho dói até mesmo parado e eu imagino que chegando a Santiago terei de ir para o hospital. Mas era esse o acordo com Deus: deixar que eu chegasse a Santiago mesmo que ficasse toda rebentada.
No alto da subida, alerta ampollas: o Armando tem de parar e pôr vaselina. Empresto-lhe a minha que é a que está mais à mão. O Chano fica com ele mas nós, meninas, continuamos. Voltamos a cantar. Agora o Caminho é plano mas muito feio. Estamos ao lado de uma estrada e digo mal do homem que nos disse que este era melhor. Tem subidas sim (já vejo mais umas descidas e subidas ao fundo), não estamos nada mais protegidas do sol e é feio!
Passamos pela TV Gallega e Armando e Chano aproximam-se. Vamos parar em San Marcos, que fica a 1km do Monte do Gozo. A Chris precisa de parar para fazer não sei o quê.
Eu digo que talvez seja melhor que eu continue. O meu joelho está um pouco melhor. Tenho medo de parar e ficar com tantas dores que não consiga caminhar mais. Foi por ter parado antes de San Paio que fiquei com tantas dores e não quero isso outra vez...
O Chano diz que se eu continuar acompanha-me.
O Armando e a Chris vão parar e a Cristina quer ficar no Monte do Gozo. Trocamos números de telefone para nos encontramos em Santiago e eu percebo que se eu continuar a caminhar talvez chegue primeiro a Santiago. A Chris entretanto diz que já não quer parar, que vai continuar comigo, mas eu sei que ela precisa de parar. Ela hoje deu-lhe forte e deve estar cansada.
É a decisão mais difícil de todo o Caminho e peço a Deus um sinal. Todos os sinais que lhe peço dizem-me para continuar, mas mesmo à entrada de San Marcos decido parar. Quero entrar em Santiago com a Chris e não vou arriscar não o fazer. Santiago só faz sentido se chegar com a Chris, a minha companheira de sempre! Claro que quero entrar com todos eles, com Armando e com Cristina, se der. Depois do dia de hoje, quero entrar com os 4 e acho que devemos entrar os 5 juntos! Mas essencial é mesmo a Chris e tenho de parar com ela.
Paramos todos.
As dores no meu joelho são tantas que mal me arrasto. Está um calor insuportável lá dentro e sentamo-nos cá fora a beber os nossos Aquarius, a nossa droga. Que pena não ter descoberto esta maravilha mais cedo...
Estou cheia de fome e com muita vontade de fazer xixi, mas nem posso pensar que tenho de caminhar até lá.
Há ali uma balança e o Chano pesa-se. Também tenho curiosidade de saber quanto estou a pesar agora. Acho que estou mais magra, mas por outro lado tenho uma barriga que não tinha quando cheguei. E devo ter muito mais músculo e o músculo pesa mais. Não tenho coragem de me pesar, porque isso implica tirar o gelo que tenho no joelho, pôr-me em pé e caminhar, e não consigo.
O Armando tenta fazer-me uma massagem no joelho, mas está demasiado gelado. Limita-se a aquecê-lo com uma mão por cima e outra por baixo. Dividimos o meu chocolate. Ele também é guloso.
O Chano começa a ligar para os hotéis todos em Santiago. Traz uma lista enorme de hotéis que já tinha visto antes de vir para o Caminho. Está tudo cheio, mas ele continua. Finalmente deixa uma reserva feita no Hostal Windsor. O problema é que fica a 10 minutos do centro e nós queremos um hotel ao lado da Catedral para não termos de caminhar mais. Hoje podemos ir e vir de taxi, mas amanhã e depois...
A Cristina liga para a família e diz que afinal chega já amanhã. Diz que está com uma brasileira e uma portuguesa malucas que a querem arrastar para Santiago ainda hoje, mas ela não consegue. Tem muitas bolhas e vai ficar ali em San Marcos, porque há ali um hostal.
Reparo no pé dela. Acabou de aparecer uma bolha enorme de lado. Parece que vai rebentar a qualquer momento e não consigo compreender como é possível que apareça uma bolha ali naquele sítio. E daquele tamanho! Dói-me só de olhar.
O Armando não consegue massajar o meu joelho e então tira-me a bota e a meia para me massajar o pé. Fico com vergonha. Não gosto dos meus pés que são muito feios, mas não estou em posição de ter vaidades neste momento. Afinal de contas a aparência do meu pé é o que menos importa agora... estou cansada, suja, malcheirosa, queimada do sol... Ele diz-me que os meus pés são bonitos e que estão muito bem tratados. Nunca os tratei. Limitei-me a passar talco ou vaselina por causa das bolhas. E por falar em bolhas, acho que está a nascer-me uma no pé esquerdo, mesmo no tornozelo.
Chega entretanto o casal dinamarquês bonito. Bebem qualquer coisa enquanto se sentam a conversar connosco. São muito simpáticos e descubro que são eles os amigos do Paul, o velhote belga que fez o Caminho do Norte. Eles falam do que se passou esta noite no Albergue. O rapaz dormia por cima do Armando, mesmo ao lado do velho da cruz e também assistiu a tudo. Fez-lhes muita confusão porque, tal como o Paul, estavam habituados a ter o albergue só para eles e de repente não só encontram muita gente, como ainda assistem a uma discussão daquelas.
Depois de conversar um pouco, eles decidem ir também para Santiago hoje. O Chano indica-lhes um restaurante e diz que é onde estaremos hoje. Gato Preto.
Vou à casa-de-banho a muito custo. O meu joelho agora dói menos e peço a Deus que me acompanhe nestes últimos 6km.
Pegamos nas nossas mochilas e preparamo-nos para seguir. São 6h30.

O rapaz fica admirado com a quantidade de coisas que trago comigo. Tudo pendurado. De facto nem sei o que pareço.
Tenho uma mochila grande, uma mochila pequena à frente, uma bolsa à cintura, um cajado com um cachecol pendurado, a cabaça pendurada na mochila da frente. Um poncho de lã pendurado na mochila das costas, uma sweat à cintura e uma t-shirt presa numa alça da mochila grande. Explico que é o que fui despindo e que assim não pesa tanto, porque está mais repartido. E pergunto porque raio tem um ténis calçado num pé e no outro uma bota. Os pares estão pendurados na sua mochila. É a namorada que explica: as botas magoavam-no num pé e os ténis no outro. Então ele deu-lhe a ideia de se calçar com os dois: o ténis no pé que a bota magoava, a bota no pé que o ténis magoava. Hoje está muito melhor e caminha muito bem!
Despedimo-nos e voltamos a caminhar.
A Cristina decide vir connosco afinal.
Mais uma subida e já se vê Santiago. Está muito muito perto, mas ainda temos 5 km até à Catedral. Começo a ficar emocionada e angustiada. O Caminho está mesmo a acabar e agora não há como não chegar. Dado o primeiro passo depois de San Marcos, não há como voltar atrás.
Mais uma descida e uma ponte à nossa frente. Olho a placa ao nosso lado
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Peço à Chris que me tire uma foto com a sua máquina. Só tenho mais duas fotografias e quero guardá-las para a Catedral.
(a Chris tirou mas não mandou ainda e a que está por cima é do Chano)
Procuro o meu telemóvel para ver as horas, mas está desligado, sem bateria. ( não sei se foi a Chris que me disse, mas tenho a ideia de que eram 7h30)
Conseguimos! Estamos em Santiago! Rimos as duas e damos as mãos. Nós conseguimos! Nós conseguimos! Nós conseguimos! Contra tudo e contra todos, fizémos o Caminho de Santiago, o nosso Caminho, à nossa maneira e caminhámos mais de duzentos quilómetros. Estamos em Santiago! Conseguimos!!!
Estou tão feliz...
Faltam ainda alguns quilómetros até á Catedral, onde termina o Caminho.
Enquanto atravessamos a cidade, estes 11 dias tão intensos passam à minha frente, como cenas de um filme a que assisti. Custa-me a crer que tenham passado só 11 dias. Vejo o aeroporto de Leon com a avionetazinha que nos trouxe de Madrid, o albergue das monjas e a chegada, o medo e a excitação na bênção da primeira noite, o vento de Leon e Villar de Mazarife e Fabiana. Vejo Santibañez e a velha do albergue manhoso, a holandesa que vinha da Holanda a pé, Astorga e o francês que apregoava a tempestade, Santa Catalina, Andrea, os velhotes espanhois e o Americano. O dia de Ponferrada e Villafranca. Jesus e Angel. O Cebreiro e Eduardo e a sensação de que tinha saltado uma parte importante. A camioneta e todas as aldeias e as etapas que saltámos. Todos os meus medos e tristezas, todas as alegrias. O recomeço, Chano, Portomarín, Airexe... O reencontro com os espanhóis, os portugueses, Melide. Ontem e hoje. E hoje parece que durou uma semana. Sinto Armando e Cristina como amigos de sempre. Chano nem se fala e Chris é como uma irmã. Nem acredito que daqui por uns dias voltaremos a ter um oceano a separar-nos.

Aperto o meu cajado bem forte e despeço-me dele, agradecendo-lhe a companhia e a ajuda que me deu... o meu companheiro de tantos quilómetros.
A Chris continua, mecanicamente, a anunciar a sua chegada com o cajado: tok, tok, tok.
Armando diz-me que está muito orgulhoso de todos nós. Que maravilha que é chegar com amigos. Tivemos a chegada que merecíamos, com as pessoas que merecíamos.
É engraçada a vida.

No Caminho, tal como na vida, fazemos amigos que entretanto perdemos. Mais adiante reencontramos alguns e conhecemos outros. E só se tornam nossos amigos porque perdemos os anteriores, porque ficámos disponíveis, receptivos. O Caminho, como a vida, é cheio de encontros e reencontros e perdas e ganhos.
Mais uma lição: não vale a pena ficar triste e presa ao passado porque a vida é um grande ciclo, ou uma sucessão de ciclos. E o que se perde agora recupera-se mais tarde. Mas só recuperarei se estiver aberta a isso, desligada do passado, se aceitar que o passado é isso mesmo.

A Cristina continua lá atrás e de vez em quando esperamos por ela.
A Chris continua com a pica toda e quer chegar rapidamente à Praça do Obradoiro. Está sempre a perguntar se ainda falta muito. Sim, um bocado, mas vai parecer muito mais. Foi sempre assim. Os últimos quilómetros foram sempre os que pareciam demorar mais tempo, principalmente em cidades. Agora será pior, porque são os últimos quilómetros do Caminho. Curiosamente, nem me parece isso. Parece-me que o Caminho já acabou. Estes já não contam. A etapa de hoje está feita. E está feito o Caminho, embora ainda não seja capaz de realizar isto.
Chegamos ao centro, eu continuo a ver as imagens mais marcantes do meu Caminho, a lembrar todas as minhas lições e a agradecer a Deus. Tenho tanto para agradecer!!! Estou tão agradecida!!! E vou-Lhe pedindo que permita que estes efeitos se mantenham em mim por muito tempo. Que o espírito do Caminho não esmoreça nunca!
Já avistamos as torres da Catedral.
Mais um pouco e aqui está ela!
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Apesar de tudo é visível a minha cara de felicidade. Extrema felicidade.
A Cristina chora como um bebé. Eu estou também muito emocionada. Todos estamos e ninguém fala.
Damos a volta e chegamos enfim ao Obradoiro. Agora sim, a nossa peregrinação acabou. Aqui estamos nós. Doridos, cansados, malcheirosos, mas terrivelmente felizes! A Catedral à nossa frente. Nós juntos.
Abraçamo-nos os cinco. Conseguimos! Nós conseguimos! 43km num só dia, debaixo de um sol abrasador. O dia mais quente de todo o Caminho (uns 30 graus, imagino).
Eu, o Armando e o Chano com tendinites, a Chris e a Cristina com bolhas e conseguimos. CONSEGUIMOS!!!!!!!!!
Não consigo dizer nada. Só quero continuar a abraçá-los a todos e a saborear aquele momento. Eu consegui! Eu consegui!
A minha auto-estima está lá em cima, tão alta como as torres desta catedral. Se eu consegui isto, consigo tudo! Dou-me conta que afinal era isto que procurava. Vim para aqui em busca de respostas mas no fundo, no fundo, o que eu precisava era de recuperar a minha auto-estima. Agora vejo isso. Nada me preocupa. As respostas virão. Eu gosto de mim. Sei que sou capaz de conseguir tudo o que quiser ser ou fazer porque tenho uma vontade de ferro! E tudo o que se quer com muita força consegue-se.
Eu consegui fazer 150km com uma tendinite!
Eu consegui caminhar estes 43km com calor e dores de meia-noite. Eu consegui chegar a Santiago.
Eu consegui amar-me!
Sinto uma paz enorme! Eu gosto de mim e afinal é essa a resposta para todas as perguntas. Eu gosto de mim!
Baixei as minhas defesas como nunca e dei. E dei-me. Sem pensar, sem pedir nada em troca, sem esperar nada, sem medo nenhum. Dei-me. E recebi tanto em troca!!!
Amei os meus amigos e sinto o amor deles. E é esse amor que faz com que neste momento eu me ame a mim também.
Então é isto a felicidade...

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