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O meu Caminho de Santiago!

sábado, abril 30, 2005

11.º Dia (III) - Santiago de Compostela

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Estamos no Obradoiro e sento-me no chão. Somos peregrinos, há que agir como tal.
Todos se sentam também.
Quero ligar à minha mãe e ao meu pai e dizer-lhes que estou bem, feliz como nunca estive e que cheguei ao meu destino. Imagino que a minha mãe esteja preocupada pois já passou há muito a hora habitual de lhe ligar. Costumava ligar-lhe no fim de cada etapa e isso acontecia por volta das 5... Imagina concerteza que continuei até Santiago e já deve ter ligado mil vezes para o meu telemóvel, mas como está sem bateria... já deve estar a imaginar-me num hospital... tenho de ligar-lhe mas não sei bem como.
O Chano continua a ligar, furiosamente, para todos os hoteis da sua lista. A nossa única condição é que seja perto da Catedral, para que não tenhamos de caminhar muito mais.
Está tudo cheio.
Eu continuo extasiada. Há muitos turistas ali, todos limpinhos e arrumadinhos. Apetece-me gritar-lhes que sou uma peregrina, que acabei de chegar de Leon, que hoje fiz... quantos? Armando diz que são 43km.
Temos uma reserva no Windsor e decidimos que mais importante que procurar um hotel é ir buscar as nossas Compostelanas. A oficina do Peregrino fecha às 9 da noite e já passa das 8. Não sabemos onde é. Temos apenas uma morada, mas as setas amarelas agora acabaram. Estamos numa cidade grande (para nós é enorme) e eu sinto-me meio perdida.
Tenho vontade de abraçar outra vez os meus amigos.
Levantamo-nos e caminhamos em busca da oficina do peregrino.

Agradeço ao Chano a companhia e a força que me deu. Principalmente hoje. Digo-lhe que me fez muito bem conversar com ele, que gostei muito da sua companhia. Não sei se noutra altura teria dito isto, ou se teria deixado o coração falar desta maneira, mas hoje, depois deste Caminho, sei que não devo nunca deixar nada por dizer, que não posso desperdiçar palavras nem beijos nem abraços.
Ele retribui e vejo que para ele também é um esforço.

Depois de muitas voltas encontramos a oficina do peregrino. Ainda temos de subir umas escadas e nós, as meninas, subimos com grande dificuldade. Mas estamos felizes e é isso que importa.
Perguntamos ali por hotéis e o Chano continua a ligar para milhentos. Tudo cheio.
Há um que tem vagas, mas é caro.
Encontramos um e vamos até lá para espreitar. Sai mais barato que o Windsor, onde ainda temos as nossas reservas, porque como fica mesmo no centro poupamos o taxi. Mas esta pensão, apesar de bonitinha, não nos agrada. Os quartos são abafados e no terceiro andar... sem elevador... e nós não estamos em condições de subir escadas.
Saímos outra vez e começamos a bater em todos os hotéis e pensões que encontramos. Tudo cheio. O Chano quer ficar no hotel caro, mas por mais que me apeteça também ter um pequeno luxo, não posso. Não sei como está o meu saldo, mas imagino que não seja grande coisa e ainda tenho de voltar para o Porto, alimentar-me por aqui até ir embora, ir a Finisterra e pagar as contas quando chegar a Portugal. Tenho de poupar.
Chano liga novamente para o Windsor para saber se ainda temos quartos e para dizer que afinal somos 5 e precisamos de mais um.
Tudo em ordem. Não têm quartos individuais mas vão pôr a Cristina num quarto duplo ao preço do individual.
Chamamos dois taxis e partimos.
O hotel fica muito perto do centro afinal e talvez dê para vir a pé.
Entramos extasiadas e mancas. Eu estou tão feliz que digo ao recepcionista que hoje fizémos 43km, que eu fiz mais de 120km com uma tendinite, que conseguimos chegar.
Ele dá-nos os parabéns e as chaves e nós subimos, de elevador.
Há uns tempos atrás, teria achado estes quartos uma merda... não têm vista, as camas são moles, a casa-de-banho minúscula e a banheira parece um bidé grande.
Hoje tudo isto me parece um hotel 5 estrelas! Não vou precisar de tomar banho de chinelos, tenho uma toalha de banho (nestas últimas semanas limpei-me com uma toalha de rosto), uma de rosto e uma de bidé, sabonete, água quente, um armário e ninguém a dormir por cima de mim!!!
Ligo finalmente à minha mãe. Estou tão feliz!!!
A Chris e eu descalçamo-nos... está um fedor que não se aguenta, mas nem quero saber. Estou cheia de fome, mas estou tão cansada que nem me apetece tomar banho. Dói-me só de imaginar que terei de sair e caminhar mais não sei quanto até um telefone para ligar ao meu pai e depois até ao centro para comer. Por mim comíamos mesmo aqui.
O Chano e o Armando chegam. O Chano tinha ido não sei onde buscar roupa limpa que tinha mandado para aqui antes de começar o Caminho.
O Armando abraça-nos mais uma vez. Estamos todos felizes!
“Só tenho vontade de vos abraçar a todos!”, diz ele.
A mim também me apetece abraçá-lo e beijá-los e dizer-lhes que os amo! Não caibo em mim de contente e sinto um amor enorme por esta gente que mal conheço. Parece que sempre vivi com eles!
O Armando faz-me mais uma massagem no pé. Agora é o outro. Diz que gosta. Eu já nem me importo com o meu cheiro, nem com o meu aspecto. Estou feliz! Sou uma peregrina e cheguei a Santiago!

Combinamos encontrar-nos lá em baixo, na recepção, às 10h30 para jantar.
Tomo um banho com água quente que me sabe pela vida. Obrigada meu Deus! Obrigada por todos os banhos de água fria! Obrigada por todas as noites de roncaria, por todos os beliches que abanavam, pelo frio e pelo calor! Obrigada por todo o desconforto, porque só assim posso dar agora o devido valor a este conforto.
Visto os calções, calço os chinelos, ponho o meu top e a t-shirt lavadinhos (as calças que ontem foram lavadas já estão cheias de caca desde as 9 da manhã!!!), visto o poncho e saio em busca de um telefone público. Quero ligar ao meu pai também, chega de mensagens! Quero dizer-lhe, de viva voz, que cheguei a Santiago e que estou muito, muito feliz! E agradecer-lhe pelo apoio! Quero ouvir a voz dele e senti-lo mais perto de mim hoje, como se aqui estivesse também, tal como já fiz com a minha mãe.
O Chano encontra-me e diz-me que vou ter frio assim, quer que eu vista umas calças dele. Mas dizgo-lhe que não, que estou bem protegida.

Encontro um telefone perto do hotel e ligo ao meu pai. Por momentos, e pela primeira vez, vêm-me as lágrimas aos olhos. Estou orgulhosa.
Volto para o hotel. A Chris está quase pronta, a Cristina não quer sair porque tem muitas dores nos pés. A Chris diz-me que o Chano ficou triste por não aceitar as suas calças... eu acho um piadão e decido então aceitar a sua oferta, segura de que não me vão servir.
Troco de calças no quarto dele, à sua frente. De repente volta a outra Joana, a que não é peregrina e fico meio envergonhada... mas por breves segundos. Lembro-me que dormi várias noites com ele, que fizémos vários quilómetros juntos, que não há dessas coisas entre nós. Somos peregrinos sem sexo nem vergonha. Faz-me mesmo confusão ter-me lembrado deste pudor, que foi coisa que nunca tive nestes últimos dias. Talvez seja por já não estar no Caminho e sim num hotel e portanto, de volta à realidade. É estranho.
Como imaginava, as calças caem-me, apesar de ele ser magro. Mas visto-as mesmo assim para que não se ofenda.
Convenço a Cristina a sair. Mas tanto ela como a Chris querem ir de taxi. A mim, curiosamente, apetece-me caminhar, apesar das dores. O hotel pareceu-me demasiado perto do centro e agora já não tenho mochila, já tomei banho e já descansei um pouco. Armando faz-lhes companhia no taxi e Chano e eu seguimos a pé. Combinamos encontrar-nos no Obradoiro.
Chano dizia que conhecia a cidade, mas perdemo-nos por várias vezes. Eu estou esfomeada e já nem penso direito. Neste momento estou capaz de comer qualquer coisa. Até fígado, se houver!!!
Sinto a falta do meu cajado, principalmente quando se trata de subir escadas... parece que já nem me consigo equilibrar. Realmente, estou a caminhar há 11 dias com ele, e nas aldeias, os passeios eram tão curtos que não sentíamos necessidade do cajado. Mas agora, está a fazer-me uma confusão tão grande caminhar sem ele...
Depois de meia hora de voltas e voltinhas, chegamos finalmente ao Obradoiro. Armando está a comer uns amendoins que ficaram perdidos, sabe Deus quando, dentro do bolso do seu casaco. Partilha-os comigo e conta-me como começou a gostar de anchovas. Num belo dia estava como eu estou agora: vesgo de fome. Não tinha nada mais para comer a não ser uma lata de anchovas, coisa que odiava... até àquele dia. Passou a achá-las uma verdadeira iguaria desde então.

Damos mais umas 500 voltas à procura de um sítio para comer, porque o Chano, obviamente, “conhece” tudo... Imagino que já seja quase meia noite quando finalmente nos sentamos para comer.
O jantar é divertidíssimo. Ainda estamos eufóricos. A Chris é a que está com um ar mais cansado e parece distante.
O Chano oferece-nos o jantar e saímos para um bar.
Encontramos os portugueses e ficamos um pouco à conversa. Eles chegaram de manhã e já fizeram as compras de turista e tudo. Amanhã vão embora logo depois da missa... recordo-me de que o Tiago tem teste na segunda.
A Cristina volta para o hotel, nós ficamos mais um pouco e continuamos a rir. Não sei se por não serem minhas, mas tudo me cai em cima das calças... às tantas é o Armando que entorna uma coca-cola inteira (com rum), em cima de mim... pobre Chano!
Dali, depois de o Armando ter inventado e demonstrado o strip peregrino, vamos para um outro bar com um velho mal-disposto.
Já passa das 3 quando voltamos a pé para o nosso hotel. A mim doem-me as bochechas de tanto rir...

É a Chris que vai à frente, porque para variar o Chano não se lembra do caminho...
Continua a fazer-me confusão caminhar sem o meu cajado e dou a mão ao Armando e ao Chano. Preciso de sentir um apoio.
Chegamos ao hotel e a Chris e o Armando sobem, enquanto eu e Chano ficamos na sala a conversar e a fumar mais um cigarro. Às 4 não aguento o cansaço e subo também.

Que dia comprido, o de hoje... a manhã em Arzúa parece tão distante... quem diri que hoje estaria aqui...

Estou feliz! Agradeço a Deus por este dia maravilhoso, por estas duas semanas, por esta experiência, por estes amigos e por todas as pessoas que conheci no Caminho. Agradeço-lhe por nunca me ter abandonado, por me ter mostrado a sua presença tantas e tantas vezes.

É engraçado isto. Não fiz o Caminho por motivos religiosos e no entanto senti a presença de Deus o caminho todo... sentia-O ao meu lado, nas montanhas, nos rios, nos pássaros, na chuva e na lama, no sol, nos meus amigos, nos albergues... e pela primeira vez, a frase "Deus está em todo o lado" fez sentido. Muito! Não é na igreja, não é no altar, não é na missa. Foi aqui! Nestes 300km. E agradeço-Lhe por isso. Por se ter manifestado em todas as pequenas coisas. Por me ter ensinado tanto!
Sim, estou feliz!
Muito feliz!