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O meu Caminho de Santiago!

quarta-feira, abril 27, 2005

AIREXE

É difícil graduar o que quer que seja no Caminho, mas Airexe foi tão especial que merece um texto à parte.
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Airexe quer dizer igreja em galego, e portanto esta terrinha deve o seu nome a um templo romano que aqui está.

Chegámos a Airexe por volta das 4 da tarde. Estava um dia lindíssimo e quente. Tínhamos as calças cheias de caca de vaca e de acordo com o meu guia haveria ali uma lavadora e uma secadora. Mas afinal da lavadora só havia o sítio… Teria de lavar à mão.
Pousamos as mochilas no quarto. Hoje há pouca gente e podemos usar a cama de cima para a mochila e a roupa e abrir o saco cama na cama de baixo.
No nosso quarto há um casal (alemão? austríaco?) e uma mochila a ocupar uma cama. No outro pareceu-me haver também 3 pessoas. Escolhemos este porque só neste havia duas camas seguidas para podermos conversar à noite.

Os beliches são de madeira e as camas estão cobertas com uns resguardos de flores. Os dois quartos têm muitas janelas e por isso muita luz. O nosso quarto dá para o campo.
É um albergue muito agradável. Em cada quarto há uma casa de banho e está impecável.
Desarrumo a mochila e vou tomar banho. A água está quase fria e o duche não é grande coisa, mas nem me importo. Estou suada e este banho está a saber-me muito bem.
Na cama ao lado da minha está o nosso amigo espanhol que me devolve a tornozeleira. Pergunto se já não precisa dela e ele diz que não e pergunta se eu quero que a lave. Não, não é preciso. Pergunto-lhe finalmente o nome mas ele diz qualquer coisa que eu não percebo. Explica que é o diminutivo de Sebastian, depois de eu lhe perguntar 20 vezes para repetir… continuo sem perceber, mas não sei dizer “soletra” e tenho vergonha de perguntar mais uma vez. Mais logo peço à Chris que lhe pergunte como se chama. Foi o que fizemos como Eduardo.
Mais limpinha, já com a roupa de dormir e cheirosa de tanto creme, procuro a hospitaleira para lhe perguntar onde posso lavar roupa. É muito simpática e explica-me que há um tanque do outro lado da estrada. Olho para ele. Até lá chegar terei de passar por um monte indescritível de esterco de vaca. Ela percebe os meus pensamentos e diz que posso fazer como os outros peregrinos que estão a lavar roupa no lava-loiça.
É o tal casal. O homem é simpático e engraçado. Faz uma série de piadas. Explico-lhe que há lixívia na casa de banho e mostro-lhe as minhas calças… estão todas manchadas.
Eles acabam de lavar e enxaguar e eu começo a lavar. Lavo só roupa interior, o top porque seca rápido e tento lavar a parte de baixo das pernas das minhas calças. O dia está bonito e há vento, por isso deve secar tudo ainda antes de me ir deitar.
Um táxi pára à porta do Albergue. Estão lá dentro dois homens e um deles sai com duas credenciais na mão. Pede à hospitaleira que lhas carimbe, que o irmão está muito mal dentro do táxi, que não consegue já caminhar.
“Cada um faz o Caminho como pode”, diz ela à Chris, a rir-se, depois de lhe fazer a vontade.
Saio para a rua. Há um patiozinho em frente ao albergue, com uns bancos de pedra e estão lá duas senhoras de mais idade, o casal alemão ou austríaco e o nosso amigo espanhol. Peço à Chris que lhe pergunte o nome mas para meu desespero ela já o fez e também não percebeu. Bom, se tiver de lhe falar, evitarei chamá-lo. É melhor assim.
Tenho de ligar à minha mãe, antes que fique preocupada. Agora só lhe ligo uma vez ao dia e é sempre quando chego ao albergue. Devo estar já com pouco saldo e quero ligar a pagar da cabina que está ao lado do albergue, mas não há ali informações e ninguém sabe como fazer. O nosso amigo pergunta-me se preciso de um telefone, que me empresta o seu. É incrível!
Agradeço, explico que tenho um e ligo dali mesmo à minha mãe.

Sentamo-nos ao sol. Eu deito-me num dos bancos e puxo a joelheira para baixo. O sol deve fazer muito bem ao meu joelho. Aproveito o dia e o calor na cara.
Que maravilha! Que doce esta vida de não fazer nada. Que presente de Deus este sol, este albergue, estas pessoas. Não há palavras para descrever o que sinto neste momento! De novo aquele amor inexplicável…
Passamos ali uma hora e começa a apetecer-me tomar qualquer coisa. O casal alemão janta: duas fatias de pão barrado com queijo-creme, uma rodela de tomate e pimenta. Têm um ar feliz e invejo-os. Estão a caminhar desde Saint-Jean.
Levanto-me do meu banco na intenção de perguntar à Chris se quer vir tomar qualquer coisa e convidar o nosso amigo, mas ele adianta-se e convida-nos. Sim vamos, claro.
Há ali dois cafés. Um em frente ao albergue que tem muito bom ar. É restaurante também e acho que é lá que jantamos. O outro fica quase em frente, por trás do albergue, e tem uma esplanada. Foi ali que o nosso amigo comeu quando chegou e diz que as pessoas são simpáticas. Sentamo-nos ali a tomar umas cervejas e a comer amendoins. Estava com fome e nem me tinha dado conta. Conversamos durante um tempão. A certa altura pergunto-lhe a idade.
“Que idade pensas que tenho?”
É novo, sem dúvida e eu diria que é da minha idade, mas uma vez que já é director financeiro, que tem uma série de negócios próprios, arrisco um “29?”.
“Trinta e cinco!”
Ninguém diria… de facto aqui no Caminho não há idades… é impossível dizer a idade de alguém vestido de peregrino.
Às sete vamos jantar e convidamo-lo. Ele acaba por nos oferecer as cervejas e ficamos meio sem jeito.
Vamos para o outro restaurante e sentamo-nos perto de uma das janelas. Tem uma vista linda sobre o campo e dali vemos as vacas a regressar do pasto.
A empregada que nos serve é amorosa e a comida excelente. Comemos um menu que acompanhamos com vinho, claro. De sobremesa eu como crepes com chocolate e gelado e a Chris a sua tarte Santiago, como não podia deixar de ser.
O nosso amigo diz que quer ir ver as estrelas esta noite, que o céu está limpo, que ali não há luz quase nenhuma e que sendo aquela a última noite que ali está, quer aproveitar. A mim também me agrada a ideia, mas estou com tanto sono que a cama parece muito mais atraente.
Passa pouco das oito horas quando voltamos para o albergue. A Chris sobe mas eu ainda vou até à salinha fumar um cigarro com o nosso amigo. Ele ainda não está habituado a dormir cedo e não tem sono. Está na cozinha uma peregrina que julgo ser alemã. É uma velhota amorosa. Caminha sozinha e deve ter uns 80 anos. Tem ar de avozinha querida que faz bolinhos para os netos. Vem desde França! O rapaz pede-me que lhe diga que ela é muito corajosa. E é mesmo! Despede-se de nós e sobe. Ele pergunta-me se quero ir ver a famosa igreja. Sim. Vamos.
Subo e pergunto à Chris se quer vir. Ela pede desculpa, mas está muito cansada e não quer sair mais.
Levo a lanterna que ali já está tudo a dormir e imagino que precise dela quando voltar. Digo à Chris que eu também estou muito cansada e que vou só espreitar a igreja e venho logo dormir.
Saímos, o rapaz e eu. Está uma noite bonita, mas arrefeceu um pouco e sinto os pés frios. No ar o mesmo cheiro a bosta de vaca. Comento com ele, mas ele diz-me que gosta deste cheiro. Cheira a campo e em Las Palmas não tem disto. Acha o máximo as lareiras e o campo.
A igreja é pequenina. O jardim é cemitério, como todas as igrejas por que passámos até agora, e há ali campas com mais de cem anos e campas com poucos meses. Tentamos entrar, mas está tudo fechado. No mesmo instante chega um carro e sai de lá um senhor maneta. O rapaz pergunta-lhe se podemos ver a igreja e ele diz que normalmente não, que já está fechada a esta hora, mas ele vai pôr lá qualquer coisa e como a vai abrir, podemos espreitar.
Agradeço a Deus. De facto quando lutamos pelos nossos sonhos, todo o universo se alinha em nosso favor. E aqui estamos nós, dois peregrinos em busca de paz, a apreciar esta natureza maravilhosa e a ver esta igreja minúscula mas muito bonita no meio do nada, depois de um dia inteiro de caminhada. Nada podia ser melhor. Sinto-me em paz e feliz. Estou com este rapaz que não conheço de lado nenhum e sinto-me bem com a sua companhia.
Rezo um pouco e saímos. Tentamos dar uma volta pela aldeia mas todos os cães do sítio se juntam a ladrar-nos. Não é que tenhamos medo, mas o passeio ficará muito desagradável e por isso decidimos voltar para o Albergue. Ao chegarmos, decidimos ir até ao café onde tínhamos estado a tomar as cervejas e pedimos uma garrafa de vinho. Enquanto esperamos que o senhor encontre a garrafa mais antiga com o pior vinho de Airexe, conversamos com um outro senhor que está atrás do balcão. Nunca fez o Caminho, mas dá uma série de palpites baseado no que tem visto. É simpático e conta uma série de histórias.
Voltamos para o Albergue e sentamo-nos na salinha a beber o nosso vinho meio azedo e a conversar, enquanto fumamos cigarro atrás de cigarro.
Descubro que é muito parecido comigo e que precisa muito de conversar. De vez em quando digo-lhe algumas coisas, mas vou-me apercebendo de que o que lhe digo serviria para mim também e que talvez esteja a falar mais para mim do que para ele.
Também ele veio para o Caminho pelos mesmos motivos que eu: encontrar respostas a uma série de perguntas, encontrar paz e serenidade e distância. “Sair da bola”, como ele diz. “Sair da realidade”, digo eu.
A hospitaleira bate à porta e entra.
É uma senhora amorosa. Vinha fechar a porta e o rapaz pede-lhe que não a feche já porque ele quer ir ver as estrelas daqui a pouco. Começamos a conversar os três. Agradeço-lhe ser tão simpática e ela diz que não faz nada de especial. Na realidade não faz nada.
“Sorris! E para um peregrino, um sorriso é tudo!”, digo-lhe eu.
Conta-nos uma série de histórias de peregrinos, dos presentes que recebe, das coisas que vai fazendo. Este albergue é de donativo e ela não faz negócio. Não está ali por dinheiro porque o que recebe dali não lhe chega nem para amendoins. Faz por gosto e considera-se ela própria uma peregrina. E é. Tem o espírito do Caminho e nem sequer precisa de fazer a peregrinação.
Finalmente despede-se de nós. Eu dou-lhe um abraço e sinto novamente o aperto no peito que tinha sentido quando me despedi do Eduardo no Cebreiro. Aqui está mais uma boa alma que não voltarei a ver. Mas ainda bem que tenho a oportunidade de conhecer esta gente tão boa!
Eu e o rapaz conversamos mais um pouco mas o meu sono vence e já são 11 da noite quando subo para dormir. Não, não vou ver as estrelas. Já não aguento mais de cansaço.
Deito-me e agradeço a Deus, com todo o meu coração, por este dia magnífico, por estas pessoas, por este albergue.

Ele deita-se logo a seguir.
Durmo quase imediatamente.