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O meu Caminho de Santiago!

sexta-feira, abril 29, 2005

ARZÚA

A hospitaleira pede-nos que esperemos um pouco. Cheira a limpo e tem muito bom aspecto este albergue. Ela volta e indica-nos o caminho até ao quarto. Ali distribui-nos pelas camas: um em cima, dois em baixo. Já lá está um peregrino mal-cheiroso numa das camas de baixo. De resto o quarto está vazio. Tanto o Chano como a Chris preferem ficar em baixo e eu não gosto de camas de cima. Além disso o meu joelho não está em condições de subir e descer escadas. Se o quarto está vazio, posso escolher e escolho também eu uma cama de baixo. A hospitaleira volta com mais duas crianças.
“Então? Eu disse que era uma em cima e duas em baixo!”
“Pois foi, mas nenhum de nós está em condições de subir para uma cama de cima: eu estou mal do joelho e eles os dois dos pés.”
Ela fica mal disposta (não é nada simpática) e diz que a esta altura do campeonato toda a gente tem queixas e que se assim fosse então ninguém ficava com as camas de cima. Eu ainda respingo... o quarto está vazio, eu cheguei primeiro, posso escolher! Mas também posso sair e esperar que a cama de cima esteja ocupada e entrar quando souber que ela me vai atribuir uma cama de baixo...
Fico com a minha caminha e pronto.
O quarto é bonito e está impecavelmente limpo. Tem as janelas todas abertas, as paredes são de pedra e as camas são de madeira e têm umas cobertas com florzinhas miudinhas. É lindo e cheira muito bem. Enfim... nós entretanto descalçamo-nos e o peregrino inglês que lá está tem ar de quem já não toma banho há muito muito tempo. As unhas dele são uma coisa indescritível. O cheiro a detergente rapidamente se mistura com um cheiro menos bom, mas como as janelas estão abertas...
Nós pomos as nossas botas na janela do hall. Estamos com muita fome e preferimos comer antes de tomar banho, até porque entretanto estão a chegar os miúdos todos.

Vamos para um café um pouco abaixo do albergue. Temos fome mas o calor é demais... A Chris e eu pedimos uma salada mista cada uma (na verdade é uma salada de atum) e dividimos uma tortilha de batata. O Chano pede um bocadillo de tortilha, mas para variar, trazem-lhe um pão inteiro. Não admira que estes galegos sejam todos gordos!
Conversamos sobre amanhã. Chano vem connosco outra vez e concorda com o plano: acordar de madrugada para começar a caminhar às 7. Já somos um grupo de 3 e não de 2. Ele brinca e diz que nós os dois levantamo-nos às 6 mas a Chris tem de se levantar às 5.
Eu volto ao meu “amuo”. Ele diz que se explicou mal, que quis dizer que lhe parecia, no início, que a Chris se preocupava muito comigo, mas agora já não sabe. Diz também que estava a brincar quando ontem disse que eu ressonava. Na verdade nunca me ouviu ressonar. Acrescenta que acha muito sexy uma mulher que ressona!!! Credo! O sol fez-lhe mal à moleirinha! Isso ou o Caminho, que tantos quilómetros no meio do mato a ver nada mais que peregrinos, devem ter os seus efeitos na cabeça das pessoas...
Explica que isso e uma barriguinha são o que ele considera mais sexy numa mulher. Gosta de mulheres naturais e não há nada mais natural que ressonar e ter barriga. Digo-lhe então que nesse caso, não há peregrina que não seja sexy porque nada há de mais natural, de menos artificial que a mulher peregrina. É impossível disfarçar o que quer que seja aqui no Caminho. Afinal de contas dormimos juntos, ressonamos, acordamos juntos (para mim nada há de mais íntimo), escovamos juntos os dentes, suamos e cheiramos mal, sofremos e alegramo-nos... partilhamos tudo com toda a gente que nos acompanha, que dorme connosco no albergue, que faz parte do Caminho connosco. Não há como esconder o que quer que seja. Aqui somos levados ao limite. Tudo é levado ao limite. E somos todos o mais naturais que podemos ser.

Acabamos o nosso repasto e nem temos sequer vontade de comer tarte Santiago. O calor dá cabo do nosso apetite. O Chano oferece-nos o almoço e nós combinamos que então lhe ofereceremos o jantar.
(mas acabamos por nos esquecer)

Voltamos para o Albergue e reparamos que estão lá dois grupos de crianças: os bascos, que são os tais 15 que dormiram com os portugueses e que estão no nosso quarto, e os das Canárias que estão “acampados” em colchonetes no que costuma ser a cozinha do albergue.
Da casa de banho, que outrora foi limpa e arrumada, sai uma nuvem de vapor acompanhada de gritaria e gargalhada. São as meninas todas que por lá estão a tomar banho e a deixar tudo num caos.
Tento ir eu também tomar banho mas apesar do cilindro gigantesco, já não há água quente. Prefiro então esperar uma hora ou duas e então subo outra vez para descansar. Dormimos mal e vai saber-nos bem uma sesta.
O Chano escreve no seu diário e a Chris já se deitou depois de ter expulso, a muito custo, os miúdos gordos que estavam sentados na sua cama. Na cama ao lado da da Chris está o peregrino inglês mal-cheiroso e vai conversando com uma das miúdas bascas. Os outros miúdos estão sentados por ali, ao lado da cama da Chris e todos conversam altíssimo, como se nenhuma de nós ali estivesse. Caramba! Em quase todos os albergues há avisos quanto ao sono do peregrino: é sagrado! Em todos os textos que li sobre o Caminho se dizia a mesma coisa: não faça barulho no quarto porque algum peregrino pode querer descansar e o descanso do peregrino é sagrado. Mas estas crianças não compreendem isso. Ponho a venda e os tampões mas eles continuam como se nada fosse. E o que mais me custa é o inglês que é já um homem feito, e alimenta esta excitação toda. Podiam ao menos ir conversar para lá para baixo, ou para o jardim do albergue...
A Chris e eu vamos fazendo schh de vez em quando, mas eles querem lá saber. Ao fim de uma hora a Chris decide levantar-se. Eles acalmam e eu adormeço finalmente.
Dormi quase uma hora e quando acordo a Chris já tomou banho e já está a ver que roupas vai lavar. Ali não há lavadora. As meninas das Canárias lavaram as suas roupas à mão mas nós temos tanta caca que aquilo só vai lá com água quente e máquina de lavar. Além disso, desde O Cebreiro que não lavamos a roupa como deve ser e mesmo aí foi com o champô e o gel de banho da Chris e a coisa não ficou muito bem. Vamos pôr tudo numa lavandaria.
Eu desço também para tomar um banho. Ainda estou meio a dormir, mas acordo rapidamente: a água está gelada!!! Mas não vou esperar mais tempo porque vão chegando mais peregrinos e imagino que a água não volte a aquecer. Vai de fria mesmo. Já não tomo um bom banho de água quente há uns dias. Nem sei quando foi a última vez. Talvez no Cebreiro...

Saímos para a lavandaria, de roupas na mão e à saída encontramos a Cristina. Está no quarto do “velhos”. Ela tem 53 anos e já não é considerada jovem. Por um lado é melhor porque o quarto dos velho é sempre mais sossegado. Mas por outro... a sinfonia de madrugada é sempre muito maior... são os velhos os que mais roncam.

A lavandaria está fechada e nós aproveitamos para fazer os telefonemas do costume. A Cristina liga à família do marido, que a vai buscar a Santiago, que chega na segunda-feira. Quer ir com calma. Amanhã vai até Pedrouzo, no Domingo até ao Monte do Gozo e na segunda chega a Santiago. Está com muitas bolhas e tem muita dificuldade a andar.
Eu ligo à minha mãe que, apesar da resistência do início, está a acompanhar o meu Caminho a par e passo. Sabe sempre onde estou e calcula sempre onde vou chegar no dia seguinte. Diz-me que andamos a subir e a descer. Por acaso andamos, mas acho que não é a isso que se refere. Diz que o tempo amanhã vai ficar pior, que dão chuva e descida da temperatura. Ainda bem, que não aguentarei outro dia com este calor. De facto, nós já passámos por tudo! Nortada, frio, vento forte, chuva torrencial, lama, calor, humidade... tudo! Já não devo precisar do meu poncho, mas estou a dois dias de Santiago. Se já o carreguei até aqui, já não vale a pena estar a mandá-lo para Santiago.
Tenho pena que o Caminho esteja a acabar e já cheira mesmo a fim, a últimos cartuchos.

A lavandaria abre e nós pomos lá as nossas roupas. Vai custar €10, o que é caro, mas não há outra hipótese. É também uma certa vaidade: estou prestes a chegar ao meu destino e quero ter pelo menos uma muda limpa, ou menos suja, para chegar a Santiago.

Damos umas voltas pela cidade. Não podemos cozinhar hoje, porque a cozinha está ocupada com as crianças, mas levamos um vinho para tomar antes do jantar. O albergue tem um patiozinho simpático que me apetece aproveitar. Compramos também coisas para o pequeno-almoço de amanhã. A Cristina também virá connosco e ficaremos os quatro em Pedrouzo. Ou talvez tentemos ir um pouco mais longe, para ficar o mais perto possível de Santiago. Amanhã veremos como corre o Caminho.
A Chris e eu compramos também umas camisetas. São do género do meu top, que na verdade é uma camiseta de cavas. Os próximos dias serão quentes e preciso de dois em vez de um.
Já desisti de procurar o fecho para a minha peiteira. Já fiz quase todo o caminho com o saco plástico ao peito, não vale a pena estar a preocupar-me mais com isso.

Voltamos para o Albergue. Eu vou ao quarto pousar as compras e desço com uma laranja na mão. Tenho fome, mas só me apetecem coisas frescas. Sento-me ao lado do Chano que está ali também. Quem também está ali é a nossa velhota-avózinha de Airexe. Reparo que tem uma deficiência no ombro. Uma marrequinha. É tão querida esta senhora. Não sei como faz... caminha devagar mas chega sempre ao mesmo sítio que nós. E tem um ar super-frágil, mas não deve ser nada! Que coragem! E sempre com aquele sorriso de avózinha querida.

Entretanto chega Armando. Ou melhor, já chegou e já se instalou. Agora desce e senta-se connosco. Está com dores no pescoço e nas costas e Chano explica-lhe como deve apertar e regular a mochila. Ele não sabia nada e chega à conclusão que fez o Caminho quase todo com um sofrimento desnecessário.
Está escaldado no pescoço. Não estava preparado para o calor de hoje. É engraçado e divertido este Armando. Estranho que esteja aqui, pois tinha dito que ia ficar em Ribadiso. Ele explica mas já nem sei porque decidiu continuar. Descansou só um pouco em Ribadiso e decidiu ir até Arzúa.

Ele sai para comer e a Chris e eu vamos buscar as nossas roupas à lavandaria. À saída reparamos num homem estranho que está à porta. Já o tinha visto mais cedo e percebi que era amigo da hospitaleira, ou pelo menos seu conhecido. É velho e tem ar de pedinte, ou maluco. Ou as duas coisas. Traz uma cruz enorme com uma foto. Não percebo se é peregrino embora esteja ali no albergue.
“Estás a ver, Chris, é por isto que temos de ter cuidado no albergue e andar sempre com as nossas coisas. Entram estes malucos, não há vigilância nenhuma e qualquer pessoa entra no quarto e leva o nosso dinheiro.”

Algumas roupas ainda estão húmidas (as minhas, para variar) e têm de ser penduradas. Eu vou para o quarto pousar as nossas roupas e buscar o vinho e os copos que comprámos. A Cristina tinha comprado aperitivos e trá-los também. Quando volto para o patio, a Chris está a conversar com um velhote. Como de costume diz-me:
“Olha só, Joana, ele é belga! Já falei p’ra ele que você fala francês e que vai conversar com ele!”
Rio-me para dentro. A Chris é tão engraçada! “Oferece-me” a toda a gente! Acho tão engraçado!
Parece uma criança! Volto a pensar no que o Chano disse. Eu é que me sinto a adulta da “relação”. Acho o máximo!
Dou-me conta de que, acabado o Caminho, volto a estar sem a Chris e sinto um nó no estômago. Durante estes dias, criei a ilusão de que nunca mais me iria separar dela.
Vem-me à ideia o nosso almoço de despedida em Coimbra, quando imaginei que nunca mais a iria ver. Era tudo tão diferente! A Chris parece-me outra pessoa. Em Coimbra tão mais velha que eu, aqui tão mais nova... Às vezes, como agora ou sempre que se ri, parece-me mesmo mais nova que eu. Ela é mesmo muito engraçada.

Estendo as nossas roupas húmidas e volto para o sítio onde ela está com o velhote, com quem começo a conversar. Pergunta-me o que tenho no joelho (desta vez é bem visível porque estou de calções e joelheira). Como não sei dizer tendinite em francês uso a palavra espanhola. Há expressões que toda a gente compreende aqui, mesmo que não fale uma palavra de espanhol: tendinitis, ampollas, hasta luego, buen camino, agua caliente e calefacción. É a linguagem do Caminho e faz parte da sobrevivência de qualquer peregrino.
O senhor, que se chama Paul, pergunta-me então se eu quero que me ajude, se pode fazer uma coisa. Não magoa, explica ele, e talvez me ajude.
Claro que sim! Toda a ajuda é bem vinda!
Diz que é magnetizador e que gosta muito de fazer isto. Começa a sua sessão, muito parecida à que Jésus fez em Villafranca.
Primeiro “desbloqueia” o caminho. Diz-me que tenho problemas no fundo das costas, pergunta se me dói. Digo que não. Ele guina a cabeça, como quem diz “como queiras... talvez seja”. Volta a passar as mãos pelas costas (sempre sem me tocar) e repete o mesmo.
“Não, não! Tem dores aqui!”
“Asseguro-lhe que não!”
“Sim, sim. Tem um mal qualquer... tem problemas afectivos.”
“Sim”, digo timidamente com um meio sorriso. Mas imediatamente penso “que os não tem???”
Ele continua. Diz que problemas com joelhos reflectem medo da morte. Mais uma vez tenho de lhe dizer que não. Chateia-me isto, porque dá a sensação que não estou a levar a sério, que não estou a acreditar nele e eu quero acreditar, eu estou receptiva a tudo isto. Explico que da minha morte não tenho medo algum, mas sim das pessoas que amo.
Continua a sessão, com uma série de perguntas. Uma delas é o que quero mais numa palavra. Força, digo eu.
Ouço chegar um casal muito barulhento que cumprimenta a Cristina com uma grande festa.
A sessão termina e Paul diz-me que terei de contar 3 dias a partir de hoje. Ao terceiro dia terei de pôr a minha mão sobre o meu joelho e pensar numa palavra, na palavra que quero para o meu joelho. A partir daí, sempre que tiver dores, só terei de repetir o mesmo.
Agradeço e continuamos a conversar enquanto bebemos o vinho.


Armando volta, furioso. Tinha ido comer e esperou 10 minutos. No café onde estava o empregado não o via! Desistiu e irá comer connosco.
A Chris diz-me que o casal que chegou, ruidoso, é o tal que armou discussão num albergue com a hospitaleira. A Cristina tinha-nos contado isso. Num albergue, já não sei onde, ela acordou com uma gritaria sem sentido. Era o peregrino que discutia com a hospitaleira.
Conversamos com Paul. Ele fez o Caminho do Norte que é o mais difícil. Durante todo o seu Caminho apenas encontrou um casal dinamarquês. O Caminho estava vazio. Hoje, o Caminho do Norte encontra o Caminho Francês e de repente ele está num albergue com montes de gente. Faz-lhe tudo muita confusão. Diz também que só vai chegar a Santiago na segunda feira porque só aí estará preparado para voltar para o mundo.
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São sete horas e decidimos ir jantar. Convidamos o Paul que nos diz que está á espera dos seus amigos dinamarqueses.

O nosso grupo está agora maior: a Chris, eu, o Chano, a Cristina e o Armando.
No restaurante está o inglês malcheiroso e convidamo-lo para a nossa mesa.
Eu vou à casa-de-banho e quando volto é a mesma conversa: quem fala inglês? A Joana! Lá terei eu de fazer conversa com o inglês.
Tem 30 anos, começou o Caminho em Saint-Jean e daqui por um ano será advogado... para não variar.
O César, um dos portugueses, também está a uma cadeira de acabar o curso de Direito e depois disso fará o estágio... advogados, juristas, futuros advogados... o Direito deve dar a volta à cabeça de muita gente...
O jantar é divertido, como sempre e é de facto uma maravilha estar aqui.
Armando comprou um lencinho de seda branco para pôr ao pescoço e rimos imenso com ele. É divertidíssimo. Alinha também no nosso plano: amanhã seremos cinco! Caminharemos o mais que pudermos, ficaremos num hostal algures entre Pedrouzo e Santiago e Domingo acordaremos cedo outra vez e estaremos na missa ao meio dia já com as nossas compostelanas.
Continua a conversa típica do peregrino e eu e Armando discutimos pomadas. Eu acho que as minhas são as melhores, ele acha que são as dele.
“E pernas cansadas? Eu tenho uma de hortelã e...(???)”
“Arnica? É que eu também tenho uma de hortelã e arnica para as pernas cansadas!”
“Não, não é arnica. E cheira bem? A minha tem um cheiro...”
Rimos. Isto de facto é de doidos mas de que mais havemos de falar?
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Entretanto chegaram vários peregrinos para jantar. Na mesa ao lado da nossa estão três. Um com um ar deplorável de mendigo que já tinha encontrado algures... julgo que no café de Gonzar. Viaja com um cão sarnento. Com ele está o tal casal barulhento. Ele chama-se Fernando ou qualquer coisa parecida. Tem ar de porco mas de facto tem uma presença incrível. Ele sozinho enche a sala. Tem uma voz cavernosa. A namorada tem um ar limpinho. É inglesa. Diz-me o inglês que eles são uma “pareja del camino”. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa.
“É impressionante a quantidade de pessoas que se conhecem e apaixonam no Caminho, não é?”, diz-me ele. “A sério? Nunca me apercebi. Nem sequer sabia que isso acontecia.”
É verdade pelos vistos. Parece que é mais comum do que se pensa. Eu confesso que sempre achei que este Caminho seria uma coisa tão espiritual, tão mais acima, que não haveria espaço para paixões e amores... mas talvez seja mesmo por isso... tanta espiritualidade faz com que as pessoas estejam mais disponíveis para o amor talvez.

Saímos para tomar um café e não paramos de rir. Armando é de facto divertidíssimo e com o seu pañuelo fica demais...
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Continua a risota no café... estou já com dores na cara...
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Voltamos a discutir a etapa de amanhã e Armando recebe um telefonema da cunhada. Ela já fez o Caminho e diz que a partir de agora acabaram as subidas e descidas. O Caminho é quase todo plano, por asfalto e faz-se muito bem. É fácil, portanto, estaremos todos muito bem acompanhados uns dos outros.

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Finalmente recolhemos. Amanhã eu acordarei a Cristina e o Armando ("vais reconhecer-me pelo pañuelo") e seguimos os cinco.
Está um fedor no quarto que não se pode!!! Os monitores dos miúdos são gordos e fedorentos e nenhum deixou as botas lá fora! Todos conversam alto apesar de alguns peregrinos já estarem deitados. Está aqui o casal austríaco que encontramos em Airexe e como é natural, já estão deitados a tentar dormir.
O Armando chama-nos e senta-se no chão ao lado da cama da Chris. Traz todas as suas pomadas e cremes e ali fica a mostrá-las. Eu vou buscar as minhas e ali passamos uns 15 minutos a experimentar todas, a trocar impressões e a rir que nem malucos! Parece que estamos numa prova de vinhos!
Deitamo-nos finalmente, mas além da barulheira, não temos sono.
O Chano vem para a minha cama mostrar-me as suas fotos. Tem lá algumas de Las Palmas e faz-me uma certa confusão vê-las. É a prova de que ele tem uma vida, de que nós todos temos uma vida, de que eu tenho uma vida e que ela está à minha espera... na próxima semana acabou o Caminho...
Uma das fotos é do seu aniversário que foi há pouco tempo. As velas confirmam os 35 anos! Não parece nada!
Ele volta para a sua cama e quer conversar. Pede-me que lhe conte como são os meus dias. Mais uma vez obriga-me a lembrar que tenho uma vida e que não é esta. Digo-lhe que os meus dias são todos diferentes mas explico-lhe mais ou menos o que será um dia normal desde que acordo até que me deito.
Pede-me depois para lhe falar da minha ideias de negócio. Eu tinha-lhe dito que tinha algumas e começo a contar-lhas. Ele vai dando umas dicas: faz isto, não faças aquilo...
Finalmente despedimo-nos e eu ponho a minha venda e os meus tampões. O miúdo que está por cima de mim não pára de se mexer e a cama abana toda. Salta e volta a subir para a cama e a confusão é geral. Chegam os monitores e eu penso que vão pôr ordem naquilo, mas afinal fazem ainda pior... falam como se não houvesse ali mais ninguém a não ser os miúdos! Todos conversam apesar dos insistentes shhhh de toda a gente.
Demoro muito para adormecer.
De repente volto a ouvir uma chinfrineira bestial. Tenho a sensação que tinha acabado de adormecer...
Continuo a ouvir barulho e começo eu a fazer shhh. A Chris dá-me um toque no ombro e eu tiro a venda.
“Shh! Joana, tá havendo uma discussão ali! Não fala nada!”
O inglês acorda também e salta da cama. Alguém acendeu a luz e conseguimos ver o que se passa.
Há um homem no chão, sentado, e o espanhol barulhento, Fernando (?), grita com ele.
O que está no chão é o velho da cruz.
“Agarra a tua cruz e pira-te! Pira-te daqui, já to disse! Pira-te ou atiro-te pela janela! É lixo! E lixo como tu merece dormir na rua! Vai para a rua! Pira-te!!!”
Continua nesta lenga-lenga, que te pires, que agarres na tua cruz e vás para a rua, que te atiro da janela, as mulheres há que respeitá-las, patati patatá. A voz cavernosa assusta e ele grita a plenos pulmões. O inglês tentou acalmá-lo e levou uma sapatada. O velho da cruz levanta-se e o outro continua a empurrá-lo e a gritar. Tenta voltar para a cama mas o outro empurra-o e grita mais. Percebe-se que o velho fez alguma coisa à namorada do outro, mas não me parece que haja motivo para tanta algazarra.
Finalmente o velho pega na cruz e sai para a rua. Apaga-se a luz outra vez e todos se deitam. Mas de repente ouve-se a voz cavernosa outra vez.
“Pira-teeeee!!!! Já te disse! Atiro-te pela janela!!! Sai daqui!”
O velho tinha voltado. Talvez se tivesse esquecido de alguma coisa, mas se assim foi, azar... já perdeu o direito a ela.
Tudo se acalma outra vez e eu volto a pôr a minha venda e os tampões. Não percebi o que se passou, e penso no velho. Coitado, onde estará a dormir?
Olho para as horas: meia-noite.