Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

quarta-feira, abril 20, 2005

1º Dia de Caminho: Leon- Villar de Mazarife = 20,7 km

Acordo no Albergue das monjas e não vejo ninguém ao meu lado. Já está tudo acordado e levantado, a Chris já está vestida. Diz-me que são oito menos vinte... Lembro-me que ontem o senhor disse que tínhamos de sair até às 8!
Dou um salto da cama, visto-me em dois minutos, lavo os dentes e a cara, ponho pó-de talco nos pés e arrumo a mochila. às 8 horas estou a tomar um pequeno almoço de bolacha maria com manteiga e café com leite.
Este albergue é de donativo e ponho 5 euros na caixinha.
Compramos uma vieira cada uma, para pregar na mochila, eu compro um guia (em Portugal não havia nem um), tiramos umas fotos com a monja e o senhor e fazemo-nos ao caminho depois de um pequeno aquecimento...
Benzo-me e peço a Deus que nos acompanhe e nos ajude neste primeiro dia.
Está um frio de rachar, mas começamos logo a aquecer e eu tiro o meu poncho. Prendo-o na mochila, do lado de fora, na alça, porque dá muito trabalho estar a pô-lo lá dentro.
Está tanto frio que vesti os dois pares de calças, um por cima do outro, o top, a t-shirt de manga comprida, a sweat e o impermeável. Ainda pus o cachecol também.
Prendo a peiteira da mochila com um lenço que trouxe para a cabeça. Ai as minhas costas...
Em Leon perdemo-nos porque a saída está muito mal sinalizada. Devíamos seguir umas vieiras no chão que entretanto desapareceram. Damos algumas voltas e perguntamos onde está o caminho de Santiago. Finalmente encontramos.
Dizem-nos que Trobajo del Camino é logo ali à frente.
O trajecto é sempre por ruas. Não era isto que imaginava...
A minha bota faz uma dobra chata e magoa-me o pé... estou mesmo a ver que vou ficar com uma bolha aqui.
Passamos Trobajo del Camino e segue-se uma zona industrial horrorosa. Não me sinto nada confortável com o caminho.
Encontramos umas casas curiosa: é um monte com uma porta e uma chaminé. As casas estão metidas no monte.
Há uma subida grande. Começamos a comer as castanhas do marão que eu trouxe.
Chegamos a Virgen del Camino pelas 10 da manhã. Andámos 7 km. Não foi difícil, mas as minhas costas doem muito.
Entramos na basílica e peço ajuda a Deus. Agradeço-lhe mais uma vez.
Espero pela Chris cá fora, enquanto tiro os sapatos e as meias e deixo os pés secarem um pouco. Aproveito para mandar sms a dizer que estou bem e ligar à minha mãe.
Renovo o pó de talco dos pés e calço-me.
Entramos na loja de recordações e compramos os nossos cajados.
Aqui em Virgen del Camino, há uma bifurcação: um caminho mais fácil que vai pela carretera e que todos os peregrinos seguem e outro, que segundo tinhamos lido é menos usado, porque mais difícil, mas mais bonito porque segue pelo campo.
Tomamos este.
Somos as únicas peregrinas. Vemos um vutlo lá ao fundo.
A paisagem é monótona. É tudo plano. O vulto mantém-se lá ao fundo e nem se percebe se é alguém a andar ou se é alguma coisa, ou uma árvore, ou um animal.
Este caminho é psicologicamente muito cansativo.
Passamos por uma aldeia que parece tirada de um filme: não se vê ninguém e as casas têm ar de abandono. Chama-se Fresno del Camino. Começo a ficar desiludida com o caminho. Não era nada disto que eu imaginava...
Caminhamos mais um pouco e encontramos mais uma aldeia: Oncina de la Valdoncina. Mais uma vez não se vê vivalma. Paramos um pouco, a Chris come qualquer coisa e eu ponho a outra joelheira (já trazia a do joelho esquerdo), porque o joelho direito começa a doer. E as costas...
Continuamos. À saída da aldeia está uma fonte onde enchemos as nossas garrafas. Dou-me conta de que ainda não bebi água nenhuma!
Está um frio de rachar... o vento é forte e cortante. Doem-me as mãos mas não sei onde estão as minhas luvas.
Caminhamos caladas, lado a lado.
Penso que este Caminho simboliza a vida e que embora caminhemos afastadas (cada uma no seu lado do caminho que é largo), caminhamos no mesmo sentido. Apenas escolhemos o caminho mais cómodo para cada uma, mas estamos em sintonia.
Estamos a quase 6 km da próxima aldeia e a paisagem mantém-se... Lá ao fundo o tal vulto. Olho para a Chris que está com ar de sofrimento e quase ao mesmo tempo sugerimos sentar-nos um pouco a descansar...
A mochila pesa demais... preciso aliviar um pouco. Sento-me meio triste... está frio e eu cheia de dores nas costas... terei feito bem? Tenho a certeza que é só uma questão de hábito, que amanhã ou depois já estarei habituada à mochila. Penso que não posso desanimar assim. Apesar de tudo, estou feliz com a minha decisão. É só uma questão de hábito. O caminho e eu aida não somos um só. Ainda é um estranho para mim e é isso que me deixa desconfortável.
Retomamos o caminho.
Chegamos finalmente, estoiradas e famintas, a Chozas de Abajo onde vamos almoçar.
Para variar é mais uma cidade fantasma e não encontramos o bar onde vamos comer.
Vemos um homem entrar no ayuntamiento e seguimo-lo. Assim que entramos lá o homem desapareceu e não se vê nem ouve ninguém! Que raio se passa nesta terra que não tem gente???
Saio para a rua para perceber onde fica o café de que fala o meu guia. A Chris continua por lá. Sai para a rua a dizer que encontrou gente e que lhe explicaram onde é.
Chegadas lá encontramos a senhora que estava a dormir na cama ao lado da minha no albergue. Já deve ter mais de 60 anos. Era ela o vulto que víamos. Está a beber um café e a fumar um cigarro.
Apetecia-me uma sopa para aquecer mas só há ali bocadillos... Peço um de tortilah francesa (que é omelete, como venho a descobrir) e um café com leite. Mandam-me um pão inteiro, enorme. Tiro metade e como o ovo.
A casa de banho não funciona e a mulher não me deixa ir à dos homens. Não vou à casa de banho desde que saímos do albergue, de manhã. E são agora quase 3 da tarde.
Ali mesmo, no café, descalçamos os sapatos e as peúgas e tratamos dos pés: mais pó de talco.
Aquecemos e retomamos o caminho.
O frio aumenta porque aumenta o vento. É tão forte que quase não conseguimos caminhar. Mas só nos faltam 4 km de caminho.
Decidimos ficar por Villar de Mazarife nesta primeira noite. São 20 km e para primeiro dia não está mal.
De acordo com o meu guia não há albergue aqui mas apenas um piso que é mantido pelos habitantes da aldeia e que não tem água quente. Tem vários restaurantes onde se pode jantar. Ainda pomos a hipótese de caminhar mais um pouco e tentar uma outra aldeia do caminho da carretera, mas desistimo s da ideia. Estamos muito cansadas e convém não abusar. Que seja água fria. Pelo menos vamos poder jantar bem.
Villar de Mazarife aparece às 4 horas e o caminho dá-nos a primeira alegria: chegámos! A primeira etapa está feita! Caminhámos quase 21 km!
Tem um mural bonito à entrada e vários anúncios de albergues privados com calefacção, água quente, pequeno almoço e internet. Conto 3 pelo menos.
Ficamos logo no primeiro que tem bom aspecto.
San Antonio de Pádua
Entramos só para ver como é e ficamos deslumbradas.
São 5 euros, tem uma cozinha janota, um espaçço muito agradável para comer e outro grande para dormir.
Está impecavelmente limpo e quente.
É agradável e ficamos aqui. O pequeno almoço é pago á parte (3 euros) e nós decidimos não o tomar.
A hospitaleira é nova e diz-nos que a que está a chegar é brasileira. É mesmo ali que ficamos. Ainda por cima ainda não chegaram peregrinos. Temos o albergue por nossa conta.
Pousamos as mochilas, descansamos e saímos logo paa comprar jantar. Vamos cozinhar ali.
Está tudo fechado ainda (é hora da siesta) e por isso entramos num café. Eu bebo um copo de vinho, a Chris um café com leite.Ali o pequeno almoço custa dois euros e meio e é igual ao do albergue. Digo à Chris que podemos tomá-lo ali.
São 5 horas e saímos para a mercearia. Há duas. Compramos feijoada e arroz. E uma garrafa de vinho.
De regresso ao albergue encontramos a Fabiana, a hospitaleira brasileira. É bem simpática. Fez o caminho em 2003 e agora decidiu voltar para ali. Ao passar por Villar de Mazarife percebeu que precisavam de uma hospitaleira e ficou ali como voluntária.
Tomamos uma bom banho, reconfortante e demorado, lavamos alguma roupa à mão e pomo-la a secar nos inúmeros aquecedores.
O neu joelho direito começou a doer. Massajo os pés e os joelhos com a pomada das tendinites, a barriga das pernas com o álcool canforado e tento descansar um pouco.
Preparamos o jantar e ficamos a conversar com a Fabiana.
Decidimos a etapa de amanhã: Santibañez de Valdeiglesias, mesmo antes de uma subida.
No fim, lavamos a louça e vamos à internet antes de dormir.

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Villar de Mazarife

O Início- Leon
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