Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

quinta-feira, abril 21, 2005

2.º Dia de Caminho: Villar de Mazarife- Santibañez de Valdeiglesias= 19,2 km

Acordamos às 7h30 com o sol a entrar pelas inúmeras janelas.
Está um dia lindo e agora com sol, Villar de Mazarife parece-me lindíssima!
Desço para fazer um café. Ontem comprámos umas saquetas de nescafé e estou mesmo a precisar de um café forte. Ainda não me desabituei deles.
Aproveito a calma e a beleza do dia que está só a começar e deixo-me ficar ali na cozinha, sozinha, enquanto bebo o meu café e fumo um cigarro.
Estou muito feliz por estar aqui e ainda nem acredito que já estou a fazer o caminho.
Subo e vou à casa de banho enquanto a Chris está a dormir. Tenho sempre muitos complexos e prefiro o silêncio e a certeza de que ninguém vai entrar na casa de banho.
Acordo a Chris.
Tínhamos decidido ontem não tomar o pequeno-almoço no Albergue (€3 por churros com chocolate quente) e sim no Albergue Tio Pepe que só nos leva €2 pelo mesmo.
Tomamos um bom banho (não sabemos quando vamos encontrar um duche assim) e começa a preparação: cremes, talcos, meias, aquecimento.
Demoramos uma hora a arranjar-nos.
Saimos finalmente às 8h30, esfomeadas. Eu só pensava nos churros e no chocolate quente. Está um frio bestial e preciso mesmo de qualquer coisa reconfortante.
O Tio Pepe está fechado!!!
O café da frente está fechado!!!
Está tudo fechado!!!
Lembramo-nos que há uma padaria e vamos lá bater à porta. Estava fechada ainda, mas abrem-nos a porta para nos vender uns folhados. Eu compro de chocolate, a Chris de maçã. Os dela têm bolor...
Sentamo-nos na estrada a comer e acho que é o melhor pequeno-almoço da minha vida. Como-os todos e aproveito o saquinho para atar a peiteira da minha mochila. Como ontem estava muito vento, hoje uso o lenço na cabeça, por baixo do chapéu, para me proteger os ouvidos.
O dia está lindíssimo mas incrivelmente frio. O vento é cortante!
Fazemo-nos à estrada. E é mesmo estrada. O caminho continua monótono. Sempre plano, agora por estrada com carros a passar de vez em quando.
Lá ao fundo vê-se uma aldeia mas por mais que andemos nunca mais lá chegamos. Parece que se move para diante à mesma velocidade que nós.
Pelo menos é fácil... não há subidas nem descidas, mas não era assim que eu tinha imaginado o Caminho.
Ao fim de meia hora começo a sentir outra vez dores no meu joelho direito, apesar de ter posto a joelheira. Algo me diz que é uma tendinite a começar... começo a reconhecer dores de tendinites... Ontem massagei-o com a pomada, mas pelo sim pelo não, tomo um anti-inflamatório. Se for tendinite, mais vale atacar já.
à medida que vamos andando a dor vai passando.
Falo com a Chris sobre o meu trabalho de pós-graduação, o meu tema que servirá também para a agregação. No fundo é só uma forma de nos distrairmos. Mas falar cansa e por isso calamo-nos.
Chegamos a um cruzamento e paramos. Devemos ter andado uns 5 km. Lembro-me do que li antes de vir para cá: há que parar de hora a hora, tirar os sapatos e as meias, descansar um pouco e tratar dos pés. Está demasiado frio para tirar os sapatos e as meias e por isso sento-me só a fumar um cigarro. Perguntamos a uns agricultores que aldeias são aquelas que vemos à nossa esquerda e à nossa direita. Já não me lembro quais eram. Faltam 3 km para Villavante, onde tencionamos parar. Isso quer dizer que já andámos 7 km.
Mais animadas retomamos o passo.
Passamos por uns riachos e a paisagem começa a ser um bocadinho mais bonita. Mas há muitas pedras e por vezes temos de nos afastar uma da outra.
Vamos o caminho todo caladas.
Às 11h chegamos finalmente a Villavante. Paramos para tomar um café. Estamos que nem podemos. Ali encontramos a senhora que já tínhamos encontrado em Leon e em Chozas e começamos a falar com ela.
Tem uns 60 anos, mas muito bom ar. É holandesa. Diz que é a segunda vez que faz o Caminho. Da primeira foi de Saint-Jean-Pied-de-Port até Finisterra. Desta vez não quer ir a Finisterra porque diz que é feio. Tenciona chegar a Santiago dia 3 de Maio, porque, segundo ela, é muito lenta e só faz 20 km por dia. Pergunto-lhe de onde saiu e quando começou. Fico pasmada: saiu da Holanda, de casa dela, há 3 meses!!! Está há 3 meses a caminhar!!!
Hoje vai dormir no mesmo albergue que nós. Diz que se sobe muito até Astorga e que deposi deste vento é melhor pararmos em Santibañez. Fico contente: estamos umas entendidas no assunto!
Ela sai e nós também não demoramos muito mais.
É incrível como esta paragem nos fez bem. Estamos muito mais bem-dispostas, com mais energia e rapidamente chegamos a Hospital de Órbigo onde vamos almoçar. Estão quase 15 km feitos. Restam-nos pouco mais de 4.
A holandesa tinha-nos dito onde almoçar, mas entretanto esquecemos.
Perguntamos a um senhor que vai a passar e diz-nos para irmos ao Los Angeles.
Hospital de Órbigo é muito bonita. Logo depois está Puente de Órbigo. As duas estão ligadas por uma ponte lindíssima. Enorme para o rio que tem por baixo, e com uma história de contos-de-fadas.
Tiramos muitas fotos e vamos comer. Estamos esfomeadas.
Pedimos o menu peregrino e enquanto esperamos pela comida, eu vou ao supermercado buscar o jantar para cozinhar porque em Santibañez não há restaurante.
Comemos muito bem: esparguete de entrada, trutas fritas com batata frita de segundo, salada de frutas de sobremesa, pão e vinho. Tudo por €7.
Estamos demasiado pesadas para caminhar e decidimos descansar um pouco, tirar os sapatos e tratar dos pés.
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A cidade é muito bonita e nós ficamos semi-deitadas nos bancos da praça a conversar. Só nos faltam 4 km para que o dia acabe e por isso não há razão para ter pressa.
Pedimos a um peregrino que nos tire uma foto
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e como entretanto o supermercado reabriu vamos até lá.
No caminho encontramos um senhor belga que vive ali seis meses por ano. É muito simpático, fala espanhol e português e conta-nos um pouco da sua vida. Nunca fez o caminho mas descobriu aquela terra porque num Verão foi com a família toda (mulher e 3 filhas) fazer um longo passeio de mota pela Europa. Ele numa 2,5, a mulher numa 125 as filhas em 50's. Que aventura!
Descobriu Hospital e ali ficou porque se apaixonou.

Retomamos o caminho.
De acordo com o meu guia há em Santibañez um único albergue. É paroquial mas tem aquecimento, máquina de lavar e secar roupa e banho quente. Preciso mesmo lavar esta roupa que já está a ser usada há dois dias!
O tempo aquece e começamos a transpirar.
Começa a haver alguma mudança na paisagem e la´ao fundo já se vê mais verde e um montezinho.
O caminho fica mais bonito mas também mais difícil. Começamos a subir por uma vereda e então sim, fico muito muito feliz!!! Este sim era o caminho que eu imaginava!
Chegamos ao Albergue de Santibañez de Valdeiglesias e a desilusão é total.
Já tinha comentado com a Chris que estávamos a ficar mal habituadas... nos dois primeiros dias tínhamos tido bons albergues e tínhamos de ter consciência de que nem todos seriam assim.
A Hospitaleira é uma velha de roupão (como todas as senhoras que vimos até agora... deve ser moda) e gorro na cabeça. Uma velha espanhola que só grita com a neta que está em frente ao computador a jogar e a dizer palavrões.
Cobra-nos €4 apesar de no meu guia se dizer que este é um albergue de donativo.
Pergunatmos se tem máquina de lavar. Não tem, mas podíamos lavar roupa à mão e secá-la... se houvesse água.
"Por agora não têm água nem para tomar banho!!!"
O QUÊ???????
Não há água... e logo hoje que chegámos transpiradas...
"Estão a arranjar uns canos que se estropiaram com o gelo e não temos água."
"Mas pode chegar hoje?"
"Acho que sim".
Mostra-nos os quartos. São uma porcaria e estão cheios. Não há aquecimento.
Desoladas, pousamos as nossas coisas no quarto que nos parece menos mau. Já lá está alguém e temos de ocupar as camas de cima.
O albergue até nem seria mau de todo... tem um jardinzinho agradável...
Perguntamos se podemos cozinhar e ela diz que não há gaz... Depois explica qualquer coisa incompreensível sobre o padre e o gaz e nós vamos embora.
À porta está um cartaz que diz "o turista exige, o peregrino agradece... se fores turista continua o teu caminho".
Começo a perceber porquê...
Descalçamos as botas, tiramos as meias, enfiamos os chinelos e saímos para ver a aldeia. Devem ser umas 5 da tarde. Encontramos uma fonte onde refrescamos os pés e sentamo-nos num banco para que sequem.
A holandesa anda por ali toda contente, cheia de pica. Nós estamos mortas de cansaço, cheias de dores nos pés e nas pernas, apesar de aquecermos sempre antes de nos fazermos à estrada.
Comento isso com a Chris e digo que a holandesa (não sabemos o nome dela) fica assim porque passa o dia inteiro sozinha a caminhar. É a única altura do dia em que está com pessoas e por isso fica eléctrica... e depois de 3 meses a caminhar não há cansaço que a vença.
Não sabemos como vamos fazer... Não há água, não há gaz, não há nenhum sítio onde comer ali...
Depois de um dia tão bom, fico triste.
Fiacmos ali por mais um pouco e voltamos para o albergue. A holandesa e um senhor (da idade dela) que passou por nós esta manhã à hora do "pequeno-almoço" estão a jantar uma sopa. Pergunatmos mais uma vez se podemos cozinhar e a velha vem outra vez com a história do padre e do gaz e "quando acabar a missa..."
A holandesa pergunta-lhe se não podemos comer daquela comida e nós explicamos que temos a nossa. A velha diz que depois da missa... não percebemos. Faz-me espécie... se não há água nem gaz como é que ela cozinhou??? Uma sopa ainda por cima???
Comento com a Chris que a velha está a tentar financiar-se com os peregrinos. O Albergue é de donativo e não de preço fixo, e não é possível que não haja água nem gaz.
Voltamos para o quarto desoladas.
A missa vai começar e as senhoras que estão por baixo de nós estão eufóricas. Felizes da vida! Vão à missa.
Digo á Chris que vamos cozinhar e é já. E se não puder ser, pelo menos comemos o pão que temos com o atum que comprámos. São 7 da tarde e estou esfomeada.
Saíram todos menos a velha que finalmente nos deixa cozinhar. Afinal há gaz...
Ela adora a Chris porque é brasileira e a velha gosta muito do Brasil.
Comemos uns hamburgueres grelhados com umas pastas Knorr. Parecem-me a melhor comida do mundo!
Lavamos a loiça e a água começa a aparecer.
Voltamos para o quarto e as finlandesas que dormem por baixo de nós regressam da missa. São 8 da noite e vão-se já deitar porque está frio. De facto está um gelo... Mas eu estou demasiado cheia e demasiado triste para me deitar já.
Saio para a sala, onde a holandesa e o outro senhor conversam animadamente. Há caso ali a despontar...
Escrevo no diário.
Penso que devo dar graças a Deus porque, apesar das dores nos pés e nas pernas, ainda não tenho bolhas, ao contrário da Chris. Hoje apareceu-lhe uma.
Amanhã vamos para Astorga e planeamos almoçar lá. São 12 km de subida e acabam de me dizer que está ainda mais frio por ali, que talvez apanhemos neve!!!
Não posso tomar banho e nem sei como vou dormir. Só tenho a roupa do corpo e está toda suada.
Amanhã ainda não vou poder lavá-la porque no sítio onde vamos dormir não há máquinas, o que quer dizer que são mais dois dias com esta roupa suja e desconfortável. Acho que acabo por me habituar...
Apesar de tudo estou muito feliz por estar aqui. De vez em quando, quando caminho, sinto uma alegria enorme!!!
Preciso de ia à casa de banho, mas sem água...
São 9 horas e já está tudo deitado. Eu devia fazer o mesmo porque amanhã tencionamos acordar bem cedo.
Estou também a gastar mais dinheiro do que planeava.
(consulto o meu guia)

Estive a fazer contas e o melhor é dormirmos amanhã em Santa Catalina de Somoza. Serão 22 km. A holandesa diz que em El Ganso não há casa de banho por isso, ou ficamos em Santa Catalina ou vamos até Rabanal del Camino que parece muito bom. Mas nesse caso são mais 12 km, ou seja, 34 km no total, o que me parece muito.

Plano:
6ª feira: Santibañez a Santa Catalina= 22km
Sábado: Sta Catalina a El Acebo=29km
Domingo: El Acebo a Ponferrada= 16 km ou
El Acebo a Cacabelos= 32 km!!! Não há albergue entre eles, mas agora vou passar a decidir as etapas em função dos albergues!!!

Ligo à minha mãe que percebe que estou triste. Digo que não, que é cansaço. No fundo estou feliz. Isto é só um contratempo para o qual eu devia estar preparada... Já sabia que ia ser assim. Imaginava que ia ter maus albergues...
Tudo tem uma razão e Deus sabe o que faz. O dia de hoje foi bom, já apareceu o sol. O dia de ontem foi mau e frio e por isso precisávamos de uma recompensa... além disso foi o primeiro dia e precisávamos mesmo de um miminho. Mais: estávamos preparadas para dormir num albergue de água fria e Deus deu-nos um albergue de 5 estrela.
Hoje tivémos um bom dia, depois de uma boa noite e já vínhamos a contar com um bom albergue... Deus deu-nos este para que saibamos dar valor ao próximo.

Deitei-me por volta das 10 mas só depois das onze consegui dormir. A almofada cheirava mal e eu também, apesar de me ter besuntado com inúmeros cremes, depois de ter passado toalhitas pelo corpo tod. O sino da igreja acorda-me de quarto em quarto de hora.