Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

sexta-feira, abril 22, 2005

3.º Dia de Caminho: Santibañez de Valdeiglesias - Santa Catalina de Somoza= 20,8km

Levantámo-nos às 7h30 porque toda a gente acordou e era impossível dormir mais.
Já há água mas ainda é fria... a velha diz que ainda não tem pressão para puxar o gaz. A holandesa também acha que é manha da velha.
A noite foi mal dormida: muito frio (acabei por dormir com o poncho mais uma vez), a almofada cheirava mal, eu também e sentia-me suja, o sino da igreja tocava de quarto em quarto de hora...
Estou cheia de vontade de ir à casa de banho mas não há água nem papel e a casa de banho está imunda. Pior... chegou a visita mensal... e EU SEM ÁGUAAAAAAAA!!!
Tento lavar-me com as toalhitas mas sinto-me porca na mesma. Miserável mesmo...
Há no quintal uma torneira (uma única) e decido lavar-me mesmo assim. Encontro um alguidar pendurado, encho-o de água fria e entro nos duches. Levo umas cuecas e lavo-me.
Sinto-me lindamente agora! A diferença que isto faz!
Aproveito o facto de o soutien ser cor-de-laranja e só de calças vestidas e soutien, lavo-me na torneira do quintal. É um banho às prestações que me sabe pela vida!* Mesmo que a água esteja gelada e eu me esteja a lavar na rua com uma temperatura que ronda os 5 graus!!!
Volto para o quarto muito mais bem-disposta e digo à Chris que devia fazer o mesmo que fica logo com mais energia.
Faço um nescafé (os meus já acabaram e uso um dos da Chris), que a velha nem uma porcaria de um café oferece... Como uma barrinha de cereais e saímos depois de nos besuntarmos com os nossos cremes, o nosso talco e de fazermos um aquecimento.
Como todas as manhãs, benzo-me e peço a Deus que nos acompanhe em mais um dia e proteja os nossos pés, os nossos joelhos e todas as nossas articulações.
É a parte mais bonita do caminho.

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Está sol e a paisagem começa a mudar. Há caminhos mais estreitos, já não há estrada e começamos a subir um pouco.
Rapidamente chegamos a San Justo de La Vega (8,1km), onde finalmente tomamos um café com leite com uma mantecada, bolo típico de Astorga onde iremos almoçar. Já lá estão, no café de San Justo, a holandesa e o outro do albergue, divertidíssimos. Não os voltaremos a ver e nunca saberemos como se chama a holandesa.
Aproveitamos para ir à casa de banho. Nunca pensei ser capaz de usar casas de banho publicas e achá-las limpas!!!
Retomamos o caminho e paramos numa farmácia para comprar Compeed. A Chris já tem bolhas. Eu ainda não tenho mas adivinho-as, por isso mais vale prevenir e comparar também. €5,60 por meia dúzia de pensos especiais.
Voltamos a caminhar, mas a Chris está muito queixosa e eu digo-lhe que mais vale parar e furar já as bolhas. Não sei que fiz á agulha e linha que tinha trazido... Fura-se com um alfinete e pronto.
Sentamo-nos na beira da estrada e descalçamo-nos as das: eu para secar os pés, ela para furar as suas bolhas que crescem como cogumelos... Ontem era uma, hoje são muitas e enormes...
Lá põe o compeed. É uma espécie de segunda pele. Um penso transparente que tem de ser aquecido com a mão antes e depois de ser posto no pé. Supostamente absorve a água das bolhas e protege. Não deve ser retirado: cai por si mesmo quando o seu trabalho estiver feito. Um penso inteligente, portanto.
Retomamos e reencontramos as duas canadianas que estavam connosco em Leon e esta noite no albergue de Santibañez. Uma dela é novinha, talvez da minha idade. Começaram em Saint-Jean mas a mais nova teve uma ruptura de ligamentos. Esteve 4 dias de cama, engessada, e depois foi de autocarro de Burgos até Leon. Agora faz etapas curtas. Assusto-me com esta história e temo pelo meu joelho doente e pelo meu pé, embora até agora nenhum dos dois tenha dado sinais de vida... só o joelho direito, mas esse é saudável, não há-de ter nada.
Chegamos a Astorga por volta do meio-dia e meia. Há uma subida grande, à entrada, por asfalto... cansativa... Chegamos à cidade a deitar os bofes pela boca.
Astorga é uma cidade bonita.
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Entramos numa tienda de recordações e compramos as nossas cabaças e uns pins que nos acompanharão todo o caminho. O meu é uma concha que ponho no chapéu.
A Chris quer mandar algumas roupas para Santiago e vamos aos correios. É quando começa a chover...
Cada vez chove mais. A Chris precisa também de ir ao banco trocar cheques, mas está a chover muito e decidimos ir antes almoçar. Eu estou esfomeada!
O menu peregrino começa a ser caro e é comida a mais. Comemos então uma piza, bebemos vinho e trazemos o que sobra (do vinho).
No fim, estamos tão cheias que custa recomeçar a caminhar... A chuva parou.
A saída da Cidade é estranha como são sempre todas... está mal sinalizado e começa a fazer-me confusão estar em cidades.
Mesmo no fim de Astorga encontramos um peregrino francês, meio alucinado, que nos diz que planeava ir até Santa Catalina, mas vem aí uma tempestade e então fica ali à espera.
Explico-lhe que a tempestade, a vir, será na direcção de Astorga e se fica ali então é que a apanha.
Diz que não.
"Vá até à esquina e espreite: a tempestade! Ela vem aí! Eu vou ficar aqui e espero. Se vier, fico por Astorga mesmo!"
Ok, buen camino para ti, que nós vamos à nossa vida!
Continuamos. Estamos bem dispostas. Eu estou feliz e nem há razão nenhuma em especial...
Estamos a 4,7 km da próxima povoação, Murias de Rechivaldo.
Pelo caminho encontramos dois velhotes, dos seus 70 anos, que caminham mais depressa que nós. Apesar das enormes mochilas que levam às costas (bem maiores que as nossas, sendo que eles são mais baixos que nós), cantam alegremente e é-nos difícil acompanhar-lhes o passo. Caminham como se nada fosse.
Caem uns pinguitos de chuva mas logo a seguir pára. Começo a ficar com calor mas não me apetece parar... peço à Chris que segure no meu cajado e mesmo em andamento consigo despir o impermeável! Estou a ficar uma "pro"!!!
Em Murias de Rechivaldo paramos a tomar um chá. É só um pretexto para parar... É uma terra engraçada, com cores de barro. Gosto de Murias... Se tivesse mais tempo para caminhar, hoje ficava já por aqui só para poder aproveitar esta aldeia. parece que o Albergue é bom. As pessoas são simpáticas (só vimos duas ou três) e embora a aldeia não tenha nada de especial, simpatizo com ela.
De chá no bucho, aquecemos e preparamo-nos para os últimos 4,8 km do dia.
Na verdade é o que mais custa, embora o caminho tenha voltado a ser plano e fácil. Ainda paramos mais uma vez pelo caminho. Eu já não tiro a mochila das costas. Está totalmente incorporada. Já não a sinto.
Chegámos pouco antes das 6 horas a Santa Catalina de Somoza e decidimos não voltar a almoçar assim. Aamanhã será só um bocadillo que ficamos muito pesadas para caminhar. Eu ainda estou enjoada da piza...
Chegamos estafadas.
De acordo com o meu guia só há um albergue municipal e preparamo-nos psicologicamente para mais uma noite como a anterior.
No entanto, logo à entrada, aparece-nos um albergue privado com muito bom aspecto. Vemos outro la´ao fundo, mas decidimos entrar já neste para ver como é. Ficamos apaixonadas... O albergue está dentro de um hostal muito simpático com um patiozinho amoroso. Depois da noite passada, merecemos isto! Agradeço a Deus... até me apetece chorar!
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Tem boas camas, de madeira, está super limpo, cheira bem, tem casa de banho para homens e para mulheres, água quente, aquecimento regulável no quarto e tem lá mais outro peregrino. Tem lavadora e secadora e vamos poder lavar as nossas roupas finalmente!!!
O outro peregrino aparece e é um homem. Digo-lhe olá e vou tomar banho.
Já limpinhas, saímos para dar uma volta pela aldeia. Parecemos duas patas chcas a andar... cheias de dores nos pés e nas pernas. Mas tirando isso estamos bem. Estou admirada. Toda a gente diz que este é o pior dia e eu sinto-me bem! Estou muito muito feliz.
Santa Catalina é uma cidade lindíssima!!! Fica num monte e parece uma varanda para a planície verde. As casas são de pedra, muito antigas. Sentamo-nos numa espécie de varanda natural, num banco ao sol, a secar os pés.

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No regresso encontramos um velhote que nos diz ser o hospitaleiro do albergue municipal. Só lá tem um americano. O filho dele tem o outro albergue privado da cidade que tem apenas 28 habitantes!!! Diz que se come bem no albergue do filho, que é também restaurante e que sim, tem sopa. Óptimo. É só o que me aptece comer, depois daquela piza que ainda anda a dançar na minha garganta. Albergue San Blás.
Comemos uma sopa de cocido (deliciosa) e bebemos um vinho (vamos sair daqui directamente para os alcoólicos anónimos...). Ao nosso lado uns pergerinos franceses com quem converso um pouco e logo atrás de nós os velhotes que tínhamos encontrado no caminho. São espanhóis e estão com outro rapaz que começa a conversar comigo. É o americano que está no albergue municipal. Chama-se Christopher. Começou a caminhar dia 9 em França, com uns amigos mas como era mais rápido que os amigos, já aqui está. Os amigos estão lá atrás, nem ele sabe onde. Quer começar a fazer etapas mais curtas agora, porque não quer chegar a Santiago antes do dia 8 para não ter de gastar dinheiro em hotel.
O ambiente é engraçado e o dono do restaurante muito simpático.Serve pequeno almoço a partir das 7 e decidimo vir cá tomá-lo amanhã de manhã.
Voltamos para o nosso albergue.
A Chris cose os pés equanto eu tento escrever no diário.
Chega o outro peregrino e metemos conversa com ele.
É italiano e a Chris lembra-se que é o que ontem nos tirou a foto em Hospital de Orbigo.
Viveu no Brasil por uns meses em 1978 e percebe português.
É muito simpático. Fez o Caminho pela primeira vez há vários anos, com a mulher, em bicicleta. Agora está a fazê-lo sózinho.

O dia acaba bem. Estou muito feliz por estar bem. Amanhã será o quarto dia e já não deve custar nada. Incorporei totalmente a mochila, não tenho dores anormais, os meus pés estão bem. As paisagens são agora magníficas e eu estou MUITO MUITO FELIZ!!!
Agradeço a Deus por mais este dia e peço-lhe que continue a acompanhar-nos. Amanhã temos uma etapa de 30km...
Ainda bem que vim para cá!

*Hoje posso dizer que este foi o melhor banho de todo o caminho!!!