Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

sábado, abril 23, 2005

4.º Dia de Caminho: Santa Catalina de Somoza - El Acebo= 28km

Acordo às 7 horas, meia hora antes de tocar o despertador. Estou preocupada com as nossas roupas que ficaram a lavar ontem à noite, e salto logo da cama. Afinal jácá estão, dentro de um alguidar, mas algumas ainda estão húmidas. São todas as minhas roupas e se não secarem, fico sem roupa para vestir hoje. Espalho-as pelos vário aquecedores na esperança de que sequem o mais possível durante a próxima meia hora.
A Chris e o Andrea, o italiano, ainda dormem e eu aproveito para ir à casa de banho.
Mais aliviada, enfio o meu poncho e saio para a rua. É o único dia que estou em Santa Catalina e quero ver o sol nascer. A cidade dorme ainda e está um frio de rachar. Acendo um cigarro, enquanto contemplo esta aldeia lindíssima e agradeço a Deus por esta oportunidade. No peito sinto uma coisa forte e enorme que parece querer explodir. Definitivamente estu muito feliz e não me canso de agradecer a Deus.
As minhas pernas gelam e volto para dentro.
Estou com uma dor chata na dobra da perna, mesmo por trás do joelho direito. Nãos sei se é da alergia/assadura que tenho por causa da joelheira ou se é dor muscular. O certo é que não tenho uma dor tão forte na perna esquerda e começo a imaginar que talvez a dor que senti no joelho direito seja qualquer coisa mais grave e que por causa dos anti-inflamatórios tenha passado, mas esteja agora a doer atrás.
Doi-me também o 2.º dedo do pé. Ontem pensava que era uma micro-bolha que ali estava a nascer, mas quando cheguei ao albergue, reparei que era a unha que estava a encravar. Tentei cortá-la mas não deu. Devia ter cortado as unhas de outra forma, como me diz a minha mãe...
Quando entro no quarto, já o Andrea está quase pronto. Acordo a Chris e começamos a nossa preparação do costume: creme hidratante por causa do frio, pomada nos pés e nos joelhos, álcool canforado nos músculos das pernas para que aqueçam, talco nos pés, as meias de vidro, desfazer a mochila para a voltar a fazer com o saco cama no fundo e com o peso bem distribuído (o mais pesado em baixo e mais perto das costas). A Chris tem ainda os seus pés cheios de bolhas para tratar.
Aquecemos e saímos para o pequeno almoço. Hoje vamos tomar um pequeno almoço de reis: sumo de laranja natural, café com leite e torradas com manteiga e marmelada por €2,75.
Quando lá chegamos os velhotes espanhois estão já de saída. Vão também ficar em El Acebo e brincam: dizem que nós as duas vamos esperar por eles lá. Mas não é bem assim... eles têm uma força incrível.
O Andrea está a treminar o seu pequeno almoço (também ele vai para El Acebo), e conversamos um pouco sobre as nossas vidas. É advogado e professor de direito numa universidade italiana. Até há pouco tempo desempenhou um cargo de grande responsabilidade num dos empregos dos meus sonhos. E aqui está ele a fazer o caminho de Santiago! Uma pessoa absolutamente normal.
Despede-se de nós e e sai.
Conversamos mais um pouco com o hospitaleiro. É um rapaz novo, talvez 30 anos, e nasceu aqui em Santa Catalina. Deve ser engraçado ter o caminho à porta de casa e todos os dias ver peregrinos. Já fez o caminho também, desde a sua casa e diz-nos que a etapa de hoje é lindíssima... pena estar esta neblina senão veríamos tudo até Astorga.
Um dos velhotes espanhois entra a correr no café. Já tinha andado dois quilómetros e lembrou-se que não tinha pago o pequeno-almoço. Voltou para trás. Hoje serão mais 4 km...
Saímos nós também, depois de um breve aquecimento. Mais uma vez cumpro o meu ritual: benzo-me e peço ajuda a Deus para mais este dia.
Em 40 minutos fazemos os 4,2km que nos separam de El Ganso. Estamos as duas contentes e orgulhosas: entrámos no ritmo e já não nos cansamos tanto.
El Ganso parece uma aldeia fantasma: tudo fechado. Só se vêem peregrinos de vez em quando a passar. Comento com a Chris que começo a pensar que estas cidadezinhas por que vamos passando são apensa um cenário, posto ali para quebrar a monotonia, para que os peregrinos sintam menos o caminho e tenham a noção das distâncias que vão percorrendo, mas na realidade não vive lá ninguém.
Paramos um pouco à saída de El Ganso. Eu quero fazer xixi e entretanto começam a cair uns pingos de chuva bem grossos. Aproxima-se uma tempestade (hoje parece que sim) e tenho de proteger o meu poncho. Enfio-o num saco plástico que penduro na mochila. Se o pussesse lá dentro a mochila ficaria muito mais pesada.
Retomamos o passo.
Não sei que tenho hoje que não me apetece caminhar. Ou melhor, não é que me apeteça estar parada em casa, mas estou meio desconfortável, mais ansiosa, custa-me mais caminhar. Olho várias vezes para o meu guia para tentar perceber que distância já percorremos e que distância falta ainda.
Entramos agora numa vereda lindíssima, mas bem mais difícil. Tem um caminhozinho onde só cabe uma e é um terreno bastante acidentado.
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Numa cerca à nossa direita, alguém pôs cruzes feitas de pequenos galhos.
Paramos mais uma vez para descansar. O que vemos é de facto maravilhoso e esta luz de tempestade a aproximar-se dá ao Caminho um outro encanto, um outro mistério. É lindo!
Pelas nossas contas, já fizémos metade do percurso até Rabanal del Camino, onde vamos almoçar. Deverão faltar uns 3,5km. Estou ansiosa por chegar porque de acordo com o meu guia, esta é uma cidade muito bonita e cheia de vida, que soube aproveitar o Caminho para se dinamizar. "A excepção do Caminho". Mas assim que lá chegamos, a desilusão apodera-se novamente de mim... A única diferença entre Rabanal e as restantes aldeias, é o facto de ser maior e ter mais casas e construções em melhores condições. As pessoas aqui não são tão simpáticas como nos outros sítios, excepção feita à dona da tienda. Não me sinto bem aqui e quero sair rapidamente deste sítio. Talvez seja por causa da chuva que entretanto começou a cair e torna tudo mais triste. De qualquer maneira, não me sinto nada confortável.
Entramos na tieda que foi feita para o peregrino: mini-embalagens de álcool e betadine, tampões e pensos à unidade, rolos de papel higiénico vendidos à unidade também, joelheiras e tornozeleiras, agulhas e linhas que a senhora oferece ao peregrino com bolhas (a Chris traz uma), facas que a senhora empresta para quem queira cortar o seu pão, além de frutas, chocolates, pão, vinhos e outros comes.
Compramos pão e presunto para o almoço, frutos secos para ir comendo no caminho, chocolates e fruta. E ainda compramos uns ponchos de plástico amarelos que nos cobrem a nós e às mochilas. Custam €1,60 e a senhora diz que não são grande coisa. Por mim, desde que não se rompam assim que os vestirmos como aconteceu ontem com o da Chris, está óptimo. Só não quero que o que trago dentro e pendurado na mochila se molhe.
Perguntamos onde nos podemos sentar a comer e a senhora indica-nos o parque da aldeia, mas como está a chover talvez seja melhor sentarmo-nos num dos bancos de pedra que estão colados às casas, que sempre ficamos mais protegidas pelo telhado.
Assim fazemos.
Sentamo-nos mesmo em frente da tienda. Eu estou cheia de fome e cansada e quero sair dali rapidamente.
Abrimos a lata de atum que tínhamos comprado há dois dias, cortamos o pão e bebemos o vinho que trouxemos de Astorga.
Abrimos ainda o presunto que é delicioso.
Continua a chover e passam por nós as finlandesas que dormiram por baixo de nós em Santibañez. Ontem ficaram em Astorga e hoje vão ficar por aqui. Fico com uma certa inveja delas: é meio-dia e o dia delas terminou. Têm a tarde toda para descansar e apreciar a cidade. Nós temos ainda 17 km para fazer no meio desta chuva, porque temos um dia fixo para o regresso a casa. Da próxima vez que vier para o Caminho, tiro um mês inteiro e asseguro-me de que não há nada que me obrigue a voltar antes de eu ter terminado. Quero fazê-lo com calma e parar onde me apetecer, sem pressa de chegar, sem a pressão dos quilómetros.
Acabamos o nosso almoço e vamos para um café tomar qualquer coisa quente antes de recomeçar a caminhar. Entramos num café cheio de peregrinos que se preparam para almoçar e pedimos um café com leite. Nem aqui as pessoas se mostram mais simpáticas.
Vamos à casa de banho e enchemos as nossas garrafas.
Entra o francês alucinado de ontem. Vai ficar em Foncebadon. Pergunto-lhe pela tempestade e ele ri-se. Afinal não houve tempestade...
Goza connosco quando nos vê equipadas: eu vou fazer a viagem incógnita!
De facto estou irreconhecível: além de toda a roupa que trago e que me faz parecer 10 kg mais gorda (dois pares de calças, um top, uma t-shirt, uma sweat, um impermeável), ainda tenho um cachecol e por cima dele um lenço que me tapa o pescoço e o nariz, um lenço na cabeça para proteger os ouvidos, um chapéu para a chuva, uns óculos de sol e por cima de tudo isto e da mochila, um poncho amarelo.
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Saímos mais animadas, com a alma e o coirpo mais aquecidos e retomamos a caminhada. Até a Cruz de Hierro será sempre a subir e daí até El Acebo a descer.
O caminho está cada vez mais difícil porque agora temos de nos debater com a lama que começa a formar-se... o nossos esforço aumenta para o dobro ou triplo e andamos mais devagar. Temos de ter cuidado para não escorregar e nalguns sítios temos mesmo de sair do caminho porque os nossos pés afundam-se na lama. Mas o que vemos compensa o esforço.
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Começa a aquecer e eu começo a despir roupa... este poncho amarelo faz-nos transpirar.
O caminho não pára de ficar mais bonito e a cada instante penso que esta paisagem é a mais linda de todo o percurso.
Finalmente avistamos Foncebadón. Uma hora para 6 km, não está mal.
Foncebadón é uma aldeia abandonada e feia,
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mas com uma vista lindíssima. Já estamos a 1400 metros de altitude e daqui conseguimos ver quase tudo.
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Há ali uma taberna que quero muito espreitar. É o único ponto de interesse da aldeia. Uma taberna medieval com os empregados vestidos a rigor.
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Entramos para tomar um café com leite, mas são horas de almoço (são 2 da tarde) e o dono diz-nos que temos de ficar numa mesa lá ao canto e ser bem rápidas porque em breve chegará muita gente para almoçar. Fico com pena de termos almoçado, porque ali tinha sido um belo sítio para retemprar energias neste dia tão feio.
Tiramos algumas fotos, consultamos o meu guia e partimos.
De facto chega muita gente e fico com pena e inveja deles. Inveja porque estão ali a almoçar, secos e confortáveis, e poderão ir ali quantas vezes quiserem. E a seguir vão para suas casas, secas e confortáveis, tomarão o seu banho e dormirão na sua cama. Pena por isso mesmo: para eles este é um sábado igual a todos os outros, com a agravante de que está a chover e não poderão passear, não poderão apreciar as mesmas paisagens que nós, não saberão como é bom fazer este caminho e devem estar cheios de pena de nós por sairmos para esta chuva (que agora é torrencial).
Saimos para o cenário de guerra que é Foncebadón, fazendo pontaria para não cair em nenhum buraco, e retomamos o nosso caminho.
Subimos mais um pouco até à Cruz de Ferro, o ponto mais alto no caminho.
É uma cruz de ferro minúscula no cimo de um enorme tronco de madeira. à volta, uma série de pedras colocadas ali por peregrinos. Diz o guia que a tradição era trazer de casa uma pedra que se transportaria por todo o caminho para ali ser depositada. A pedra simbolizava o peso das culpas e preocupações que ali eram depositadas. Mais leve, o peregrino poderia descer o resto do caminho em paz. Eu não levei pedra nenhum e nem sequer gostei muito desta Cruz. A Chris pega numa daquelas pedras e deposita-a na base da Cruz de Ferro.
Estamos no tecto do mundo e a vista daqui é lindíssima. E tudo seria perfeito se não estivessem aqui estes turistas de carro que não param de falar alto como se fossem eles os únicos aqui. Vinha abosrta a escutar o silêncio e queria fazê-lo aqui também, mas estes turistas quebraram o espírito de contemplação e meditação do caminho.
Pomos as nossas mochilas às costas outra vez, novo aquecimento e iniciamos a descida que é a útlima fase da etapa de hoje.
Alegro-me que agora será mais fácil. Mas estou redondamente enganada...
Faltam 9 km para acabar o nosso dia Mas, ao contrário do que pensávamos, é agora que vamos iniciar a parte mais difícil da jornada: a descida até El Acebo.
Chegamos a Manjarín num instante. A Chris está muito cansada e quer parar ali por mia hora. Acho demais, mas paramos. O meu joelho recomeçou a doer e quero chegar depressa a El Acebo. Pior: as ameixas que comprei em Rabanal são potentíssimas. Comi umas 4 e o meu intestino não pára de se mexer. Estou desde a Cruz de Ferro com cólicas e até já tenho arrepios. Preciso urgentemente de uma casa-de-banho. A Chris diz para tentar ir no mato, mas não sou capaz. Tento, mas não consigo mesmo... ainda preciso de uma sanita.
Falamos na hipótese de ficar ali em Manjarín, mas é logo afastada. Manjarín é uma aldeia em ruínas e só lá vive uma pessoa: um místico, Tomás, que se diz o último dos Templários. É hospitaleiro do único albergue cujo único luxo é a cozinha. Não há camas nem água corrente. No estado em que estamos hoje precisamos de um bom banho reconfortante, de um colchão, por pior que seja, e eu de uma retrete. Temos de caminhar os restantes 7 km até El Acebo. Levaremos uma hora e não vai custar nada.
Sentamo-nos na erva e a Chris descalça-se para arejar os pés. Está com muitas bolhas e o compeed não a ajuda.
Eu tomo um anti-inflamatório e faço uma massagem ao meu joelho com o spray. Ponho novamente a joelheira depois de pôr talco na dobra da perna. As minhas bolhinhas estão cada vez pior e estoiu realmente assada. Já não sei oq ue é pior... se a dor no joelho se a assadura.
São quase 5 horas quando retomamos o caminho. Coragem! Já só falta uma e parou de chver.
Mas a lama ainda é muita e a descida é acentuada.
Em pouco tempo as dores no meu joelho tornam-se quase insuportáveis e o medo chega. Isto é uma tendinite e o caminho acabou para mim... Amanhã peço ao hospitaleiro do albergue que me leve ao hospital em Ponferrada. Lembro-me da canadiana que sofreu a ruptura de ligamentos e fico com medo que o mesmo me aconteça a mim. Não tenho tempo para recuperar e ainda terminar o caminho... Devemos ter andad uns dois quilómetros quando começo a rezar. Já não vou deixar de rezar até chegar a El Acebo. Rezo Avé-Marias e Pais-Nossos, Salve-Rainhas e tudo o que me lembro e consigo inventar. Peço a Deus, a Nossa Senhora, a Santiago e à Virgem do Caminho que me ajudem a chegar a Santiago, que me deixem caminhar até ao fim, que não me amndem para acasa mais cedo. peço-lhe que me deixem avistar El Acebo assimq ue virar mais esta montanha. Mas não avisto nada. Só mais outra montanha a seguir a esta, mais outra que tenho de contornar. Vajo uma aldeia lá ao fundo, mas não quero acreditar que aquilo seja El Acebo. Está muito longe ainda. Não, aquilo deve ser Molinaseca.
Estes são os 4 km mais compridos de todo o caminho.
Não quero voltar para casa, não quero parar, quero caminhar.
Continuo a rezar enquanto olho a paisagem à minha volta. Parou de chover e o sol aparece nalguns sítios lá ao fundo, no meio das montanhas, equanto tudo o resto esté encoberto. Isto é maravilhoso e peço a Deus que me deixe continuar a apreciar esta beleza toda.
Digo à Chris que estou com muitas dores. Chego mesmo a dizer-lhe, quase a chorar, que o caminho acabou para mim, que ela vai ter de o fazer sozinha. Ela diz que não, que já vou descansar, que a etapa de amanhã e mais curta e que a faremos com toda a calma. Que havemos de conseguir. Eu também quero acreditar que sim, mas tenho medo que, depois de arrefecer, o meu joelho não volte a melhorar.
Vejo os carros a passar lá em baixo, na estrada e só me apetece ir para lá e pedir boleia. Quero chegar depressa a El Acebo e pôr gelo. As dores são horrívei, já mal consigo dobrar o joelho, e esta porcaria não pára de descer! Porra de montanha que não acaba nunca!!! E pedras e lama e ... aiiiiiiii.
Finalmente encontramos uma placa que diz "El Acebo: 2km".
Porra! Ainda faltam 2 km?!?!?
Volto a olhar à minha frente: a tal aldeia que tinha visto lá atrás e não acreditei ser El Acebo. Afinal é mesmo e ainda temos uma bela descida até lá.
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A Chris sugere que eu pare um pouco. Paramos e falo-lhe dos meus medos. Ela diz que tudo vai correr bem.
Encho o peito de ar e levanto-me. Não quero descansar mais. Quero caminhar e chegar a El Acebo já.
E chegamos finalmente. Eu arrasto a perna e gemo quando a dor aperta. Mas estou feliz. Consegui!!! Por hoje está feito.
El Acebo é um amor de aldeia. É uma aldeia boitinha, com uams casinhas engraçadas. São de pedra com um rebordo e varanda de madeira. Lindas.
Há muitos peregrinos na aldeia.
Encontramos o albergue e eu peço gelo enquanto damos as nossas credencias e pagamos.
É um albergue-café-restaurante o que é óptimo: não vou precisar andar muito para comer. Basta descer as escadas.
A hospitaleira diz-nos onde fica o quarto e quando lá chegamos já lá estão os peregrinos de Santa Catalina: os franceses, os espanhóis, o Americano qua afinal sempre fez uma etapa grande, e o italiano que nos diz que estava já preocupado connosco. Isto enche-me o coração de alegria! Conhecemo-nos há 24 horas e já se preocupa connosco. Pergunta-me o que se passa e explico.
"São os ligamentos, então", diz-me ele. Estremeço: "eu espero que não... que seja só uma tendinite que passe logo...".
Falo à minha mãe mas digo que tenho só um ligeiro incómodo no joelho. Apetece-me chorar, mas não posso. Digo que estou cansada. Na verdade estou assutada mas não lho posso dizer. Ela não está aqui e vai imaginar que eu estou pior do que aquilo que estou.... então, para quê preocupá-la? Apesar de tudo, estou muito feliz e nisso ela não iria acreditar, pois como é possível que alguém esteja sem mexer o joelho, com vómitos por causa das dores e ainda assim feliz? É melhor não dizer nada. Digo o costume: é tudo lindo, estou muito feliz, sim choveu um pouco, tenho as dores normais de cansaço e sim, estão aqui os nossos amigos, e sim o albergue é bom e tem água quente.
Passam os 15 minutos e o eu joelho está já vermelho do gelo. Está na hora do banho. Lembro-me das minhas cólicas, mas a casa de banho é no quarto e este está cheio de gente. Não vou conseguir ir... Tento na mesma que a necessidade é superior a qualquer pudor. Abro a janela e fecho todas as portas, de modo a que não se ouça nada no quarto. Afinal consigo e mais aliviada (sinto que ainda não fiquei por ali), entro no duche. A casa de banho é mista e tenho de ter cuidado ao despir-me... o quarto está cheio de homens que podem entrar a qualquer momento.
O chuveiro é uma porcaria, mas a água está mais ou menos quente e isso é o que importa. Sinto saudades do meu chuveiro. Tomo um banho rápido às escuras (a luz está fundida e não posso abrir a porta porque um deles pode entrar) e saio limpinha e fresquinha, muito mais reconfortada.
Volto a pôr gelo equanto a Chris toma banho e cuida dos pés.
Saímos para apreciar a cidade. O meu joelho doi muito menos e penso que afinal assustei-me à toa.
O frio magoa as pernas e os pés nus, mas não podemos calçar as meias e as botas agora: os pés têm de respirar.
Vamos até à lojinha comprar pão para o dia seguinte. Amanhã é Domingo e estará fechada.
São 7h30 e voltamos para o Albergue. Vamos jantar e vamos convidar o Andrea a fazer-nos companhia. Mas afinal é ele quem nos convida para jantar com os 4: ele, os espanhois e o americano.
O jantar é divertidíssimo. Ali fala-se inglês, português e espanhol, tudo misturado. O Americano, Cristopher tem imensa piada e os espanhois, Miguel e Antonio, também. Contam-nos que é a segunda vez que fazem o caminho. No ano passado fizeram-no em 29 dias e este ano querem fazê-lo em 25. Começaram em Saint-Jean. Um deles, o mais velho e também mais rápido, corre todos os dias 2 horas. O outro caminha., São ambos reformados.
O Americano foi figurante em várias séries de televisão.
Amanhã todos vão para Cacabelos, mas nós ficamos em Ponferrada. A opção é entre 16 ou 32 km já que entre Ponferrada e Cacabelo não há albergues, e no estado em que o meu joelho está...
O jantar passa-se muito bem e eu estou novamente radiante.Comemos muito bem, bebemos ainda melhor e rimos muito. No fim cantamos com o Adrea, músicas brasileiras. Ele sabe-as todas e canta-as durante o caminho.
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Recebo uma mensagem do meu pai, de apoio. Respondo-lhe dizendo que estou com muitas dores no joelho (ao meu pai posso dizer), mas que estou muito muito feliz! E estou mesmo. Um dia menos bom que tremina muito bem!
Quando sunimos para o quart, são já 10 e meia da noite, ponho a hipótese de ir até Cacabelos amanhã. Não quero perder estes novos amigos. Quero repetir esta noite. Tenho a sensação que já os conheço há muito tempo.
Deito-me e agradeço a Deus por este dia. Peço-lhe que proteja e melhore o meu joelho e que me permita ir até Cacabelos amanhã. Ainda bem que vim para o caminho!