Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

domingo, abril 24, 2005

5º Dia de Caminho: El Acebo - Cacabelos = 32 km

Que dia... quem diz que os 3 primeiros dias são os piores, não sabe do que fala... ontem foi mau, mas hoje...

Dormi mal esta noite. Muito mal mesmo...
Deitei-me com cólicas, mas estava tão cansada que queria era dormir rapidamente. Acabei por ter de me levantar a meio da noite para ir à casa-de-banho... a porcaria das ameixas fez mesmo efeito...
Passei o resto da noite com muitas cólicas e o sono foi sempre muito leve. Ainda estava escuro quando dois franceses saíram e fizeram muito barulho. Deviam ser umas seis da manhã.
Às 7h outros dois ou três saíram e novamente muito barulho com lanternas para todo o lado.
Nós só íamos acordar às 7h30, porque ontem disseram-nos que so serviam pequeno-almoço a partir das 8, mas nem por isso descansei mais.
Levantei-me finalmente por volta das 7h30, quando o Andrea também se levantou. Logo depois levantaram-se todos os outros e começou o novo dia.
Eu fui a primeira a despachar-me e desci logo que ainda queria carregar o telemóvel que está sem bateria. E sim, queria ir à casa de banho com um pouco mais de privacidade... 4 homens ao mesmo tempo na casa-de-banho... não dá muito jeito... e ainda por cima já não havia papel.
Os espanhois e o Andrea saíram logo atrás de mim. A Chris, como sempre, é a última. Só para coser os pés demora uma hora, coitada. Cada dia tem mais bolhas. Não sei onde arranja tanto pé...

Tomamos o pequeno almoço todos juntos (menos o Cristopher que não toma pequeno-almoço e então esperou por nós).
Divido uma empanada de carne com o Andrea e bebo um café com leite, enquanto vemos os nossos guias. Eu tento convencer a Chris a irmos até Cacabelos. O Andrea, que ontem nos dizia que Ponferrada era já aqui ao virar da esquina e que a etapa seria muito curta, acha agora que temos de ir com calma e quando chegarmos a Ponferrada logo vemos se estamos ou não em condições de fazer mais 16 km.
No fim, quando estamos já quase prontos para sair, ele diz-nos que vai connosco até Ponferrada, caso alguma de nós precise de ser carregada. Nem acredito!
Primeiro penso que está a brincar e rio-me. Mas ele insiste, diz que é mesmo verdade, que está preocupado connosco e que quer acompanhar-nos até Ponferrada. Depois ele seguirá até Cacabelos e nós decidimos se queremos continuar também ou se ficamos por ali.
Digo que não, que agradecemos muito mas não aceitamos a oferta. Somos muito mais demoradas que ele e só o vamos atrasar. Ele insiste e acabamos por partir os seis: nós as duas, os espanhóis, o americano e o Andrea.
Está a chover e nós lá vamos todas quitadas.
O Andrea tem o hábito de cantar músicas brasileiras enquanto caminha (costuma caminhar sózinho), e então cantamos os três. Parece que custa menos assim.
O meu joelho volta a doer e o piso é muito mau. Há lama muito mole, tenho de fazer um esforço enorme para não escorregar nem enterrar os pés. Em certos trechos temos de sair do caminho e ir pela erva mesmo.
Há muitas descidas e tenho de respirar bem fundo...
O Andrea diz-me que estou óptima, que até ando mais que todos, sou a mais rápida... mas a verdade é que as descidas magoam muito e tenho de as fazer rapidamente porque quanto mais lentamente descer, mais força faço no joelho e mais dói. Tenho mesmo de cortar a respiração... mas falta pouco. Não quero é parar porque então será bem pior. Percebo que se descer de lado fica mais fácil.
Apesar da chuva, o caminho aqui é lindo. Passamos por uns bosques maravilhosos. Não tiro fotos nenhumas porque da única vez que tentei, a máquina caiu, o guia caiu, e tive de os apanhar da lama de mochila às costas. Como tenho o poncho amarelo vestido, não posso tirar a mochila e como está a chover e doi o joelho, não me apetece parar para tirar fotos. Quero chegar depressa a Molinaseca onde há uma farmácia. Esta joelheira que trago é uma verdadeira porcaria e não aperta nada.
Doi imenso e rapidamente vou para a frente do grupo. Sim, sou a mais rápida porque há muitas descidas.
A Cris e o Andrea vêm mais atrás. Ainda os ouço a cantar de vez em quando.
Olho a paisagem e agradeço a Deus.
Já à chegada de Molinaseca há umas descidas horrorosas. Queria tirar uma foto aqui, mas se a mostro lá em casa, a minha mãe nunca mais me deixa vir para o Caminho outra vez... A terra desapareceu e agora só há pedras. Umas rochas lisas e escorregadias por causa da chuva. Do lado direito a estrada... vários metros mais abaixo... se escorrego parto-me toda. Temos de fazer pontaria para pôr os pés. Um passo em falso e...
Conseguimos. Nem sei que horas são, mas tenho a sensação de que foi muito rápido.

Chegamos a Molinaseca

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e aviso o povo que preciso de ir à farmácia. O Andrea também precisa de ir. Diz que os pés estão a doer-lhe muito, que precisa de umas palmilhas. Talvez tenha sido do esforço de ontem... "My feet are killing me..."
A farmácia está fechada mas como não tem nenhum aviso a dizer qual é a farmácia de serviço, presumo que seja aquela mesmo e toco à porta. No andar de cima aparece uma senhora. Explico-lhe o que quero e ela diz que vai já descer.
(Para mim parece-me que a manhã já vai a meio, mas agora que penso nisso, devia ser mesmo muito cedo e era Domingo...Aquela pobre alma devia ter acabado de acordar, mas mesmo assim veio atender uns peregrinos em aflição)

Compro uma joelheira toda xpto, de revestimento de não-sei-o-quê-feno que mantém a temperatura do joelho (não deixa aquecer nem arrefecer) e deixa transpirar, evitando as assaduras que já tive. Custa quase 30 euros e até fico verde quando ela me diz o preço... E o pior é que o meu Amex não funciona. Porra! Ela tenta três vezes. Tenho 70 euros e por isso pago com dinheiro, mas fico preocupada... se esta porcaria não vai funcionar, estou feita... Paciência. Talvez seja só um problema aqui de Molinaseca... isto é o fim do mundo. Talvez em Ponferrada já dê.
Antonio, um dos espanhois, faz-me uma massagem ao joelho e põe-me a joelheira. Foi farmacêutico e percebe disto. Diz que devo sempre aquecer o joelho antes de pôr o spray e que se ainda assim continuar a ter dores, que devo pôr uma ligadura por baixo da joelheira.

Não há palmilhas para o Andrea e decidimos retomar o caminho. Só faltam 8 km até Ponferrada (estamos mesmo a meio).
Sinto-me melhor e pronta a recomeçar. Agora acabaram-se as descidas e até Ponferrada vamos por alcatrão, sempre plano.
Continuo a caminhar à frente. Encontrei um bom ritmo e não o quero perder sob pena de recomeçarem as dores.
O Americano vem para perto de mim e vamos o tempo todo a conversar, enquanto lideramos o pelotão. É divertido ele, mas confirma a ideia que tenho dos americanos: são uns egocêntricos incultos. Não sabe bolha sobre a Eurpoa e pensa que Lisboa é em Espanha!!!
Desculpa-se: na escola não se ensina absolutamente nada que não tenha a ver com os EUA.
"Por favor, entendam-me... tens de explicar aos europeus que não fazemos por mal... é uma questão de cultura..."
No entanto deve ter tido uma vida interessante. Tem trinta e tal anos mas ainda vive com os pais porque não tem dinheiro. Mas já viajou muito.
Rimos imenso.
Ele viveu no México, em Chiapas, durante um ano, para aprender a falar espanhol.
Falo-lhe da minha vontade de ir para lá também e de alguns dos meus sonhos malucos e começamos a inventar uma história amalucada: eu serei a próxima Evita Péron e vou governar o mundo. É um chorrilho de disparates mas distrai-nos.
Quase em Ponferrada paramos para esperar pelos outros. Dou-me conta de que o Andrea não vem lá atrás e pergunto à Chris por ele.
"Ficou para trás. Está com muitas dores nos pés e disse-nos para continuarmos. Ele vai ficar em Ponferrada hoje."
Fico triste.
Será que devo ficar em Ponferrada também e esperar por ele? Afinal, ele propôs-se acompanhar-nos até lá... foi tão simpático...
Devia ao menos ter ficado com o contacto dele para o caso de não o reencontrar...
Ao meio-dia chegamos a Ponferrada. Fizémos 16 km em 3 horas e meia!
O meu joelho volta a doer um pouco mas Cristopher volta a conversar comigo e distraio-me novamente.
Odeio cidades. Grandes ou pequenas, cortam o espírito do caminho de forma abrupta. E Ponferrada é grande.
Começa o suplício... as setas amarelas desaparecem, há mais pessoas normais que peregrinos, subidas e descidas por ruas normais, passeios e estradas com carros. E a sensação de que não sei onde estou.
A cidade é bonita e noutra altura, noutras circunstâncias, teria ficado maravilhada... Mas a verdade é que não estou aqui em turismo e o que quero é campo, terra e bosques. E peregrinos.
Entramos num café perto do Castelo dos Templários.
Comemo polvo (petisco) com os espanhois (o Cristopher foi comer a sua própria comida para outro sítio) e bebemos um café com leite para aquecer. Almoçaremos em Camponayara, por volta das 3, que fica a 10 km daqui.
Eu e a Chris conversamos e chegamos à conclusão de que é melhor seguir com eles. Um é farmacêutico e pode ser uma ajuda, ambos os espanhois conhecem o caminho e saberão onde devemos seguir pela estrada ou pela lama... e o Andrea é rápido e amanhã reencontarmo-lo pelo caminho.
Ficamos ali pouco tempo.
Saímos do café às 12h45, que ainda temos de atravessar toda a cidade.
Parou de chover entretanto e já conseguimos tirar umas fotos.

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Encontramos o Cristopher e seguimos.
Ele diz-nos que esteve a conversar com o hospitaleiro do albergue de Ponferrada e que o albergue ali é óptimo. Penso novamente se devo ou não ficar ali... A cidade é bonita e apetecia-me vê-la... mas estamos apertadas de tempo e esta manhã já chegámos à conclusão de que tínhamos de começar a acelerar se queremos chegar a Santiago dia 3.
Continuamos sim. O meu joelho está bem melhor e quero aproveitar.
Cristopher e eu voltamos às nossas histórias. Antes de Ponferrada tinha-lhe contado a minha teoria, de acordo com a qual as aldeias do caminho eram apenas um cenário para que as etapas custassem menos aos peregrinos.
Ele sentiu-se então à vontade para me contar a sua própria teoria: cada aldeia sequestra um peregrino por dia e guarda-o num celeiro ou num sótão, ou numa cave, com os outro que roubou no dia anterior e rouba-lhes a energia.
A partir daí começamos os dois a inventar umas histórias sem sentido que nos divertem imenso.
Eu ora sou sequestrada, ora sou seuqestradora. O que faria com os peregrinos? Desde tortura a aulas de body combat, terminando com "espalhar amor por todos e fazê-los mudar de vida", com direito a estátuas à Deusa do amor que eu seria, vale tudo.
Esqueço frequentemente que este americano não sabe nada sobre mim, tirando o facto de eu ter 26 anos, ser portuguesa e fazer body combat. E o mesmo se passa comigo... nada sei dele, a não ser que é americano e que sonha com um casamento para toda a vida e 3 filhos. No entanto, parece que nos conhecemos há séculos.
A Chris está com muitas dores nas bolhas e muito cansada (entretanto parou de chover e está calor) e então paramos as duas em Columbrianos. Combinamos encontrá-los em Camponayara às 3.
Fico com um aperto na gargante: voltámos a estar sozinhas. A mim não me apetece nada parar, que ainda agora começámos a caminhar e hoje quero chegar cedo ao albergue para poder descansar.
De acordo com o meu guia, o albergue de Cacabelos é quase um hotel... há divisórias de madeira a separar grupos de duas camas! Voltamos à semi-privacidade, depois de tantos dias em camaratas mistas.
Aproxima-se uma tempestade e digo à Chris que temos de seguir.
O caminho agora é mais fácil porque há pequenas povoações que distam 1 km entre si. Andamos em plano por uma estrada secundária que mais parece uma rua comprida entre as povoações.
Recomeça a chover e desta vez é bem forte. A tempestade que eu via aproximar-se chegou e, pela primeira vez, fico com as pernas encharcadas. Curiosamente os meus pés estão secos! Abençoadas botas feiinhas e baratas que comprei uma semana antes de vir.
Às 2h paramos outra vez em Fuentes Nuevas. Faltam só dois km para Camponayara e eu queria mesmo continuar, mas a Chris não aguenta e entramos num café onde ela trata das suas bolhas. Acho que o problema é das meias. Usa duas de algodão e devia usar umas de vidro por baixo. Mas as botas dela também não são grande coisa... não deixam transpirar o pé e é isso que provoca tanta bolha.
Bebemos um vinho (eu começo a ter fome, mas prefiro almoçar em Camponayara com os espanhois e o americano, para ter a certeza de que não os perdemos).
Meia hora mais tarde recomeçamos o caminho. Chove menos agora e está mais calor.
Tento retomar a história maluca que inventei com o Cristopher, na esperança de que a Chris se esqueça das suas bolhas, mas não á resultado. Ela está mais concentrada nos pés e não desenvolve a história. Peço-lhe que me fale da sua vida no Brasil, mas ela também não está com vontade.
Chegamos a Camponayara às 3 da tarde. A dificuldade agora é saber onde estão os espanhois. A Chris está muito cansada e paramos no primeiro café que encontramos. Não há lá ninguém conhecido. Só gente da aldeia mesmo.
Vamos à casa de banho. Tenho fome, mas não me apetece comer nada. Faltam 6 km para Cacabelos e quero é despachar-me.
A Chris, no entanto, hoje está mais lenta e quer é descansar calmamente e calmamente beber um chá.
Eu nem me sento para não arrefecer e passo aquela meia hora a caminhar para trás e para a frente no café. O meu joelho recomeçou a dar sinais de si. Quero chegar logo ao albergue, pôr gelo e descansar. Já sei que a partir de agora as cores vão começar a apertar e quero chegar antes de piorar, antes de chegar ao ponto a que chegou ontem.
Ficamos ali o que a mim me parece uma eternidade e finalmente retomamos o caminho.
Continuamos por uma estrada/rua e a Chris diz-me para ir ao meu ritmo. De facto ela hoje está a andar muito devagar e eu não consigo andar a esta velocidade. Peço-lhe desculpa, digo para me gritar se estiver em dificuldades e avanço, depois de lhe perguntar se não quer pedir boleia a alguém para ir até Cacabelos. Diz que não.
Sinto-me mal por deixá-la para trás, mas se sigo à velocidade dela, não vou conseguir chegar a Cacabelos. O joelho vai começar a doer muito, eu vou cansar-me muito mais e mais vale que ao menos uma de nós esteja menos mal.
De vez em quando olho para trás e ela faz-me sinal de que está tudo bem. Sempre que a vejo mais longe, faço uma breve paragem e espero que se aproxime mais.
Voltamos a entrar no mato, logo depois de cruzarmos a auto-estrada. É engraçado pensar que estas pessoas que passam aqui em baixo, fazem em 15 minutos o que nós levamos um dia inteiro para fazer. Mas não apreciam a paisagem como nós. Não caminham no bosque, não ouvem os pássaros nem a água a correr nos rios, não cheiram a natureza...
Algo me diz que estamos quase em Cacabelos.


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Espero pela Chris encostada a esta placa e daí seguimos juntas outra vez.
Conta-me então uma série de coisas da sua vida, onde mora, o que faz...
Estamos mais animadas, embora eu sinta fome... lembro-me do pão e do presunto que trazemos dentro das mochilas: assim que chegar ao albergue como.
Engano o estômago com uns amendoins e um quadrado de chocolate (já estou enjoada de chocolate).
Estamos num bosque outra vez e recomeçou a chover.
Volto a avançar que as dores apertam.
O sol volta e eu colho uma florzinha para dar à Chris quando voltar a esperar por ela.
De repente aparece uma placa a dizer que estamos em Cacabelo, mas não se vêem casas nenhumas.
Ainda demoro um bom bocado até encontrar, depois de uma estrada, uma placa a dizer "Cacabelos 2km.".
Porra... ainda?
Merda de plaquinhas que só servem para me dar notícias ruins...
Há um tronco pequeno e encosto-me a ele enquanto espero pela Chris. Quero entrar com ela em Cacabelos. As minhas pernas doem um pouco e eu recordo que já não me sento desde Fuentes Nuevas. Mas já falta pouco.
Dou-lhe a flor e seguimos.
A entrada em Cacabelos é uma descida enorme e eu já não sei como andar... De manhã descia de lado e é o que tento fazer agora.
Finalmente vejo casas, ao longo de uma rua enorme. Estamos em Cacabelos. A Chris vem lá atrás e eu sigo assim mesmo. Encontramo-nos no albergue que deve estar mesmo ali...
Mas não está. Não vejo indicações nenhumas. Nem setas, nem vieiras, nem nada a anunciar um albergue. Nada!
Sigo pela mesma rua.
Há várias famílias a entrar em rastaurantes. Olham para mim como se fosse um ET e sinto-me desconfortável. Não deveriam estar habituados a peregrinos?
Mas onde raio está a porcaria do albergue? Começo a odiar esta cidade.
500m mais à frente há uma igreja. De novo tudo a olhar para mim...
O meu guia diz que é já no fim da cidade, seguindo por esta rua grande e eu sigo. Encontro uma velhota a quem pergunto pelo albergue.
"Oh... está fechado!"
O QUÊÊÊ????
Cai-me tudo!
Fechado?!? O que é que eu faço agora?
Não, a senhora está enganada, de certeza absoluta. Tem de estar aberto. Lembro-me de ontem à noite o António ter dito qualquer coisa do género... "o albergue pode estare fechado e então são mais 8 km de caminho".
Não é possível.
A velhota diz-me que tenho de ir ao Ayuntamiento, que lá sabem dar-me informações.
Não sei onde está a Chris, mas imagino que venha pela mesma rua comprida por que eu vim. Espero então por ela na igreja.
As palavras da senhora ainda ecoam na minha cabeça. Pobre Chris quando souber...
Tenho ainda esperança que a senhora se tenha enganado. No meu guia diz que no Inverno o Ayuntamiento disponibiliza umas camas não sei onde. Mas estamos na Primavera, por isso o albergue deve estar aberto. A senhora é que não sabe... Tenho a certeza que no Ayuntamiento vão dizer-nos isso mesmo. Rezo para que seja assim mesmo.
Ou quem sabe se no Ayuntamiento não nos levam até Villafranca...
Estou encharcada, cansada, cheia de dores no joelho e cheia de fome. Sinto-me porca e preciso mesmo de um banho... um banho quente para me aquecer o corpo e o espírito... e os nossos amigos para darmos umas risadas e esquecermos este dia... uma cama e roupa seca e lavada.
Já não tenho coragem para voltar pela mesma rua sem fim e espero pela Chris à porta da igreja.
Começo a ouvir um tok-tok e percebo que é ela que está a chegar. Ela tem esta mania de continuar a usar o cajado mesmo nas cidades, contra o asfalto. Tok, tok, tok... e ela chega. Vem com dois velhotes que lhe indicam a Polícia.
Então é verdade. O Albergue está fechado e ela já sabe. Temos de ir à Polícia para saber mais, é o que nos dizem.
Porquê a polícia?!?
Tudo nos passa pela cabeça: vão dizer-nos onde é o albergue, vão pôr-nos num daqueles milhentos hostales (esta cidade só tem hostais e restaurantes), vão levar-nos a Villafranca.
Chegamos à polícia e explicamos a umas pessoas que estão à porta o que ali estamos a fazer.
Dizem-nos que temos de esperar pela Polícia. Elkes afinal são só utentes.
Sentamo-nos sem dizer uma palavra, nas escadas, de mochila às costas. Recomeçou a chover.
Estou triste e odeio esta cidade.
Ainda tenho esperança de que nos digam que o albergue está aberto, mas começa a desvanecer... talvez haja outro e os velhotes não saibam.
A polícia não chega.
Merda de terra... nem a polícia está no seu posto?
Estou cheia de fome. Há na praça um café. Não tem grande aspecto, mas desde que esteja seco e tenha comida, por mim está óptimo. Quero uma sandes, ou uma sopa, ou qualquer coisa...
Digo à Chris que vou até lá comer, enqaunto a Polícia não vem e ela decide vir comigo.
Sentamo-nos e consultamos o meu guia...
Detesto Cacabelos.
O homem do café confirma a história: albergue fechado, só a polícia sabe onde podemos dormir, devem estar a chegar. Pelos vistos é normal que a polícia não esteja ali...
Só tem bolos e torradas. Peço uma e vou à casa-de-banho. Estou toda suada e sinto mesmo necessidade de tomar um banho. Olho a minha cara ao espelho: a minha pele está um nojo... só pontos negros e borbulhas... tenho a pele super-gordurosa. Acho que estou mais magra. A minha cara parece mais pequena e as calças estão mais largas.
Volto para a mesa e mais uma desilusão: é só mesmo uma torrada, de panrico... Ai que fome...
Estamos as duas tristes e cansadas e pouco falamos.
Entram os franceses que estavam em Santa Catalina e em El Acebo. Estão felizes.
A Polícia chega. Pagamos e vamos embora. O dono do café diz-nos que serve pequeno almoço a partir das sete, que precisamos comer bem porque amanhã espera-nos um dia difícil, com muitas subidas. Agradecemos, sorrimos e saímos.
Ainda tenho uma pequena esperança de que a Polícia nos leve até Villafranca, ou nos diga que nesta altura temos de ficar em determinado hostal.
Entramos e pergunto onde é o Albergue. Explica-me ónde é e pronto. Duas ruas para trás. Só isso. Ficámos ali meia hora só para isto.
Respiro fundo e saio para a rua. A caminho do albergue encontramos um Centro de Saúde. Amanhã, antes de partir, venho aqui. O meu joleho está a doer outra vez. Não é tanto como ontem, mas doi.
Chegamos à rua onde fica o albergue, mas não há nada a indicá-lo. A rua está em obras e tudo me parece desolador.
Descobrimo-lo finalmente, mas não percebemos como fazemos parea lá chegar... há um buraco enorme e umas tábuas, mas parece-me complicado subir aquilo tudo. Numa das janelas um homem de cabeça de fora diz-nos que temos de dar a volta pelo outro lado... ir até ao fim da rua e dar a volta... que seca.
Entramos finalmente, mas não há ninguém ali. Não há sequer um carimbo. É uma espécie de cozinha, minúscula, suja, sem luz. Logo a seguir um quarto. Tem dois beliches e parece-me todo ocupado. Há mochilas por todas as camas. Ao lado, há outro quarto. Este está vazio. Tem dois beliches e está nojento.As almofadas estão cinzentas e os resquardos dos colchões quase não existem. Tenho a sensação de que estou a ficar doente... Isto deve estar tudo cheio de ácaros e bichos e doenças...
Há uma escada estreita até um primeiro andar e apesar das dores, subo. A Chris vem logo atrás.
Lá em cima mais dois quartos. Um ocupado, outro vazio. Em nenhum reconheci as mochilas dos espanhois ou do americano.
O quarto que está vazio está em melhor estado que o de baixo, mas ainda assim está muito sujo... um nojo autêntico.
Há alguém a tomar banho.
Pouso a mochila no quarto que está vazio. A Chris senta-se numa das camas. Olhamos uma para a outra e não dizemos nada. Não sabemos o que dizer.
Não tem aquecimento.
Eu estou desolada. Lembro-me de Santibañez e não quero repetir. Não hoje... É que ao menos quando estivémos em Santibañez o dia tinha sido muito bom... o de hoje nem por isso.
Não sei o que fazer. Não posso ligar à minha mãe. Não quero ficar aqui, mas continua a chover lá fora, estamos cansadas e doridas e ainda são 8 km até Villafranca.
A Chris sugere irmos para um hostal. Não deve ser tão caro assim e pelo menos temos aquecimento. Podemos lavar roupa e secá-la nos aquecedores.
Eu não sei o que fazer.
"Olha só, Joana, se nós virmos que não conseguimos chegar a Santiago no dia 3, pegamos um ônibus e pronto. Mas não podemos continuar fazendo essas etapas tão grandes..."
"Não pode ser Chris... ao menos que façamos os últimos 100 km a pé. Se é para apanhar um autocarro, que seja agora. Depois não. Já fizémos mais de 100 km, não vamos ficar sem diploma."
"Ah é? Então, vamos fazer isso Joana. A gente apanha um autocarro até um sítio que fique a 100 km de Santiago e passamos a fazer uns 10 km por dia, nas calmas, para podermos ver as cidades... hoje nem tivémos tempo de ver nada..."
Ela tem razão. Fiquei com um nó na garganta por não ter visto Ponferrada. Passei a correr. Nem sequer o caminho até Ponferrada... e era tão bonito... A ideia de fazer 10 km por dia com calma, agrada-me, mas apanhar um autocarro... quero caminhar tudo... mas de facto estamos mal... logo se vê.
A casa-de-banho fica livre e eu vou lá espreitar. Que susto! Nem consigo descrever. Chamo a Chris para ver, mas ela recusa-se.
-"E agora? Você quer ir para um hostal ou quer ficar aqui? Fazemos como você quiser."
-"Ai Chris, não sei... o que é que tu preferes? Não consegues caminhar mais duas horas? Íamos até Villafranca. Eles de certeza foram para lá. Eles devem ter seguido."
-"Não consigo. E se lá é igual aqui? Ao menos num hostal sabemos que temos água quente e calefacção. Podiamos lavar nossas roupas, dormir numa cama, ter toalhas... A gente fica num hostal e amanhã pegamos um ônibus até perto de Santiago."
-"E se nós apanharmos um táxi até lá? Ou pedirmos boleia? Vamos caminhando calmamente e se virmos que não dá, pedimos boleia..."
-"E amanhã voltamos aqui? Aí vamos estar interrompendo nosso caminho... "
-"Tu não queres apanhar um autocarro até perto de Santiago? É igual. E há muita gente que, não podendo caminhar, chega aos albergues de carro. Se em Villafranca for como aqui, pelo menos temos lá os nossos amigos e fica mais fácil... eu hoje não consigo ficar aqui... vou ficar muito deprimida... depois de um dia assim... Vamos fazer assim: vamos ver o preço do hostal e o preço do táxi. Aqui não ficamos."

Pegamos nas mochilas e saimos. O joelho já quase não doi e acho que sou capaz de caminhar os tais 8 km. Pergunto à Chris, mas ela está muito queixosa.
Entramos no primeiro hostal. O quarto mais barato que têm custa €24 e não tem banho privativo. Tem calefacção, no entanto. O táxi até Villafranca custa €8. Ou seja, temos de escolher entre €12 ou €4+albergue.
Fica mais barato ir até Villafranca. Vamos até à praça. Não há taxis... puta de terra! Odeio Cacabelos.
Umas pessoas saem de um baptizado. Estão todas secas e cheirosas. Sinto pena de mim... que raiva. Rezo e peço a Deus um sinal. Não me sinto confortável com a minha decisão. Nem com a ideia de ficar num hostal. Nem com a ideia de ir de autocarro até não sei onde.
Um das senhoras bem vestidas pergunta-nos o que esperamos. Diz-nos que esperemos um pouco porque alguns taxistas reformaram-se há pouco tempo e agora há menos. Mas ele deve estar a chegar.
Esperamos 15 minutos.
Volto a pedir a Deus um sinal: se o táxi não aparecer em 5 minutos devemos ficar no hostal. Digo à Chris que esperamos só mais 5 minutos.
Estou farta de esperar e dois minutos depois digo-lhe que é melhor irmos para o hostal. Quando já estamos a caminhar, chega o táxi. É o sinal.
-"Chris, é um sinal! Pedi a Deus e este é o sinal!"
O taxista confirma os €8 até Villafranca. Entramos. Perguntamso pelo albergue. Diz que há dois, um deles é privado, mas não sabe qual é o melhor, porque nunca ninguém se queixou. Diz-nos que nos leva ao provado e que ali nós decidimos. O municipal fica só a 150 metros e podemos ir lá vê-lo.
Pelo caminho vejo alguns peregrinos. Chamam-me à atenção três mulheres, italianas. Sei que são italianas pela marca das mochilas: invicta. Todos deve ir para Villafranca mas só daqui por duas horas chegarão. Sinto-me culpada por ir de táxi.

Villafranca del Bierzo (5º dia-parte II)

Chegamos a Villafranca del Bierzo e já está sol.Entramos no tal albergue privado: Ave Fenix.Entramos para uma espécie de sala de refeições/café/restaurante/cozinha.Entramos e um homem de bigode e barba mal feita dirige-se a mim com um grande sorriso. Diz-nos para tomarmos um café que oferece ele e pergunta-me pelo meu joelho. Tira-me a mochila e faz-me uma massagem nos ombros. Dói no início, mas sabe bem. Nem imaginava que tinha tantas dores nos ombros. Sempre a sorrir, pergunta se tenho muitas dores.Eu acho que já nem cocheava.Digo que sim, que agora está melhor, mas há pouco tinha muitas dores.Sem parar de sorrir, nem de massajar, pergunta a alguém quantos peregrinos estão marcados para o jantar."Dez", reponde um pequenote com ar frágil e amaricado."Marca mais duas, que estas convido-as eu!"Já não temos como procurar o outro albergue e eu desejo que os nossos amigos estejam ali. Rezo e agradeço a Deus por aquele sinal. De facto eu tinha de vir para aqui hoje!O homem pára a sua massagem.Estende uma mão por cima da minha cabeça e outra por cima do meu joelho. Não me toca. Limita-se a estender as mãos. A Chris olha para mim. Há mais umas pessoas no albergue. Olho em volta. Eu ainda estou na porta de entrada. à minha frente, duas mesas compridas, de taberna, com bancos corridos. No tecto de madeira estão penduradas várias cabaças e presuntos, nas traves. Na parede, várias molduras com recortes de jornais, cujas notícias não consigo ler.
O homem pára e com o mesmo sorriso aberto que já me aqueceu o coração, diz-me para andar um pouco, subir e descer as escadas que dão acesso à cozinha. Estou maravilhada! O meu joelho está óptimo Já nem incomoda!"Bebam um café!"Sentamo-nos e obedecemos. Ali é tudo self-service. Tem os preços e o peregrino serve-se e paga.Tinha decidido que já não ia beber café, para poder dormir de noite, mas não posso fazer uma desfeita destas. Fazemos o "check-in"., Quem nos atende é um homem com bom ar, bem arranjado e alegre. Como a Crhis é brasileira, mostra-nos uma foto com uma estátua de Nossa Senhora que o Jésus ofereceu não-sei-a-quem na Aparecida. Não percebemos bem a história, mas percebemos que o homem das massagens chama-se Jésus.O Albergue custa €6.Tem água quente e aquecimento.Podemos lavar as roupas porque tem máquina com moedas. Mas se a quisermos secar, temos de a estender e à noite eles põem o estendal lá dentro com um termoventilador ligado.O senhor bem parecido, que afinal se chama Ángel, leva-nos as mochilas e mostra-nos o caminho até ao quarto. Temos de sair e subir umas escadas. O albergue é engraçado. Tem um alpendre com uma mesa e banco corrido. Em frente das escadas, uma casa-de-banho sanitas e duches de água quente. Do lado direito, lá ao fundo, uma outra igual àquela mas só com água fria.As botas devem ficar cá fora, numa estante especial, e os cajados também, num outro sítio especial.à esquerda mais uns degraus. Uma porta em frente que diz "jovens" e outra à direita que diz "maiores de 50 anos".O nosso quarto é o dos jovens e está vazio. Tem muitos beliches e é muito apertado, mas muito castiço, com uns troncos a decorar.
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agradecemos e despedimo-nos. O jantar é às 8h30.
Não consigo falar com a miha mãe e ainda bem. Ela ia perceber que eu estou triste. Falo antes com a minha irmã Filipa e peço-lhe que passe a mensagem à minha mãe. Digo-lhe que acho que estou com uma tendinite, mas peço segredo. De resto estou bem e muito contente por estar ali naquele albergue.
Recebo a habitual mensagem de apoio do meu meu e respondo-lhe contando os nossos planos: amanhã apanhamos um autocarro até um sítio qualquer e fazemos os últimos 100 km nas calmas. É mais uma forma de colher aprovação para a minha decisão do que outra coisa... No fundo eu própria ainda não estou muito convencida e tenho esperança de que amanhã o meu joelho esteja curado (afinal estou com um curandeiro) e eu possa caminhar.
O meu pai acha uma excelente ideia e eu sinto-me menos mal. Mas ainda não estou convencida.
Vamos finalmente tomar banho. Decidimos não lavar as roupas porque não confiamos muito no procedimento de secagem. Ainda por cima está a chover... não me parece mesmo que sequem e eu só tenho uma muda de roupa.
Quando entro para o banho a Chris já está a tomar o seu.
"Chris, como está a tua água?"
"Já não estava muito forte, mas agora que você abriu a sua, ficou pior... imagino como tá aí!"
"Tenho dois fios de água, nem sei como vou tirar o champô..."
De facto a água não tem pressão nenhuma, mas paciência. No albergue manhoso de Cacabelos percebi pelo barulho que tinha pressão. E devia ser bem quente que ficou tudo com vapor. Paciência. Prefiro estar aaqui do que em Cacableos onde nem uma sala para estar havia.
De repente a água começa a arrefecer brutalmente. A da Chris também, mas ela está a acabar. Fecho e abro várias vezes, mas cada vez está mais gelada. Ainda estou toda ensaboada e já não há água quente... Respiro fundo e ponho-me debaixo do chuveiro. Vai mesmo com fria que faz bem à circulação. Em dois minutos tomei banho e tenho a sensação de que o champô ficou ainda no cabelo. E o sabonete no corpo.
Na porta da casa-de-banho está um letreiro: "O turista exige, o peregrino agradece."
Já o tinha visto em Santibañez de Valdeiglesias. Começo a desconfiar destes cartazes... estão nos piores sítios. Devem ser uma espécie de aviso.
Vestimo-nos e voltamos para o quarto. Ouvem-se vozes em baixo: estamos mesmo por cima do comedor que é também entrada do albergue.
Comentamos o que se passou mal chegámos. O Jésus tem um poder qualquer: a Chris acha que eu já não cocheava e ele percebeu que das duas eu era a que estava pior. Veio logo ter comigo, com aquele sorriso aberto, convidou-nos para jantar, tratou-nos tão bem... Encheu-nos o coração! Ele sabia que estávamos a precisar daquela atenção toda.
De facto, nada acontece por acaso. Eu pedi a Deus um sinal e Ele deu-mo. Eu tinha de estar ali esta noite. Eu precisava de encontrar Jesus e este albergue. Na vida, como no Caminho, as setas amarelas a guiar-nos... só temos é de estar atentos para perceber onde estão e qual o sentido que indicam. E aceitar que elas existem e nos indicam o caminho.

Angel vem chamar-nos para o jantar e enquanto descemos diz-nos que nos leva de carro até O Cebreiro amanhã. Tínhamos pensado fazer a subida em duas etapas e sempre são dois dias que ganhamos. Se assim for, talvez não precisemos de apanhar autocarro nenhum... ele leva-nos lá e nós começamos logo a caminhar.

À mesa estão já vários peregrinos, todos à nossa espera. Há duas garrafas de vinho e pão.
Os nossos amigos não estão ali.
São muitas caras desconhecidas e isso deixa-me desconfortável. Parece que estou nos primeiros dias outra vez. No fundo eu sinto que não devia estar ali mas em Cacabelos. Saltei uma parte do caminho.
São todos velhos e não me apetece conversar com ninguém. Mas sentamo-nos no meio da mesa, por isso não temos alternativa.
Há duas finlandesas, um casal francês, um holandês e um belga, um dinamarquês, um inglês e mais dois que não me lembro.
Chega a sopa: couve com batata. Está óptima. Apercebo-me que estou cheia de fome e então lembro-me que desde o meio dia que só como amendoins e chocolate. E mesmo ao meio-dia foi só um petisco de polvo.
Como e repito a sopa.
Olho os recortes de jornais, emoldurados e pendurados na parede. Todos falam de Jesus. Todos têm fotos suas a curar. Alguns são em alemão e eu não percebo o que dizem. Mas uma coisa é certa: ele é de facto um místico e é reconhecido internacionalmente.
Chega a salada e a carne. É qualquer coisa panada com uma fatia de courgette em cima. Há no meio e salsichas a substituir a carne. Angel diz-nos que a carne afinal não chegou para todos e que teve de ser substituida por salsicha, mas que há mais salsichas para quem quiser. Percebo que foi por nossa causa que a comida não chegou para todos. Ninguém se apercebe porque ninguém explica, mas ninguém se queixa. É este o espírito do Caminho!

Chegam as 3 pregerinas que eu tinha visto do táxi. Confirma-se que são italianas. Chegam ensopadas e cansadas (e provavelmente esfomeadas) e eu sinto-me mal por lhes ter passado à frente. Ángel repete o que já havia feito connosco e pega nas 3 mochilas para as levar ao quarto.
A sobremesa chega: uma metade de pêssego em calda para cada um. Sobra uma metade e eu não tenho coragem de repetir.
Compro então um bolinho para atamancar o estômago.
O jantar acaba e nós pensamos ir até ao albergue municipal espreitar se os espanhois e o americano estão lá. Mas está a chover outra vez e estas já são as roupas de dormir. Não as podemos molhar. Além disso, estamos muito cansadas. Amanhã levantamo-nos cedo e vamos lá.
Quando estamos a voltar para o quarto, Ángel passa por nós com uma botija de gáz. Diz que o gáz acabou e que não devemos tomar banho. Ele já vai mudar.
Então foi isso... Nós nem nos queixámos, nem reclamámos, nem fomos perguntar o que se passava e tomamos banho mesmo frio (gelado!!!), quando podíamos ter tomado um banhinho quente, se tivéssemos dito alguma coisa. Fico orgulhosa de nós e da nossa atitude humilde: somos autênticas peregrinas!
"O turista exige, o peregrino agradece."
AChris lê o que diz o seu guia sobre o nosso albergue. Parece que foi todo destruído num incêndio e que tem sido reconstruído com donativos.
Deitamo-nos, porque está frio, e ficamos a conversar na cama.
Às 11h30 apagamos as luzes.
Rezo. Agradeço a Deus por estar ali em Villafranca, pelo sinal que me deu, por me ter feito experimentar o espírito do Caminho desta forma e peço-lhe que me deixe caminhar amanhã.
Começo a pensar que talvez consigamos... podemos pedir ao Ángel que nos deixe a meio do caminho, por exemplo em Vega de Valcarce, ou Herrerias. Quero subir O Cebreiro! Sim, talvez consiga. O meu joelho já não doi...

NOTA: algumas fotos foram "roubadas" daqui, onde se pode ler mais sobre o albergue Ave Fenix e sobre o próprio Jésus.