Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

segunda-feira, abril 25, 2005

6.º Dia: Villefranca Del Bierzo - O Cebreiro

Dormi muito mal, para variar.
Desde que comecei o Caminho ainda não consegui dormir uma noite seguida, sem acordar dez mil vezes durante a noite.
Ontem encontrei aqui um cobertor com cetim à volta, parecido com o meu... ai que saudades do meu cobertor...
Dormi com dois cobertores por cima do saco-cama e a minha cama era, segundo Ángel, uma das melhor localizadas. Estava ao lado da saída de calor da salamandra do comedor, mas mesmo assim tive muito frio. Ontem à noite estava cheia de arrepios e hoje acordei com algumas dores de garganta. Só espero não estar a ficar doente... Hoje vou tomar duas vitaminas e pronto!
Ontem à noite os peregrinos ficaram no comedor até bastante tarde e mesmo com os tampões nos ouvidos, conseguia ouvir todo o barulho que faziam. Esta manhã, bem cedo, a mesma coisa... esta gente não dorme!
Durante a noite acordei com muitas dores no joelho... acho que afinal vou ter de aceitar a boleia do Ángel até O Cebreiro...
Levanto-me finalmente e desço, a muito custo, para tomar um café. O joelho hoje dói mais... Há aqui um Centro de Saúde e já que Ángel nos dá boleia, então não preciso ter pressa hoje e vou até lá antes de subirmos.
O dia está lindo! Tento ir agora ao albergue municipal. São 7h30 e eles ainda não devem ter saído. Mas o joelho dói demais e não consigo. Desisto. Subo para o alpendre e fumo um cigarro enquanto vejo os peregrinos a sair. Que inveja... O casal francês vai de bicicleta.
Há muitos que deixam ali as suas mochilas porque Ángel leva-as ao Cebreiro. Esta subida é uma das mais difíceis do Caminho. Há alguns peregrinos que vão de carro até meio da subida, também.
Volto para o quarto e a Chris está já quase pronta. Descemos juntas para que ela tome o seu pequeno almoço. Eu bebo mais um café e como um bolo de maçã. Ali só há bolos de pacote.
Ángel diz-nos que sai às 10h30 e a Chris pergunta se há ali coreios. Ele diz que sim e explica onde. Ela quer mandar mais roupas para Santiago. Eu pergunto pelo Centro de Saúde e ele explica. Pergunta se é por causa das bolhas da Chris. Dizemos que não, que é por causa do meu joelho.
"Por isso, não! Só te vão dar anti-inflamatórios. Jésus trata disso muito melhor!"
Jésus confirma e pede-me para pôr a perna em cima das suas.
A Chris decide então ir separar as roupas que quer mandar para Santiago.

Eu fico ali, de perna estendida em cima das de Jésus.
Ele inicia então o que já tinha feito ontem: põe uma mão sobre a minha cabeça e outra sobre o meu joelho, sem me tocar. Fica assim um bom tempo, até que começa a passar as duas mãos por cima da perna, desde o joelho até ao pé, como se estivesse a tirar água. No pé sacode as mãos. Faz isto várias vezes e diz-me: "agora vou curar-te".
Passa pomada e massaja o joelho. Dobra-o várias vezes e volta a massajar. E volta a dobrá-lo e a massajar. Começa a abanar a cabeça com ar preocupado. Ferra então um dedo nas minhas costas enquanto mantém a outra mão por cima do meu joelho. Ágel diz-me, na brincadeira, que agora é que vou chorar e Jésus começa a gritar com ele. Diz que está sempre a fazer isso e que assim não consegue trabalhar porque as pessoas ficam tensas. Discutem por um bom bocadoenquanto eu vou dizendo que percebi que era uma brincadeira. Agora sim, estou tensa...
Lá se calam e o dedo do Jésus continua ferrado nas minhas costas. Ele tem as unhas compridas e magoa-me.
Volta a dobrar o meu joelho várias vezes e a massajar enquanto abana a cabeça de preocupação...
Ángel vai falando da sua visita ao Porto.
As italianas chegam para o pequeno almoço e uma delas pergunta o que se passa. Diz que é médica. Jésus diz-lhe que não tenho líquido nenhum no joelho. Sempre achei que isso era bom, mas o ar dele é de preocupação e eu fico assustada. Ela vê o joelho e não me parece preocupada.
"Agora já tem um pouco", diz ele, "mas há pouco não tinha nada... fazia assim..." (e imita o som de uma dobradiça sem óleo).
Ele volta a ferrar a unha nas minhas costas e eu observo-o. Tem a barba mal feita. Já não a deve fazer há vários dias. E também não deve tomar banho há muito tempo. E pelo cheiro, também não lavou os dentes hoje. Mas isso pouca importância tem. É um bom homem e deve ter uma boa vida: simples e sem grandes preocupações. Faz aquilo que gosta e em que acredita, todos os dias vê pessoas diferentes e vive no Caminho! Está impregnado do espírito do Caminho e vive ali todos os dias! Invejo-o. Invejo aquela simplicidade. Invejo aquela vida.
"Não consigo. Tens de descansar. O líquido agora vai começar a descer, mas tens de descansar."
Pronto. Não posso mesmo caminhar. Tenho de aceitar a boleia do Ángel e ficar n'O Cebreiro. Dá-me um nó na garganta e engulo as lágrimas. Respiro fundo. E se for grave? A rapariga canadian vem-me outra vez à cabeça. Será que um dia de descanso é suficiente? Eu queria tanto subir O Cebreiro... Vou perder a parte mais bonita e mais difícil do Caminho...
Volto a olhar Jésus enquanto ele termina a sua cura.
Contrasta com Ángel. Bem vestido, dos seus 50 anos, barba e cabelos brancos. A barba bem aparada e o cabelo limpo e penteado para trás. Tem ar de quem acabou de tomar banho.
Há ali mais dois homens cujos nomes desconheço. Um com ar frágil e amaricado, pequenino e muito falador. Dormiu no nosso quarto. O outro é calado e tem um ar sério. Ar de quem tem problemas e que está ali a fugir deles. Ou de quem encontrou ali a sua paz. Anda sempre com um cão e usa roupa rota de tão gasta que está e um gorro vermelho. É bonito e tem, apesar de tudo, um ar limpo. Há qualquer coisa no seu olhar que me atrai, embora ele raramente olhe para as pessoas. Tento imaginar o que faz ali e como foi ali parar. Acho que é inglês. Tenho a impressão que um dos peregrinos me disse isso.
Ouço os outros falar e percebo que é dele... que deixa o cão dormir no quarto, que tem o quarto desarrumado e o cão faz ali as suas necessidades. Sinto pena e ao mesmo tempo admiração.
Jésus termina a sessão e repete que tenho de descansar, que não é capaz de curar o meu joelho. Percebo, pela sua cara, que é raro. À minha volta os recortes de jornais confirmam-no.
Saio do comedor com o mesmo nó na garganta e subo até ao alpendre. Ali sento-me, acendo um cigarro e fico a observar O Cebreiro que eu não vou subir. O dia está lindíssimo.
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Já não me preocupo com nada e então deixo as lágrimas rolarem e o nó desfazer-se. O inglês passa, olha-me mas nem diz nada. Graças a Deus! Faz como se eu nem existisse.
Mais calma, entro no quarto. A Chris está a separar as suas roupas e eu começo a arrumar a mochila. Hoje não me preocupo com o que é que vai para onde. Não vou ter de a carregar e tanto faz se o saco-cama fica em baixo ou em cima. O nó volta e percebo que estou a ter pena de mim... e isso repugna-me.
Descemos juntas e pousamos as nossas mochilas e os nossos cajados onde já estão as dos outros peregrinos que já saíram.
As italianas vão de carro até meio da subida e Ángel diz-lhes que só parte por volta das 11h (ainda são 9h30) e o amaricado diz-lhes que até lá podem ir visitar Villafranca, a cidade mais bonita do Caminho. Decido ir com a Chris aos correios. Já que ali estou, ao menos que visite a cidade. Além disso preciso de comprar tabaco e de levantar dinheiro.
Andamos 200 metros e eu volto para trás. Estou com muitas dores, há muitas descidas e só vou atrasar a Chris. É melhor que hoje dê sossego ao meu joelho para que amanhã já esteja bom.
Chegou uma camioneta de velhotes peregrinos-de-autocarro que tiram fotos e entram no albergue para comprar recordações.
Entro também e olho o meu guia enquanto volto a engolir o nó... Não posso ter pena de mim. Estou num sítio maravilhoso, encontrei pessoas fantásticas e já fiz 120 km em 5 dias, com muita chiva e lama e vento e fome e dores. Sou digna de admiração e não de pena!
Espero que os peregrinos saiam, repiro fundo e pergunto ao amaricado se há autocarro desde O Cebreiro até Sarria. Sarria é uma cidade grande e fica a 116km de Santiago.
Ele diz-me que sim e que é um "ratito" até lá. Já estou com os olhos cheios de lágrimas e não aguento mais. O amaricado diz-me que não fique assim, que é mesmo muito rápido e que ainda assim faço os 100km que dão direito à Compostelana. Ángel vem ter comigo também... diz-me que não chore, que a peregrinação já a fiz, que ela está no meu coração e não na minha cabeça. Explico que já fiz 120km e que com aqueles 116, já dá quase 240km. No fundo digo aquilo alto para me convencer a mim, que eles não precisam de ser convencidos de nada. Sorrio e continuo a soluçar. Ángel diz os horários dos autocarros e onde temos de o apanhar. Devemos ir no das 7 da manhã (só há dois e o outro é às 5 da tarde). Agradeço e afasto-me. Sento-me num daqueles bancos corridos, com a perna em cima do banco, olho o guia e faço anotações enquanto espero pela Chris.
Custa-me engolir o meu orgulho e reconhecer que o meu corpo é limitado. Penso na minha casa e na minha cama e não sinto a menor vontade de voltar. Aliás, o nó aperta-se mais...
Aqui está mais uma lição do caminho: respeitar o meu corpo e humildemente reconhecer que não sou eu-cabeça quem decide o que fazer. É duro mas tem de ser. E tenho de guardar isto para toda a vida! E lembrar-me que é o corpo que paga pelo meu excesso de vontade. Vêm-me à cabeça as noites e dias de estudo intensivo, os fins-de-semana em que estive em casa a trabalhar... São dias que já não voltam e concerteza o meu corpo sentiu-se. E eu não o ouvi. E um dia ele vai reclamar e nessa altura, de pouco me valerá ter esta vontade toda de ultrapassar os limites.
Eu tenho limites, eles são inultrapassáveis e isso é apenas humano. Eu sou humana e tenho de reconhecer isso.
A Chris volta. Eu e Ángel explicamos-lhe a história do autocarro.
Entramos no carro e eu ainda soluço.
Enquanto subimos pela auto-estrada, olho para o Caminho, na esperança de ver os nossos amigos mas não vejo peregrinos nenhuns.
Olho o Caminho que eu deveria estar a fazer hoje, o sítio onde deveria dormir... e peço-lhe perdão por não o estar a percorrer. Peço a Deus e a Santiago que me deixem terminar o Caminho, que reconheço os meus limites, mas que ainda assim quero fazer os últimos 120 km de Sarria a Santiago. Digo-lhes que não me importo que o meu joelho rebente em Santiago e que eu tenha de ser operada, que eu nunca mais possa caminhar, mas que tudo isso aconteça só em Santiago... que até lá seja o menos incómodo possível para que eu consiga caminhar.
Chegamos a O Cebreiro em 15 minutos. Estamos no cimo do mundo outra vez e eu lembro-me da Cruz de Hierro.
Entramos no café onde vão ficar todas as mochilas que vão ficar a aguardar que os seus donos subam o percurso mais bonito do Caminho. Damos €5 a Ángel pela viagem e pedimos desculpa por não ser mais... a verdade é que entre as duas temos apenas €30 e ali não há sítio onde levantar dinheiro... Hoje vamos ter de almoçar e jantar e cada refeição custa perto de €8. Ainda temos de contar com o albergue e o autocarro de amanhã.
Despedimo-nos dele com um forte abraço e eu soluço outra vez quando me repete que não chore mais. "O caminho está aqui e não aqui! Não te esqueças!", diz-me ele enquanto aponta para o meu coração e para a minha cabeça.
Quando entramos a Chris abraça-me também. Reparo que é o primeiro carinho que nos fazemos! Agora parece-me uma mãe e volta a ser mais velha. Ela que já me parecia ter 18 anos como eu! Limpo as lágrimas e sento-me. Temos de decidir o que fazer em relação ao dinheiro. Temos de prescindir de uma refeição.
Perguntamos à dona do café, que é pouco simpática, onde podemos levantar dinheiro. Em Pedrafita, que são 4 km para trás e para baixo. Noutro dia qualquer, 8 km não seria nada, mas hoje é demais. Até 4 me parecem muito. Não, nós hoje não nos podemos esforçar.
Ela diz que há táxi, que o pode chamar e que deve custar seis euros ida e volta.
liga para alguém e explica o que é. Diz que já nos fez o preço de seis euros.
Chega o "taxi"... um carro particular sem taxímetro com uma senhora muito bem arranjada que conduz de luvas e toda inclinada sobre o volante. O carro é igual ao meu bolinhas mas mais velho ainda. Lembro-me do meu e sorrio. Não tenho saudades dele e nestes dias todos nem me lembrei dele!
Em Pedrafita do Cereiro tento levantar dinheiro com o Amez que volta a não funcionar. Porra!!! É novíssimo! Tinha acabado de receber o deste ano quando pedi esta segunda via... não me lembrava do código e tive de dá-lo como extraviado e pedir este. Ou seja, tenho de pagar mais uma anuidade, em dois meses, só para poder levantar dinheiro e agora esta porcaria não funciona! Vou fazer semelhante escândalo quando chegar a Portugal... Ainda lhes peço uma indemnização e tudo!
Levanto com o cartão de débito e mentalmente faço contas. Já só devo ter uns 200 euros na conta... se o amex não funcionar não sei como vou fazer... Já gastei 200 euros desde que cheguei ao Caminho, acabo de levantar mais 100. Tenho de começar a poupar que ainda tenho de contar com a viagem para o Porto.
A Chris também não consegue trocar os seus cheques e tem de levantar dinheiro com cartão.
Quando voltamos ao café d'O Cebreiro perguntamos pelo menú: custa €8 e consiste em sopa, ovos com bacon e batatas fritas, além do vinho, pão e sobremesa. Parece-nos excessivo para uns ovos e decidimos que ali não vamos almoçar. Mas ainda são 11h30, o albergue só abre à 1h, e nós temos fome. Comemos umas torradas deliciosas de pão caseiro com manteiga e compota e bebemos um café com leite. Estamos cheias de frio e a mulher acende, a contragosto, a lareira.
Sentamo-nos a olhar para o fogo.
É uma menos um quarto quando pegamos nas mochilas para ir até ao albergue.. É o único e é de donativo, o que para mim não é bom sinal. As camaratas são grandes, com uns 30 ou 40 beliches e uma casa de banho pequena para tanta gente. Está ainda vazio e escolhemos as camas que nos parecem estar mais reservadas. Pousamos as coisas e vamos comer para depois podermos tomar banho, lavar a roupa e descansar a tarde toda.
A hospitaleira é brasileia, está ali há 15 dias e diz que ontem esteve a nevar.
De facto está muito muito frio...
Admiramos a paisagem... é lindo isto aqui!!! A cidade é linda também...
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tudo é bonito! Um belo sítio para parar!
Corremos todos os mésons e decidimo-nos por um que tinha menu a €8 também, mas com carne. Chama-se Venta Celta. O ambiente é agradável e tem uma lareira.
Quando estamos a pedir, o empregado/dono pergunta-me de onde sou.
"Eu de Portugal, ela do Brasil"
"Portugal?!? Eu sou português!!! Meio português, meio brasileiro!!!"
Aquilo aquece-me o coração! O primeiro português do Caminho!!!
Pergunta-nos um monte de coisas e nós falamos, atropelando as palavras. Venho do Porto, ele viveu em Santo Tirso, a Chris de Brasília, ele conhece porque ia lá muitas vezes quando vivia no Rio, estamos hoje a descansar porque ela tem bolhas e eu uma tendinite, ele diz que devo pôr gelo e que mo dá quando formos embora, ele nasceu em Portugal mas viveu 23 anos no Brasil, o que é que fazemos, onde começámos o Caminho, etc, etc.
No fim pergunta-nos o que queremos ouvir: Rui Veloso, Marisa Monte... "Já sei. Tenho ali uma música que de certeza vocês vão gostar!"
Tem um sotaque abrasileirado e a cara lembar-me a do meu primo Pedro, nem sei bem porquê.
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De repente fiquei feliz outra vez e apercebo-me de que é mais uma partida de Deus. Nada acontece por acaso.
Apercebo-me pela primeira vez que tinha saudades de Portugal...
Pedimos dois menus. O vinho é muito bom e o pão delicioso! A sopa é fortíssima. É um creme de legumes e a mim parece-me que tem ervilhas. Tem uns pedacinhos de chouriço partidos lá dentro. Acho que ficava bem só com a sopa, mas sou peregrina e hoje não vou caminhar, por isso posso comer bem. Além disso é dia de recuperar energias para amanhã.
Chega o segundo: chouriço grelhado com ovo estrelado e batata frita para mim e costoleta panada com ovo e batata frita para a Chris.
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O portugês/brasileiro vem falar mais um pouco connosco. Chama-se Eduardo e nunca fez o Caminho.
"Como vieste cá parar?"
"Isso é uma longa história! Depois conto", e vai atender outra mesa. Também ele terá os seus problemas e também ele estará aqui a fugir de qualquer coisa, comentamos nós.
De sobremesa eu como o magnífico queijo d'O Cebreiro com mel e a Chris uma tarte Santiago com um óptimo aspecto. Descobrimo-la (à tarte) em El Acebo e não queremos outra coisa... é divinal!
Passamos ali uma hora ou duas e saímos mais animadas, com a promessa de voltar para o jantar.
No albergue já há dois peregrinos. Estão os dois deitados nas primeiras camas a seguir à porta. Os dois com ar doente.
A Chris conversa um pouco com a hospitaleira e descobre que se conhecem, ou que conhece a irmã da hospitaleira. Como o mundo é pequeno!
Tomamos banho (o chuveiro não é grande coisa, mas pelo menos é quente) e escolhemos a roupa para lavar (no meu caso não é difícil... é toda!!!)
A máquina funciona com moedas, mas não há detergente. Explicam-nos que temos de ser nós a levar detergente. Mas nós não temos nenhum!!! Eu só tenho um quadrado de sabão azul e branco e parece-me descabido estar a desfazê-lo para o pôr dentro da máquina.
A hospitaleira espanhola diz-nos que podemos comprar pastilhas na tienda. Lá me arrasto até à tienda que, obviamente, está fechada... é a hora da siesta.
Não vale a pena esperar que abra porque entretanto vão chegar outros peregrinos e temos de nos despachar. Vai mesmo com o champô e o gel de banho da Chris.
Enauqnto a máquina funciona, nós descansamos na saleta. Tínhamos comprado um jornal e a Chris lê-o para se inteirar do mundo. Afinal de contas, há seis dias que não sabemos nada... será que o Bush ainda é dono do mundo? Parece que sim. Mas parece que o Berlusconi se demitiu.
Passamos à máquina de secar e começa o drama. A máquina engole as moedas e não funciona... de maneira nenhuma. Ao fim de meia hora de busca intensa, lá encontramos a inútil da hospitaleira espanhola (a brasileira está a dormir), que nos diz que a culpa não é dela e que não há nada a fazer... Eu franzo a minha sobrancelha e cago para a conversa de que o peregrino só agradece. EU TENHO €1,5 LÁ DENTRO, ROUPA ENCHARCADA, ESTÁ FRIO E ELA NÃO VAI SECAR NA RUA!!! TUDO PORQUE ME DISSERAM QUE ESTAVA TUDO A FUNCIONAR!!!
Ela suspira fundo e começa a abanar a máquina. Miraculosamente começa a funcionar. Uff.
Passamos o resto da tarde a descansar e a ver os peregrinos chegar. Algumas caras são conhecidas: eram os que estavam ontem no Albergue Ave Fenix. De meia em meia hora vou espreitar o livro dos peregrinos que chegaram. Os nossos amigos espanhois são rápidos e de certeza que fazem O Cebreiro num só dia. Hoje devem ficar aqui.
O Albergue está quase cheio e eles não aparecem.
São seis da tarde quando nos fartamso de ali estar e decidimos ir dar mais uma volta pela cidade. Antes do almoço tinha visto um gorro bem quentinho numa loja de recordações. Não o comprei na altura porque estou em fase de contenção de despesas, mas a verdade é que está muito frio aqui e amanhã deve ser igual.
Mas são só €6, por isso vou lá buscá-lo.
A vista daqui de cima é linda!!! É de cortar a respiração!
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A loja de recordações afinal está fechada e nós entramos então na igreja.
Ouve-se um cântico lindíssimo e apetece estar ali dentro. Selamos as nossas credenciais ( o carimbo mais bonito do caminho) e compramos uma vela cada uma (€1,20). Acendemo-las e rezamos um pouco. Peço com muita fora a Deus, a Santiago e à Virgem do Caminho que me ajudem, que me deixem caminhar.
"Não te peço que cures o meu joelho. Peço-te apenas que as dores sejam suportáveis e que ele se aguente até Santiago. Aí pode rebentar, os meus ligamentos podem não ter mais arranjo, mas até lá, protege o meu joelho e deixa-me caminhar", rezo eu, já com as lágrimas nos olhos outra vez. Não quero voltar para casa antes do tempo e digo-lhes isso.

Voltamos para a Venta Celta. São 7 da tarde e ainda não temos fome. Pedimos vinho, só. Ele traz uns pedaços de chouriço maravilhoso.
Conversamos muito sobre nós e as nossas vidas. O Edurado explica-nos então a sua vida e de facto é arrepiante. Mais uma vez alguém muito importante, com um cargo de responsabilidade no Brasil, que devia ser muito bem pago. Vivia uma vida feliz até que aconteceu uma tragédia na sua vida e ele não aguentou ficar no Brasil. Viveu dois anos em Portugal mas não se adaptou e então vaio parar aqui, neste fim do mundo. Já aqui está há dois anos. A mulher dele é a cozinheira. Mantém a sua casa no Rio exactamente como a deixou e há alguém que a vai limpar todas as semanas. Sente muita falta do Rio e quer voltar... quando estiver preparado.
Pedimos então o jantar. Eu, como ainda estou cheia do chouriço do almoço, peço só uma sopa. Hoje temos de nos deitar muito cedo e não quero ir para a cama pesada.
Ao nosso lado sentam-se os dois peregrinos que passaram a tarde toda nas camas da entrada. Continuam com um ar de infelizes. Conversamos com eles. São os dois de Alicante e começaram ontem ou anteontem o Caminho. Decidiram numa semana e portanto prepararam-se menos ainda que nós. E começaram logo pelo pior sítio: O Cebreiro!!! Um é gordo e tem um ar seboso. Ele hoje nem se deve ter levantado da cama para tomar banho. O outro é magro. Os dois têm ar de parvos. Estão mortos de cansaço, o gordo tem os joelhos "jodidos" e ri-se da sua própria estupidez... É daquelas pessoas que quando se ri abana-se todo, como se estivesse com convulsões. Nós rimos com ele. O magro mal olha para nós. Deve ser muito tímido e quase nem se ri. Dizemos-lhes que n´so também não estamos bem e que amanhã vamos para Sarria de autocarro para dali recomeçar o Caminho. O gordo também vai apanhar o autocarro. Diz que fica em Triacastela à espera do magro, depois caminha um dia, apanha outro autocarro e talvez faça o Caminho de autocarro. E de cada vez que fala ri e abana-se todo.
São quase 9h30 quando saímos de lá, depois de comermos uma tarte Santiago (estamos viciadas nisto) e beber um chá (para dormir melhor). Amanhã temos de nos levantar às 6h da manhã!!!
Despedimo-nos do Eduardo e da mulher (que é argentina) e dá-me um aperto no coração: nunca mais os vamos voltar a ver e já sinto um carinho tão grande por eles! Agradeço-lhes a atençaõ e a alegria que o Eduardo me deu! E a sopa maravilhosa da mulher dele! Boas pessoas, estas!
Para nosso espanto ainda é dia claro. Parecem 5 da tarde! Antes de lavarmos os dentes tiramos umas fotos porque ninguém vai acredutar que a esta hora estava esta claridade.
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Às 10 deitamo-nos com o dia claro ainda.
O Albergue está cheio e só no nosso quarto estão umas 50 pessoas. A casa-de-banho já está imprestável.
Deixamos tudo preparado para não fazer barulho de manhã, ponho a venda e os tampões nos ouvidos e rezo. Obrigada meu Deus por este dia bom, por estas lições, por me ensinares a ser humilde, por me dares estas alegrias todas, por me premitires ver estas paisagens bonitas, por me dares a oportunidade de conhecer estas pessoas todas,tão interessantes. Obrigada por tudo! Por me mostrares o sol mesmo quando parece que há nuvens...
Por favor, deixa-me continuara a aprender e a viver isto tudo! Deixa-me caminhar!