Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

terça-feira, abril 26, 2005

7.º Dia de Caminho, parte II: Sarria - Portomarín= 22,4km

Entramos num café mesmo em frente à subida.
Tomamos o pequeno-almoço e vamos à casinha...A casa-de-banho não é muito asseada, mas a vontade é muita... desde que tenha papel...
De barriga cheia e mais aliviadas, fazemos o aquecimento do costume (que saudades!), respiramos fundo e corajosamente subimos as escadinhas. Chegamos lá acima a arfar, mas o meu joelho não dói.
Sarria é sempre a subir e passamos por 500 albergues com bom aspecto. É um óptimo fim-de-etapa no próximo Caminho!
Um quarto de hora depois tenho de parar para me despir. Já estou cheia de calor! A mochila hoje pesa-me mais. Será que num só dia de descanso desabituei-me dela?
Depois de uma descida forte reentramos no campo! Ah que maravilha! Estou muito feliz! Não caibo em mim de contente! Estou outra vez a caminhar!!!A Chris sugere e nós começamos a cantar. Cantamos tudo o que sabemos e o que não sabemos inventamos. Que falta nos faz o Andrea... ele sabia estas letras todas.
A Galiza é lindíssima. Entramos num bosque com um riosinho minúsculo mas que faz barulho. À volta tudo é verde e fresco. E só se ouvem os nossos passos, os nossos cajados e as nossas vozes esganiçadas. Subimos e descemos várias vezes.Apareceu o sol e a paisagem é linda de morrer. O ar é puro...Cruzamo-nos com alguns peregrinos. Alguns são adolescentes (até agora não tinha visto ninguém com menos de 30 anos). Devem ser de uma escola. E deve haver muita gente a fazer estes últimos 100km.
Cruzamo-nos várias vezes com um peregrino que leva umas meias penduradas com alfinetes na mochila. Não secaram a tempo... Ora estamos nós à frente, ora segue ele à frente. De vez em quando pára para admirar a paisagem. É novo. Deve ter a minha idade.
Faz-me confusão estar a caminhar com alguém estranho. Ele aparece quando menos se espera e não sei como. Estou habituada a caminhar só com a Chris e raramente víamos outros peregrinos no Caminho. Mas nós nem nos importamos muito e cantamos (e desafinamos) na mesma.
Paramos 5 km depois de Sarria para tomar um café.
Eu estou completamente encharcada e já vesti e despi o impermeável umas 20 vezes. Está a ficar calor e então tiro a sweat e as calças semi-impermeáveis. Ali no café estão umas peregrinas alemãs que mal falam inglês. Começaram o Caminho dia 9 de Abril e esperam chegar a Santiago a 9 de Maio. Também elas tiveram problemas e tiveram de fazer parte do caminho de autocarro. Agora fazem também etapas muito curtas. Observam os pés da Chris e uma delas, que também padece do mesmo mal, sugere que a Chris não ponha mais talco e sim vaselina.
Fazemos um xixi e seguimos, alegres e satisfeitas. Estamos mesmo leves e felizes, hoje!
Estamos sempre em bosques e agora ouvem-se os pássaros. E vêem-se vacas e ovelhas. Até agora só tínhamos visto vacas em Foncebadón. Há agora muitas aldeias (a cada quilómetro há uma) e as distâncias parecem-me menores. Passamos por um trecho lindíssimo: há um lago ou um rio e temos de passar por cima de umas pedras.
Tudo é bonito! Cheira a campo e a vaca. Bosta de vaca... e por todo o caminho, sobretudo nas aldeias, há cócó de vaca...
Pouco tempo depois, logo após uma descida meio íngreme deparamo-nos com uns 500m de lama. Tem chovido muito e a lama está muito muito mole. Além do mais percebe-se que as vacas pisaram por aqui e portanto tudo fica mais mole ainda. Com muito cuidado e com a ajuda do cajado, tentamos descobrir pedras onde apoiar os pés. E com mais cuidado ainda, saltitamos de pedra em pedra, fazendo autênticos números de acrobacia. Não sei quanto disto é terra e quanto é caca de vaca e não quero arriscar uma queda aqui... Teria provavelmente muita sorte nos próximos anos mas não sei se terei onde lavar a roupa esta noite e antes azarenta e meio limpa do que sortuda cheia de caca até ao pescoço! De repente falta-me uma pedra e já não consigo equilibrar-me mais naquela pedrita minúscula. Encontro uma outra mais à frente, mas não consigo chegar lá com a perna e tenho mesmo de pôr o pé naquele misto de lama e caca... enterro o pé até ao tornozelo e salto para a pedra seguinte.
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Finalmente acaba esta parte e chegamos ao que julgamos ser o quilómetro 100. Pedimos a uns peregrinos que nos tirem uma foto.
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Mais adiante reparamos que estávamos enganadas e então tiramos novas fotos. Faltam 100 km para Santiago!!!
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Estamos com fome e eu já tenho dores no joelho outra vez. Precisamos parar, eu tenho de pôr gelo e a Chris precisa ver os seus pés.
Entramos num café em Ferreiros. Fizémos 13,2 km e ainda temos 9,2km para fazer.
Deixamos as nossas mochilas cá fora, onde há várias. Lá dentro alguns peregrinos. Mais do que estamos habituadas a ver. Até aqui eramos só nós ou no máximo o(s) mesmo(s) que tínhamos encontrado no albergue e que já conhecíamos. É estranho. Por um lado sinto que o meu Caminho foi invadido, por outro sinto-me eu a invasora... ao fim e ao cabo, eu deveria estar lá atrás...
Numa das mesas está o tal rapaz com quem nos cruzámos várias vezes esta manhã. Sentamo-nos na mesa a seguir à dele e logo nos descalçamos. Eu peço gelo e trato do joelho. A Chris dos seus pés. Ele observa e de repente pergunta já não sei o quê à Chris. Tem a ver com as bolhas. Eu mal o vejo porque a Chris está à minha frente. Ele tira uma coisa quadrada da sua mala e oferece à Chris. Explica-lhe que aquilo é uma espécie de penso, mas que tem uma almofada que lhe protege o pé. Ela corta à medida da bolha, cola e já não magoa tanto a andar, evitando assim uma tendinite. Ela agradece e diz que assim que chegar a Portomarín compra. Mas ele explica que lhe está mesmo a oferecer! É incrível! Não nos conhece, nem sequer sabemos os nomes uns dos outros, e ele está a oferecer uma coisa que imagino que ser cara, à Chris, só porque ela está necessitada! Isto é absolutamente extraordinário! É o espírito do caminho!
Digo à Chris para o convidar para a nossa mesa e ele vem.Começamos a conversar. Ele também vai ficar hoje em Portomarín mas prefere ficar num hostal de cabanas, porque está farto de albergues.Começou no Cebreiro no Sábado e veio fazer o Caminho para desconectar, como ele próprio diz. Pergunto-lhe o que faz, imaginando que é mais um advogado. Enganei-me. É director financeiro e tem além disso negócios próprios. Não admira que precise desconectar. Vem de Las Palmas.
Ele vai embora e despedimo-nos com um buen camino e hasta luego.
Também não nos importávamos de ficar nessas cabanas que têm bom aspecto, mas €30 é muito... já estamos no Caminho há uma semana e começa a ficar pesado... ainda por cima há o problema do meu cartão... nem pensar.
Acabo a minha empanada (que está óptima), o meu vinho e pedimos um café e uma tarte Santiago para dividir. Estamos absolutamente viciadas nesta tarte e temos de descobrir qual é a melhor antes de chegar a Santiago, para aí podermos comprar umas 20 caixas.
Massajo o joelho, ponho pomada e uma ligadura por baixo da joelheira. Dou-me conta de que já perdi uma das duas ligaduras que trazia, mas também não faz mal. Elas não são grande coisa mesmo...Recomeçou a pingar...
À saída encontramos um casal de peregrinos. Ele é moreno e tem ar de espanhol. Ela é loira, gorda e grande. O senhor pergunta à Chris se tem bolhas e ela diz que sim. Percebe-se que caminha com dificuldade.
A senhora pede-lhe então que a veja, porque ainda vai caminhar muitos quilómetros e percebo que ele deve ser médico. Pergunta à Chris se já as "pinchou". Sim. E sim, já pôs betadine. E sim tem compeeds. Pronto, está tudo bem, então. Está no bom caminho. Hasta luego! Buen Camino!

Apesar de bonito, este caminho não é muito fácil. Tem muitos montes, muitas descidas fortes e sou obrigada a deixar a Chris para trás. Tomei o anti-inflamatório, mas continuo com dores. E as descidas são o pior. Mesmo descendo de lado doi.
Continuamos a cantar sempre que estamos juntas. O nosso fôlego está muito melhor e conseguimos já caminhar e cantar sem nos cansarmos muito.
Encontramos uns adolescentes que devem fazer parte do grupo que vimos esta manhã, e caminhamos perto deles durante um bom pedaço. Passamos por várias aldeias cujos nomes desconhecemos. Em comum têm duas coisas: o constantes cheiro a caca de vaca e as inúmeras bostas pelo chão. Só há merda de vaca na Galiza!
Uma hora depois descansamos. É engraçado como já não precisamos de olhar para o relógio para ter a noção de quanto caminhámos. Sentamo-nos numa pedra para a Chris tratar dos seus pés e mudar as meias. Eu acendo um cigarro. Sabe-me bem esta pausa que também eu estava já aflita com dores. Já não sei o que é caminhar sem dores...Os adolescentes sentam-se ao nosso lado. Uma das meninas é lindíssima. Tem 17 anos, mas parece mais nova. São das Canárias e começaram no Cebreiro. Pergunto a uma senhora que passa, que aldeia é aquela. Ela responde e diz quanto tempo falta até Portomarín, mas já não me lembro.Os miúdos voltam a caminhar e nós ficamos mais um pouco. Decidimos que assim que chegarmos a Portomarín vamos ao médico. Há ali um centro de saúde e tem mesmo de ser. De hoje não passa.
Retomamos o caminho.
Esta é a parte mais custosa... Esta terra só tem descidas...Respiro como aprendi no yoga. Tento levar oxigénio ao joelho e vem-me à ideia qualquer coisa a propósito de tendinites. Lembro-me que se falou nisso... mas não sei já o que se disse. Na última vez que fui ao yoga pensei em falar à professora sobre o Caminho. Queria perguntar-lhe se haveria algum exercício que eu poderia fazer para evitar ou mesmo ajudar a curar uma tendinite. Mas fiquei com vergonha e nem falei... Ia dar-me muito jeito agora. Sinto uma coisa a prender-me o movimento do joelho e no fim de uma subida difícil sinto uma dor muito forte e muito rápida, como se essa coisa se tivesse rompido de repente, como se fosse um elástico a partir. Parece que dá um estalinho e eu quase caio com a dor. Grito e agarro-me a um mojón. E logo depois tudo passa. O joelho já não doi, já o mexo bem, tudo fica bem. Imagino que agora tenha sido de vez e que já rebentou por completo... tanto que já nem dói. Melhor assim e eu nem quero pensar mais no assunto.
Encontramos mais adolescentes. A chatice de ter esta companhia é que são sempre muito barulhentos. Falam alto, dizem palavrões... no fundo eles não estão a fazer o Caminho com o mesmo espírito que todos nós e nem entendem que os outros peregrinos o que querem é calma e sossego.

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Faltam uns dois quilómetros para Portomarín quando me aparece uma descida enorme! A mim só me apetece atirar-me para o chão e rolar até lá abaixo. O Caminho vai pela estrada, mas o asfalto é mais duro, é preciso fazer mais força e prefiro entrar por um campo adentro e descer por ali. Vou quase a correr para não ter de dobrar o joelho que entretanto voltou a incomodar (menos mal, talvez não tenha rebentado). Como vou muito mais adiantada que a Chris, penso mais. Nesta altura estou a tentar decidir o que será melhor: ir ao albergue antes de ir ao médico ou ao contrário? Tenho medo de, chegada ao albergue, já não ter vontade nem coragem para sair. É sempre assim. Depois de pousarmos as coisas e tomarmos banho, chegam as dores e mal podemos caminhar. Por outro lado, se for antes ao médico, como hoje há muita gente no Caminho (e esta escola), talvez já não arranje cama. Pelo menos uma cama boa. Hei-de ver o que a Chris prefere, assim que estiver com ela outra vez.
Finalmente avisto Portomarín mais perto. Há já uns 5 km que via a cidade, mas sempre muito longe. Agora está já ali. Mas antes dela uma ponte enorme... e lá ao fundo uma escada interminável que espero não ter de subir... a esta altura do campeonato, não consigo. Tento imaginar para que lado será o albergue para tentar medir a distância. Mas não sei. Espero só que não seja lá em cima... estas cidades grandes têm este problema: o albergue fica sempre lá no meio, ou no fim... e eu detesto caminhar na cidade... principalmente no fim de uma etapa.De repente olho um mojón
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O rio que passa à minha frente é o Rio Minho!!! Estou cada vez mais perto de Portugal e fico feliz. Estou mais perto do meu objectivo... eu que cheguei a duvidar... Tento perceber para que lado vai o rio, para me orientar, mas não consigo.
A Chris chega finalmente, a caminhar muito devagar e percebo que fica desiludida com a ponte que ainda temos de atravessar. Reclama qualquer coisa. A ponte deve ter uns 20 km! É o que nos parece a nós. Nunca mais chegamos!!! Estes finais de etapa são sempre assim...
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Finalmente acaba e de facto as setas amarelas apontam para a dita escadaria... não posso! São mil degraus! Nem pensar! Eu já sinto o meu joelho a latejar outra vez. Há outra seta a apontar para uma rua... mas é a subir, não tem jeito mesmo... o albergue é, tal como eu temia, lá em cima...Uns minutos depois chegamos ao albergue. Está cheio de miudagem... é uma confusão! Que saudades dos dias em que tínhamos o albergue só para nós...Pergunto à hospitaleira onde é o Centro de Saúde. Ela diz que hoje já não há médico. Só amanhã e só na próxima aldeia... O médico só está até às 3 da tarde. Hoje já são quase 5...Paciência. É porque não tem de ser.
Subimos.
É com grande dificuldade que arranjamos uma cama. Os miúdos chegaram primeiro e tomaram tudo de assalto. Ficamos com as camas de cima o que é uma chatice, mas são as únicas duas livres.
Chegámos cedo e hoje vamos poder descansar. Deitamo-nos imediatamente. A minha almofada cheira mal mas eu nem me importo. Reparo que as raparigas das Canárias trouxeram fronhas. Eu tenho a minha almofada insuflável, mas só o trabalho que ela vai dar para desencher amanhã, tira-me o nojo da que tenho por baixo da cabeça.
Estamos cansadas mas muito felizes. Voltámos ao Caminho e conseguimos fazer mais uma etapa! E não foi tão curta assim!
Combinamos que ficamos a descansar até às 6, hora a que iremos tomar banho para jantar depois. Queremos jantar cedo para dormir cedo. Afinal o dia de hoje foi longo e temos mesmo de descansar.Os adolescentes riem e falam muito alto, não dá para descansar e um pouco antes das seis levanto-me para ir tomar banho. A casa de banho está encharcada e imunda... e três meninas apenas, ocupam o espaço todo... só um quarto de hora depois podemos, a Chris e eu, tomar um banho de água quase fria. Os nossos banhos estão cada vez mais curtos e já nos lavamos perfeitamente em dois minutos!
Neste Albergue não há lavadora nem secadora e tenho medo que as roupas não sequem, até porque não há sequer aquecimento, por isso hoje não se lava nada. Nem cuecas. Ontem lavámos, mas hoje já está tudo sujo com caca de vaca... mas como amanhã teremos mais do mesmo...
Voltamos para as nossas camas nas alturas e iniciamos o ritual da noite: creme hidratante, pomada para as tendinites, costura de pés e betadine, creme para pernas cansadas... o melhor de tudo é o cheiro que fica e como não temos perfume...

Saímos por volta das sete esfomeadas. A cidade é bonita

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e tem duas igrejas que os nossos guias aconselham, mas estamos tão cansadas que mal nos conseguimos arrastar até ao primeiro café que aparece. Nem sequer procuramos outro sítio para comer. Queremos poupar dinheiro e imaginamos que não encontraremos nada mais barato que esta hamburgueria.
Por acaso ando com muita vontade de comer hambúrguer! E com a fome que tenho hoje como qualquer coisa.
Pedimos e regalamo-nos com uns hambúrgueres deliciosos. Hoje, para variar, não bebemos vinho. Pedimos antes duas cervejas… para cada uma! Que alcoólicas estamos… saímos daqui com uma cirrose…
Quando terminamos ainda não estamos satisfeitas. A Chris pede outro hambúrguer, mas eu acho que apesar de tudo não tenho fome para tanto. Prefiro comer uma sobremesa, mas a tarte Santiago aqui é caríssima.
Como precisamos de ir ao DIA fazer compras para o dia seguinte, deixo a Chris com o seu hambúrguer e vou lá eu. Compro duas embalagens de arroz doce, leites para bebermos no dia seguinte, chocolates, fruta e dois pares de meias de vidro que já perdi uma meia no Cebreiro, algures dentro da máquina de lavar…
Volto para junto da Chris enquanto ela bebe um chá. Estou cheia de sono… Hoje devo dormir bem.
Saímos e enquanto ela vai ligar ao Rodrigo eu vou para o quarto pousar as compras e banquetear-me com o meu arroz doce.
Ainda é dia e apetece-me aproveitar os bancos do albergue.
Saio de caderno debaixo do braço para actualizar o meu diário. O nosso “amigo” espanhol está lá, mas estou demasiado cansada para pensar em espanhol agora e sento-me num banquinho a escrever. Mas ele viu-me e vem ter comigo. Falamos um pouquinho. Muito pouco mesmo que eu hoje não estou para grandes conversas. Falamos de etapas e quilómetros. Ele diz que não quer chegar a Santiago antes de Domingo porque só tem viagem marcada para Segunda e não tem a menor vontade de passar uns dias em Santiago, que já conhece. Diz-me qual é o seu plano para os próximos dias e eu digo-lhe o nosso e explico que contamos chegar no Domingo e que tencionamos ficar uns dias em Santiago. Ele mostra-me que à velocidade a que eu tenciono ir, chego a Santiago no Sábado e não no Domingo.
Devo estar a ser antipática, mas estou tão cansada que nem me importo. Ele diz-me que sempre foi para as cabanas e eu imagino que se sinta só. Não sei onde são as cabanas, mas imagino que não sejam já aqui ao lado, até porque ficam mesmo à beira-rio. Se ele veio até aqui ao albergue, depois de um dia inteiro de caminhada, foi concerteza para se sentir mais acompanhado, que é aqui que estão os peregrinos. Sinto que deveria ser mais simpática e falar mais, mas o meu cérebro não responde. Fechou o tasco e não adianta.
A Chris chega e fala mais um pouco com ele. Eu já tinha dito que hoje estávamos muito cansadas (afinal levantámo-nos às 6 da manhã e eu mal dormi) e por isso despedimo-nos e subimos. Fico com pena dele, mas paciência… não me apetece fingir que estou com vontade de estar aqui. Afinal isto aqui é assim mesmo: não fingir nada. Ninguém me conhece, não preciso de ser aquilo que não me apetece ser.
Lavamos os dentes e deitamo-nos. Passa pouco das oito e ficamos um pouco a conversar. As nossas camas são tão juntas que parecem uma cama de casal. Rimos e conversamos como duas adolescentes!
Por volta das 9 horas, podres de sono, desejamos boa noite uma à outra, eu ponho a minha venda e os meus tampões e agradeço a Deus por estar de volta. Espero que estas crianças não façam muito barulho quando voltarem… mas eles andam todos num excitex lá fora que acho que não vou ter sorte.
Adormeço quase instantaneamente.


*as fotos assinaladas a asterisco são da autoria do peregrino Chano. :)

7.º Dia de Caminho, parte I: O Cebreiro - Sarria

Para variar, dormi muito mal.
Em cima de nós (salvo seja), dormiram uns homens pesados e barulhentos. Estava eu quase a dormir quando o "meu" chegou à cama. Nunca mais tive sossego... falou ao telemóvel durante meia hora, e depois não parou de se mexer a noite toda... e de cada vez que ele mexia eu acordava porque a cama abanava toda.
Além disso, eu estava com medo de não ouvir o telemóvel. Em El Acebo foi a Chris que o ouviu e que me acordou e no entanto ele estava mesmo ao meu lado...
Acordei várias vezes durante a noite e às 5 da manhã tirei os tampões dos ouvidos (a partir daí foi a sinfonia dos roncos...).
Às 6horas o telemóvel toca finalmente e tira-me da minha agonia. Salto imediatamente da cama, acordo a Chris, pegamos nas mochilas e nos cajados e saímos para o átrio para não fazer barulho. Subi para o rés-do-chão e arranjei-me no comedor. Ali ao menos estava à vontade e não fazia barulho a ninguém. E tinha água para me lavar.
Eu preparo-me em meia hora.
Já tinha saudades deste ritual de pós e pomadas e aquecimento e mochila. Sinto-me bem outra vez! Esta sim é a minha vida! Hoje volto para o Caminho!!!
A Chris demora mais tempo e eu fico nervosa. Mas apresso-a com jeitinho. De facto estou diferente! Ela coitada está cheia de bolhas... Mas acho que tem preguiça de pôr o talco e parece-me que não o espalha.
Temos de nos despachar que o autocarro passa às 7.
Eu estou com fome e lembro-me que ontem comprei uma tarte de maçã a mais no albergue de Villafranca.
Vemos o gordo alicantino a passar lá fora. Ele vê-nos, volta à janela e faz-nos sinal para as horas.
Enquanto a Chris acaba de se arranjar eu vou para a sala fumar um cigarro. Olho O Cebreiro ainda escuro e penso na minha sorte. Sou de facto uma priveligiada por estar aqui!
Que Deus me ajude hoje.
Saímos finalmente às 6h50, a Chris a fazer toc-toc com o seu cajado.
Está um frio descomunal e mesmo com luvas e as duas calças vestidas, fico gelada rapidamente. Hoje até trago o poncho vestido por cima das 3 camisolas e do impermeável. E o cachecol e o lenço por cima.
Devia ter comprado o gorro de ontem! Ai os meus ouvidos...As minhas mãos estão feridas...
O gordo já lá está na paragem com uma mochila maior que ele. Não admira que tenha lixado os joelhos... Na mão leva o saquinho que trazia ontem à noite no restaurante do Eduardo. São queijos do Cebreiro. Claro, que mais podia ser... Anda para um lado e para o outro para aquecer. Dizemos-lhe bom dia e ficamos ali à espera.
Chegam as 7 e do autocarro nem sinal. Por diversas vezes nos levantamos e corremos para a estrada, mas é falso alarme.
Decido então passar para o outro lado da estrada e ficar à beira do precipício a olhar à volta. Há meia dúzia de aldeias espalhadas pelo vale. Distam uns 10 km entre si. Imagino a vida daquelas pessoas. Tão simples. Só podem ser pessoas felizes... não é possível que alguém viva aqui sendo infeliz. Este sítio é lindo! Observo as pequenas estradas e imagino o seu percurso quando não o consigo alcançar. E as pessoas que os percorrem...
Que sítio maravilhoso! Quero guardar esta imagem para sempre na minha cabeça. O meu guia chama-lhe "as portas do céu" e é mesmo o que parece. Tudo à volta é verde. Vários tons de verde. É a Galiza finalmente!

O autocarro não chega e o sol nasce.
Não se ouve nada! Só o silêncio. E que paz se sente aqui! Que alegria! Que felicidade! De novo aquela sensação de amor no peito.
São 7h20 quando uma mini-carrinha passa em grande velocidade.O motorista vê-nos de repente e pára um pouco mais à frente. Se não tivéssemos saltado para a estrada perdíamos este micro-autocarro.

Entramos os três. O nosso bilhete custa €4.
Sentamo-nos meio a dormir. No rádio passam músicas de amor. Aproveito o sossego para ir pensando em mim, neste Caminho, na minha vida.
Passamos por uma série de terrinhas e cruzamos várias vezes o Caminho. O Caminho que não vamos caminhar desta vez. E tento encontrar na vida o paralelismo... tento encontrar a lição a retirar disto. Talvez na vida haja alturas em que temos de deixar que nos levem... não é vergonha pedir ajuda.

Numa dessas aldeias, entra um velhote, conhecido do motorista. Imagino como será a vida dele, imagino que irá a Sarria ao médico, como serão os seus dias, quando voltará para casa...
Mais adiante o autocarro volta a parar. À nossa direita está um carro. Lá dentro uma senhora com duas meninas. Despedem-se e as meninas entram. Vão para a escola.
Em Triacastela o gordo sai e o motorista diz-nos que nós também temos de sair. Há que fazer um transbordo para um autocarro normal que está cheio de adolescentes. São todos daquelas aldeias e estudam todos em Sarria. Todas as manhãs devem fazer este trajecto. Todas as manhãs se levantam de madrugada. Já são amigos do motorista que tratam pelo nome.
Não olho para o relógio e nem tenho ideia de quanto tempo passou.
A Chris sentou-se no banco atrás do meu e nenhuma falou até agora.
É para mim altura de balanço. Estou a meio do Caminho e o fim está mais perto.
Hoje é terça-feira. Há oito dias estava a fazer a viagem Porto-Leon mas parece que foi há muito mais tempo!
Sinto-me diferente. Nem sei bem em quê, mas sinto que mudei. Lembro-me de mim há oito dias e pareço-me mais pequena, mais criança. E contudo, sinto-me agora uma menina. É estranho, nem sei explicar.
Lições? Algumas.
A primeira: nunca mais deixar escapar uma oportunidade. Conheci o Andrea (parece que já foi há muito tempo que o deixámos), gostei dele e não lhe pedi o contacto. Arrependi-me disso, mas ainda assim voltei a fazer o mesmo com o americano e com os espanhois. E agora que adiantamos um bom pedaço, não me parece que os encontremos outra vez. Coisas destas acontecem na vida real também. Quantos abraços não desperdiçámos com a ideia de que há sempre um amanhã? E se não houver? Nunca sabemos o que pode acontecer. Aqui foram as bolhas da Chris, o meu joelho, a chuva, sei lá o quê. Mas o que é facto é que perdemos pessoas que tínhamos como adquiridas. E isso, com as devidas proporções, acontece também no nosso dia-a-dia. E de repente apercebemo-nos que ficou isto por dizer, que podíamos ter sorrido mais uma vez, que bastava um bom dia para animar o dia de alguém, mas nós estávamos demasiado ocupados nessa altura e depois compensaríamos, depois diríamos isto ou aquilo, depois sorriríamos. E depois era tarde...
Esta é uma lição que eu quero aprender e levar para Portugal. Nunca mais desperdiçar nenhuma oportunidade!
A segunda, mas também mais dura lição, foi ontem: a noção de que sou limitada e preciso da ajuda dos outros. Mas a noção também de que tenho uma vontade de ferro e aqui estou eu hoje a recomeçar o Caminho. Tinha prometido à minha irmã que voltaria para casa assim que tivesse uma dor. Mas aqui estou eu, a lutar para atingir o meu objectivo! O importante é não esmorecer. E é aqui que vem a terceira lição: há sempre um sol por trás das nuvens. Por pior que o dia nos pareça, se estivermos atentos e disponíveis, é possível ver um raio de sol ali ao fundo. E então basta ir até essa esquina e aquecer o corpo outra vez. Foi o que aconteceu ontem no Cebreiro, foi o que aconteceu anteontem em Villafranca. Eu estava triste mas mantive a minha mochila aberta. Baixei as defesas, não fiquei desconfiada do mundo, não perdi a fé. Primeiro Jésus, depois Eduardo. E a vista linda do Cebreiro. E Villafranca. E Ángel. E tudo. Basta eu estar atenta e disponível e as coisas acontecem.
Por útlimo, e no fundo resume tudo isto: nada acontece por acaso! Todos os contratempos servem sempre algum propósito... nem que seja parar para pensar e aprender.
Imagino o e-mail que vou escrever às pessoas que souberam da minha viagem, quando voltar. Dir-lhes-ei tudo isto. E dir-lhes-ei que fiz cento e tantos quilómetros com uma tendinite (porque agora tenho a certeza que hei-de chegar).
Ontem ao jantar a Chris perguntava-me se não tinha saudades de ninguém, porque ela já estava cheia de saudades do Rodrigo.
"Não. De ninguém."
"Pôxa, é mesmo? Nem da sua mãe? Nem da sua irmã? Nem do seu pai?"
"Não. Sei que os vous encontrar logo logo, e então tê-los-hei para o resto da vida... O Caminho, tu, estas pessoas que aqui encontramos, tudo isto que vivemos, vai acabar numa semana. Para quê estar a perder tempo a pensar em saudades? Quero é aproveitar isto. Tenho pena que nenhum deles esteja aqui, isso sim. Mas para que vivam o que estamos a viver, para que vejam a paisagem que vemos, para que sintam este bem-estar... só isso. Saudades, não."
Gostava de um dia trazer a minha mãe aqui. Talvez faça o Caminho de carro que ela não deve ter coragem para caminhar. Mas gostava de lhe mostrar isto tudo, de a levar a almoçar em Foncebadon, de lhe mostar Villafranca, O Cebreiro... Saudades não. Nem sequer ontem, quando estava com dores e triste, desejei que qualquer um deles estivesse aqui para me consolar... Sentia-me bem, apesar de tudo.
E agora que estou outra vez prestes a caminhar, estou mais feliz que nunca!

Chegamos a Sarria e a Chris está a dormir. O autocarro para numa escola e todos saímos.
Nós não percebemos bem como voltamos agora para o caminho, mas encontramos vieiras desenhadas no chão. Sim, está certo.
Precisamos encontrar um café para ir à casa-de-banho e tomar o pequeno almoço. Estamos de volta e temos de nos alimentar.
Chegamos à estrada principal e assustamo-nos com a primeira seta amarela: aponta para uma subida hiper-íngreme!!! Até tremo! Nada melhor que isto, com escadas e tudo, para testar o meu joelho...
É melhor tomar primeiro o pequeno almoço.