Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

quarta-feira, abril 27, 2005

AIREXE

É difícil graduar o que quer que seja no Caminho, mas Airexe foi tão especial que merece um texto à parte.
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Airexe quer dizer igreja em galego, e portanto esta terrinha deve o seu nome a um templo romano que aqui está.

Chegámos a Airexe por volta das 4 da tarde. Estava um dia lindíssimo e quente. Tínhamos as calças cheias de caca de vaca e de acordo com o meu guia haveria ali uma lavadora e uma secadora. Mas afinal da lavadora só havia o sítio… Teria de lavar à mão.
Pousamos as mochilas no quarto. Hoje há pouca gente e podemos usar a cama de cima para a mochila e a roupa e abrir o saco cama na cama de baixo.
No nosso quarto há um casal (alemão? austríaco?) e uma mochila a ocupar uma cama. No outro pareceu-me haver também 3 pessoas. Escolhemos este porque só neste havia duas camas seguidas para podermos conversar à noite.

Os beliches são de madeira e as camas estão cobertas com uns resguardos de flores. Os dois quartos têm muitas janelas e por isso muita luz. O nosso quarto dá para o campo.
É um albergue muito agradável. Em cada quarto há uma casa de banho e está impecável.
Desarrumo a mochila e vou tomar banho. A água está quase fria e o duche não é grande coisa, mas nem me importo. Estou suada e este banho está a saber-me muito bem.
Na cama ao lado da minha está o nosso amigo espanhol que me devolve a tornozeleira. Pergunto se já não precisa dela e ele diz que não e pergunta se eu quero que a lave. Não, não é preciso. Pergunto-lhe finalmente o nome mas ele diz qualquer coisa que eu não percebo. Explica que é o diminutivo de Sebastian, depois de eu lhe perguntar 20 vezes para repetir… continuo sem perceber, mas não sei dizer “soletra” e tenho vergonha de perguntar mais uma vez. Mais logo peço à Chris que lhe pergunte como se chama. Foi o que fizemos como Eduardo.
Mais limpinha, já com a roupa de dormir e cheirosa de tanto creme, procuro a hospitaleira para lhe perguntar onde posso lavar roupa. É muito simpática e explica-me que há um tanque do outro lado da estrada. Olho para ele. Até lá chegar terei de passar por um monte indescritível de esterco de vaca. Ela percebe os meus pensamentos e diz que posso fazer como os outros peregrinos que estão a lavar roupa no lava-loiça.
É o tal casal. O homem é simpático e engraçado. Faz uma série de piadas. Explico-lhe que há lixívia na casa de banho e mostro-lhe as minhas calças… estão todas manchadas.
Eles acabam de lavar e enxaguar e eu começo a lavar. Lavo só roupa interior, o top porque seca rápido e tento lavar a parte de baixo das pernas das minhas calças. O dia está bonito e há vento, por isso deve secar tudo ainda antes de me ir deitar.
Um táxi pára à porta do Albergue. Estão lá dentro dois homens e um deles sai com duas credenciais na mão. Pede à hospitaleira que lhas carimbe, que o irmão está muito mal dentro do táxi, que não consegue já caminhar.
“Cada um faz o Caminho como pode”, diz ela à Chris, a rir-se, depois de lhe fazer a vontade.
Saio para a rua. Há um patiozinho em frente ao albergue, com uns bancos de pedra e estão lá duas senhoras de mais idade, o casal alemão ou austríaco e o nosso amigo espanhol. Peço à Chris que lhe pergunte o nome mas para meu desespero ela já o fez e também não percebeu. Bom, se tiver de lhe falar, evitarei chamá-lo. É melhor assim.
Tenho de ligar à minha mãe, antes que fique preocupada. Agora só lhe ligo uma vez ao dia e é sempre quando chego ao albergue. Devo estar já com pouco saldo e quero ligar a pagar da cabina que está ao lado do albergue, mas não há ali informações e ninguém sabe como fazer. O nosso amigo pergunta-me se preciso de um telefone, que me empresta o seu. É incrível!
Agradeço, explico que tenho um e ligo dali mesmo à minha mãe.

Sentamo-nos ao sol. Eu deito-me num dos bancos e puxo a joelheira para baixo. O sol deve fazer muito bem ao meu joelho. Aproveito o dia e o calor na cara.
Que maravilha! Que doce esta vida de não fazer nada. Que presente de Deus este sol, este albergue, estas pessoas. Não há palavras para descrever o que sinto neste momento! De novo aquele amor inexplicável…
Passamos ali uma hora e começa a apetecer-me tomar qualquer coisa. O casal alemão janta: duas fatias de pão barrado com queijo-creme, uma rodela de tomate e pimenta. Têm um ar feliz e invejo-os. Estão a caminhar desde Saint-Jean.
Levanto-me do meu banco na intenção de perguntar à Chris se quer vir tomar qualquer coisa e convidar o nosso amigo, mas ele adianta-se e convida-nos. Sim vamos, claro.
Há ali dois cafés. Um em frente ao albergue que tem muito bom ar. É restaurante também e acho que é lá que jantamos. O outro fica quase em frente, por trás do albergue, e tem uma esplanada. Foi ali que o nosso amigo comeu quando chegou e diz que as pessoas são simpáticas. Sentamo-nos ali a tomar umas cervejas e a comer amendoins. Estava com fome e nem me tinha dado conta. Conversamos durante um tempão. A certa altura pergunto-lhe a idade.
“Que idade pensas que tenho?”
É novo, sem dúvida e eu diria que é da minha idade, mas uma vez que já é director financeiro, que tem uma série de negócios próprios, arrisco um “29?”.
“Trinta e cinco!”
Ninguém diria… de facto aqui no Caminho não há idades… é impossível dizer a idade de alguém vestido de peregrino.
Às sete vamos jantar e convidamo-lo. Ele acaba por nos oferecer as cervejas e ficamos meio sem jeito.
Vamos para o outro restaurante e sentamo-nos perto de uma das janelas. Tem uma vista linda sobre o campo e dali vemos as vacas a regressar do pasto.
A empregada que nos serve é amorosa e a comida excelente. Comemos um menu que acompanhamos com vinho, claro. De sobremesa eu como crepes com chocolate e gelado e a Chris a sua tarte Santiago, como não podia deixar de ser.
O nosso amigo diz que quer ir ver as estrelas esta noite, que o céu está limpo, que ali não há luz quase nenhuma e que sendo aquela a última noite que ali está, quer aproveitar. A mim também me agrada a ideia, mas estou com tanto sono que a cama parece muito mais atraente.
Passa pouco das oito horas quando voltamos para o albergue. A Chris sobe mas eu ainda vou até à salinha fumar um cigarro com o nosso amigo. Ele ainda não está habituado a dormir cedo e não tem sono. Está na cozinha uma peregrina que julgo ser alemã. É uma velhota amorosa. Caminha sozinha e deve ter uns 80 anos. Tem ar de avozinha querida que faz bolinhos para os netos. Vem desde França! O rapaz pede-me que lhe diga que ela é muito corajosa. E é mesmo! Despede-se de nós e sobe. Ele pergunta-me se quero ir ver a famosa igreja. Sim. Vamos.
Subo e pergunto à Chris se quer vir. Ela pede desculpa, mas está muito cansada e não quer sair mais.
Levo a lanterna que ali já está tudo a dormir e imagino que precise dela quando voltar. Digo à Chris que eu também estou muito cansada e que vou só espreitar a igreja e venho logo dormir.
Saímos, o rapaz e eu. Está uma noite bonita, mas arrefeceu um pouco e sinto os pés frios. No ar o mesmo cheiro a bosta de vaca. Comento com ele, mas ele diz-me que gosta deste cheiro. Cheira a campo e em Las Palmas não tem disto. Acha o máximo as lareiras e o campo.
A igreja é pequenina. O jardim é cemitério, como todas as igrejas por que passámos até agora, e há ali campas com mais de cem anos e campas com poucos meses. Tentamos entrar, mas está tudo fechado. No mesmo instante chega um carro e sai de lá um senhor maneta. O rapaz pergunta-lhe se podemos ver a igreja e ele diz que normalmente não, que já está fechada a esta hora, mas ele vai pôr lá qualquer coisa e como a vai abrir, podemos espreitar.
Agradeço a Deus. De facto quando lutamos pelos nossos sonhos, todo o universo se alinha em nosso favor. E aqui estamos nós, dois peregrinos em busca de paz, a apreciar esta natureza maravilhosa e a ver esta igreja minúscula mas muito bonita no meio do nada, depois de um dia inteiro de caminhada. Nada podia ser melhor. Sinto-me em paz e feliz. Estou com este rapaz que não conheço de lado nenhum e sinto-me bem com a sua companhia.
Rezo um pouco e saímos. Tentamos dar uma volta pela aldeia mas todos os cães do sítio se juntam a ladrar-nos. Não é que tenhamos medo, mas o passeio ficará muito desagradável e por isso decidimos voltar para o Albergue. Ao chegarmos, decidimos ir até ao café onde tínhamos estado a tomar as cervejas e pedimos uma garrafa de vinho. Enquanto esperamos que o senhor encontre a garrafa mais antiga com o pior vinho de Airexe, conversamos com um outro senhor que está atrás do balcão. Nunca fez o Caminho, mas dá uma série de palpites baseado no que tem visto. É simpático e conta uma série de histórias.
Voltamos para o Albergue e sentamo-nos na salinha a beber o nosso vinho meio azedo e a conversar, enquanto fumamos cigarro atrás de cigarro.
Descubro que é muito parecido comigo e que precisa muito de conversar. De vez em quando digo-lhe algumas coisas, mas vou-me apercebendo de que o que lhe digo serviria para mim também e que talvez esteja a falar mais para mim do que para ele.
Também ele veio para o Caminho pelos mesmos motivos que eu: encontrar respostas a uma série de perguntas, encontrar paz e serenidade e distância. “Sair da bola”, como ele diz. “Sair da realidade”, digo eu.
A hospitaleira bate à porta e entra.
É uma senhora amorosa. Vinha fechar a porta e o rapaz pede-lhe que não a feche já porque ele quer ir ver as estrelas daqui a pouco. Começamos a conversar os três. Agradeço-lhe ser tão simpática e ela diz que não faz nada de especial. Na realidade não faz nada.
“Sorris! E para um peregrino, um sorriso é tudo!”, digo-lhe eu.
Conta-nos uma série de histórias de peregrinos, dos presentes que recebe, das coisas que vai fazendo. Este albergue é de donativo e ela não faz negócio. Não está ali por dinheiro porque o que recebe dali não lhe chega nem para amendoins. Faz por gosto e considera-se ela própria uma peregrina. E é. Tem o espírito do Caminho e nem sequer precisa de fazer a peregrinação.
Finalmente despede-se de nós. Eu dou-lhe um abraço e sinto novamente o aperto no peito que tinha sentido quando me despedi do Eduardo no Cebreiro. Aqui está mais uma boa alma que não voltarei a ver. Mas ainda bem que tenho a oportunidade de conhecer esta gente tão boa!
Eu e o rapaz conversamos mais um pouco mas o meu sono vence e já são 11 da noite quando subo para dormir. Não, não vou ver as estrelas. Já não aguento mais de cansaço.
Deito-me e agradeço a Deus, com todo o meu coração, por este dia magnífico, por estas pessoas, por este albergue.

Ele deita-se logo a seguir.
Durmo quase imediatamente.

8.º Dia de Caminho: Portomarín - Airexe: 17,7Km

Pela primeira vez nestes 8 dias dormi lindamente! Sinto-me mesmo descansada. A criançada ontem fez imenso barulho quando chegou mas depois de uns “schhhhhh” calaram-se. Depois o resto da noite passei-o na paz do senhor e nem sequer ouvi os roncos de ninguém! Quando acordei já o quarto estava quase vazio. Pensei que fossem já 8 horas (hora do fecho do albergue) mas afinal ainda não eram sequer 7h30!
Ai que maravilha! Que noite maravilhosa! Ai que bom, que bom que bom!
Desço e o meu joelho nem dói! Era disto que eu precisava! Uma bela noite de sono! Acordo a Chris e despacho-me a correr: hoje estou cheia de fome.
Na casa de banho não há papel e por isso nem xixi faço. Não quero gastar os meus lenços de papel (ontem dei alguns a uma das meninas e já tenho poucos) e consigo aguentar até ao pequeno-almoço. Vou buscar o meu poncho e desço até à porta para fumar um cigarro. Está uma neblina poderosa e não se vê um palmo à frente. E um frio horrível outra vez…
Volto para cima e digo à Chris que o tempo está ruim, que é melhor agasalhar-se. Pego no meu saco de toilette (é mesmo um saco de plástico com fecho hermético) e desço para a casa de banho de baixo que ainda assim é a mais asseada. Lavo-me e visto-me num instante. De volta ao quarto arrumo a mochila, enquanto a Chris ainda está com a sua parcimónia do costume a tratar-se. Digo-lhe que tenho muita fome e que vou já para o café onde jantámos ontem tomar o pequeno-almoço. São ainda oito menos um quarto e o café está fechado. Espero. Já não me apetece voltar para o Albergue.
Os peregrinos saem e fazem-se ao caminho.
Às oito horas o meu estômago já ronca, a minha bexiga ameaça rebentar e o café continua fechado e sem sinais de abrir. Volto ao Albergue para dizer à Chris que espero por ela no café logo a seguir e a hospitaleira já está de vassoura na mão a mandar a Chris sair. Mas ela ainda demora um pouco e por isso vou eu à frente.
No café estão alguns peregrinos. Peço sumo de laranja, café com leite e uma torrada e desço imediatamente para a casa-de-banho.
Subo e começo a comer. A Chris chega logo depois e pede o mesmo que eu. Chegam algumas crianças. Estes são galegos e apercebo-me da dura realidade: há vários grupos de crianças a fazer estes últimos 100 km!!! A etapa de hoje tem de ser planeada em função disso. Ontem, a rapariga que encontrámos no caminho, disse que estavam a fazer etapas de 20 km. Hoje ou se fazem 18km até Airexe, ou se fazem 25km até Palas de Rei. Como Palas de Rei é uma cidade igual a Portomarín e deve ter mais albergues, eles devem ir todos para lá. Logo, nós vamos até Airexe e temos pelo menos uma noite sossegada à boa maneira do Caminho.
Pagamos, aquecemos e saímos.

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Há uma lojeca de recordações e coisas para o peregrino e entramos para comprar algumas coisas. Eu preciso de um rolo de fotos (já gastei 3!!!), talvez compre um gorro e quero ver se há aqui qualquer coisa que subsitua o fecho da minha peiteira, que ando desde Villar de Mazarife com um saco plástico a sustentar a peiteira da mochila.
Ficamos lá um bom pedaço, mas pouco compramos.
Paragem seguinte: farmácia. A Chris quer comprar aquelas almofadinhas que o rapaz lhe deu ontem. Mas são caríssimas… só vendem caixas inteiras e a Chris só quer uma ou duas almofadas. Não levamos nada.
Nova paragem num supermercado para comprar elásticos para o cabelo. Eu perdi o meu logo em Villar de Mazarife e a Chris também não tem. Aqui também não há mas a senhora oferece-nos uns 10 elásticos de borracha. Agradecemos com um grande sorriso e saímos. Eu enfio-os no gargalo da garrafa
(e ali irão permanecer até hoje), porque de nada nos servem. São daqueles que se colam ao cabelo e o repuxam e dói só de pensar.
A saída de Portomarín é semelhante à entrada: mais uma ponte compridíssima para atravessar o rio Minho. Só que desta vez é uma ponte de ferro, velhíssima, que abana toda sob os nossos pés.

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Logo depois voltamos ao campo e começamos com uma subida imensa. Ponho vick no nariz para respirar melhor e subo com coragem. Já me custa menos.
Lá em cima recomeçamos a cantoria. Eu acho que o meu cérebero parou nestes dias de afastamento do mundo… não me lembro de letra nenhuma das músicas que canto quase todos os dias!!!

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Cruzamos as crianças outra vez e pela enésima vez lhes dizemos olá.

A neblina levanta e aparece um sol lindíssimo. E aquece brutalmente.
Entretanto o Caminho segue paralelo à estrada, o que é horrível.
Paramos um pouco para tirar roupa. Eu aproveito para beber um leite de morango dos que comprámos ontem. Assim fico com menos peso na mochila da frente.

Já fizemos 8km e chega a hora da paragem do costume. Queremos parar em Gonzar para beber um café e ir à casa de banho. Estamos já com o estômago a dar horas e eu já estou enjoada de chocolate.
Pouco antes de Gonzar deparamo-nos com um parque de merendas muito agradável. Estão lá os adolescentes todos e um casal de peregrinos, mas encontramos uma mesinha à sombra. Aí comemos o presunto quente que tínhamos comprado há uns dias atrás em Rabanal del Camino. Não temos pão e tínhamos pensado comê-lo à hora do almoço, mas com este calor é melhor despachá-lo quanto antes. Rematamos com uma fruta e estamos prontas para continuar.

Paramos novamente no café/albergue de Gonzar para tomar café e ir à casa de banho. O "nosso amigo" chega entretanto e cumprimento-o. Aproveito o facto de a Chris ter ido ligar ao Rodrigo para escrever no meu diário:

"O tempo finalmente abriu. Está um sol lindo e acho que já não vai chover mais. Tirei quase toda a roupa que trazia vestida, mas acho que não a vou pôr dentro da mochila porque fica muito pesada. Prefiro trazê-la pendurada em mim...
Comecei a ficar angustiada por perceber que o Caminho está a acabar. Pelas nossas contas acabamos no Sábado!
Isto é lindo e maravilhoso e não quero que acabe.
Já não tenho problemascom casas de banho. Nada me mete nojo. (...) A minha única exigência é que haja uma sanita e papel. Ainda não seria capaz de ir ao mato ou fazer sem ter a certeza de ter papel...
As únicas coisas de que sinto falta são o meu chuveiro e o meu cobertor. Não tenho bolahs, estou toda suja e não me importo, visto roupa suada e cheia de lama e nem me ralo...
O meu único limite é o meu corpo que não aguenta a minha vontade e se não fosse o meu joelho eu poderia andar 30 ou 35 km na boa. A minha vontade e a minha resistência são enormes! Estou muito, muito feliz!!!"

À saída do café o espanhol está aflito. Pergunta-me se tenho uma ligadura. Digo-lhe que sim, mas que está usada e tento procurá-la. Sei que mais tarde irei precisar dela, mas paciência. Pergunto-lhe para que é. Diz que é para o pé, que tem uma tendinite no tornozelo ou no calcanhar. Digo-lhe que tenho melhor que uma ligadura e peço à Chris que abra a bolsa de cima da minha mochila. Tenho lá uma tornozeleira muito boa que empresto ao rapaz. Não sei se o volto a ver e esta é a minha melhor tornozeleira, mas o Caminho é isto mesmo! Ele ontem nunca nos tinha visto e ofereceu as almofadas à Chris.
Quando chegar a Portugal compro outra, qual é o mal. Ele agora precisa e eu não, graças a Deus.
Retomamos o Caminho e conversamos sobre o nosso novo amigo.
“Ai Chris, ainda não foi hoje que perguntámos o nome p’ra ele! Aiiiii! Estou a falar como tu!!!!” Deve ser natural, porque ao fim e ao cabo estamos juntas há uma semana e não falo português com mais ninguém. Assim como a Chris já assimilou algumas das nossas expressões, eu já assimilei algumas das deles.
Mas a verdade é que não sabemos ainda o nome do rapaz. Nem ele os nossos.

A Galiza é efectivamente muito bonita e com sol fica ainda melhor! Mas o calor começa a apertar e tenho de tirar mais qualquer coisa.
Ontem a minha mochila magoava-me os ombros, mas agora já percebi porquê. Emagreci e tenho de pôr uma camisola enrolada à cintura para que a mochila aperte bem na barriga, onde deve estar o peso todo. Se não apertar bem, se não suportar o peso com a barriga e a anca, começa a pesar mais nos ombros e é isso que magoa. Hoje, descoberta a pólvora, já está muito melhor.
Caminho muito mais leve. Nem me tinha apercebido que estava com tanta vontade de ir à casa de banho… A Chris e eu comentamos as maravilhas que este Caminho está a fazer aos nossos intestinos preguiçosos. É concerteza do movimento constante, dos abdominais que exercitamos todos os dias e a toda a hora, do que comemos… O que é facto é que nos sentimos muito melhor fisicamente. Totalmente em forma. Estou muito mais resistente, a nível de pulmões e não só e se não fosse pelo meu joelho, conseguiria caminhar 40km por dia na boa. Estou também com uma postura melhor e noto que a minha barriga está mais dura. Isto faz mesmo bem à saúde e nós dizemos que chegadas a nossas casas, continuaremos a caminhar.
E tem-nos feito muito bem às nossas cabeças também! Já perdemos muitos dos nossos preconceitos e das nossas manias, embora ainda mantenhamos algumas "frescuras"... Mas são cada vez menos!

Estou feliz. Muito feliz e lembro-me dos meus pais e dos meus irmãos. Gostava que aqui estivessem, porque isto de facto é muito bonito! Há vários tons de verde pelos vários montes, e flores de todas as cores. Como não é muito acidentado, vê-se a grande distância e o panorama é bestial.
Caminhamos lado a lado com o “Caminho de carro”. Um dia hei-de fazê-lo com a minha mãe (não me parece que ela queira caminhar isto tudo), e mostrar-lhe-ei tudo isto, contando-lhe todas as histórias de todos os recantos: aqui parámos para…, aqui encontrámos este ou aquele, aqui pensámos isto, aqui falámos aquilo…

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Almoçamos em
Ventas de Narón. Eu não quero almoçar. Está muito calor e no máximo como uma sopa ou uma salada… qualquer coisa leve. O que quero é pôr gelo no joelho que com o calor aquece mais e já dói bastante.
O pessoal do restaurante não é muito simpático. Nunca perguntámos em sítio nenhum se nos podíamos descalçar e no entanto nunca nos disseram nada. São pessoas habituadas ao peregrino, que afinal de contas só têm negócio graças a ele. Mas hoje a Chris pergunta se pode tirar os sapatos. A parva da mulher, que nos tinha posto num anexo nas traseiras do restaurante onde não havia ninguém, faz cara feia e diz que temos de ter cuidado com o cheiro para não incomodar outra pessoas. Parva!
Digo-lhe que não cheiramos a chulé (o que é verdade) e que mesmo que cheiremos, não há ali mais ninguém para incomodar! Só nós as duas e eu não me incomodo minimamente com o cheiro a chulé da Chris.

Vou ao balcão pedir gelo. O rapaz, que tem um olho para cada lado e ar de atrasado mental, só percebe o que quero à 4ª vez. Explico que é para o joelho. O idiota dá-me três cubos de gelo dentro de uma taça!!! Explico novamente que é para o joelho e ele continua a olhar para mim com a taça na mão. Faço o gesto e ele nem se mexe. Peço-lhe então um saco plástico para meter o gelo e explico que assim não posso pôr gelo no joelho. 15 minutos de pois percebe o que quero.
A Chris pede um menu peregrino, mas eu não consigo comer aquilo tudo. Tenho de tomar um comprimido e por isso acabo por pedir uma tortilha que é o mesmo preço de uma sopa (e sopa é quente demais para agora). Bebemos vinho, claro.

Já no fim do nosso repasto aparece o tal casal que tínhamos visto ontem à saída do café em Ferreiros. Eu estava na casa-de-banho quando eles chegaram e assim que chego à mesa a Chris diz-me “ele é de Salamanca e ela é belga e eu já falei p’ra ela que você fala francês! Pode falar com ela!”
A Chris acha que eu falo muito bem todas as línguas, sobretudo espanhol… porque sei dizer gracias com a língua entre os dentes. Esquece-se que tudo o resto que digo é em portunhol, mas isso não interessa nada… desde que diga gracias, pareço uma autêntica espanhola…
Falo um pouco com o casal. Eles perguntam à Chris pelas suas bolhas e ela diz que estão melhores.
A senhora está com uma tendinite na perna e hoje ficam por ali.
Chega entretanto um outro peregrino espanhol que me pede o cinzeiro emprestado. É de Madrid e saiu hoje de …. Já fez 20 km e ainda é só hora de almoço. Vai ficar aqui também. Chega mais um outro, gordíssimo, enorme, que fala inglês. Deve ser americano.

Nós recompomo-nos (eu com o spray, uma nova massagem, ligadura e joelheira), pagamos (há confusão com a conta), guardamos o vinho que não bebemos e o pão que não comemos e saímos. Agora falta muito pouco para o fim da nossa etapa de hoje.

Voltamos para o Caminho por um sol escaldante, que convida ao descanso, por mais 5km.
Reentramos no campo e o cheiro a caca de vaca continua. De repente deparamo-nos com uma coisa nunca por mim vista (graças a Deus): uma espécie de tractor com um depósito atrás, esguicha estrume por trás!!!
Não acredito nisto e tiro uma foto porque se contar em Portugal isto, ninguém acredita.
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Dou mais dois passos e o cheiro daquilo bate-me como uma bofetada… É absolutamente nauseabundo e começo aos vómitos. A minha tortilha está prestes a ver a luz do dia. Tapo o nariz e tento correr o mais que posso (o que, diga-se em abono da verdade, com um joelho em mau estado e mais de oito quilos em cima, não é fácil), sempre aos vómitos. Consigo passar mas o meu estômago está revolto.

A subida até ao alto do Ligonde é duríssima. É feita por alcatrão e é íngreme. Com este calor, depois do almoço, custa muito. Mas a vista daqui é tão bonita, o dia está tão bonito (não há uma nuvem no céu), e isto tudo é tão maravilhoso, que eu nem me importo.
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Logo depois encontramos o "Cruceiro de Lameiros". Em cada um dos quatro lados da base há referências à morte ou ao calváerio e de acordo com o meu guia, data de 1670.
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A partir daqui é sempre a descer até Ligonde, "importante estação jacobeia onde ainda se conserva um cemitério de peregrinos, anexo a um desaparecido hospital da Ordem de Santiago" segundo o meu guia. O cemitério é hoje um campo cultivado e apenas esta cruz o assinala.
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À saída de Ligonde está a Fonte do Peregrino. Estamos mortas de sede e queremos encher as nossas garrafas... mas a fonte está sequíssima e não sai nem, uma gota!
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Em Ligonde o albergue tem óptimo aspecto, mas parece fechado e por isso seguimos o nosso plano. Airexe fica só a 1km e se o albergue de lá não for bom voltamos para trás para este.
Avistamos Airexe lá ao fundo. Parece uma terrinha bonita. Pequenina mas bonita. Mas o caminho até lá ainda é duro: uma descida enorme cheia de calhaus espera por nós.
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Chegamos finalmente ao Albergue, por volta das 4 horas, espapassadas por causa do calor. Estão lá alguns peregrinos a apanhar sol.O nosso amigo está lá afinal. Está à porta a descansar ao sol.
Nós entramos, carimbamos nós mesmas as nossas credenciais e fazemos o reconhecimento. Há dois quartos lá em cima e escolhemos o que nos parece melhor.