Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

quinta-feira, abril 28, 2005

Jantar em Melide

Entramos no Ezequiel por volta das sete. Não há mais ninguém ali... será que nos servem? O Homem nem pergunta o que queremos. É muito simpático, diz-nos onde nos sentamos e traz-nos pão e vinho branco. O pão galego é delicioso!!!
As mesas são de taberna, com bancos corridos, o que para mim é excelente: preciso de pôr gelo no joelho e de ter a perna estendida.

Poucos minutos depois chega uma mulher, peregrina também, e senta-se na outra ponta da nossa mesa. Nós as duas continuamos a conversar. De repente a peregrina do fundo dá um grito e salta para o lado da Chris
“Ai eu não acredito! Vocês estão falando português?”
É brasileira também! Ficamos as três excitadíssimas! Ainda não tínhamos encontrado brasileiros no Caminho e imagino que a Chris esteja feliz! Tal como eu estava esta tarde quando encontrámos os portugueses.
Chama-se Cristina e começou o Caminho em Léon, como nós, mas está a fazer o Caminho sozinha. Conta-nos as suas desventuras destes dias. Tem milhentas bolhas e já caiu... tem uma ferida no joelho que não sara de maneira nenhuma. Hoje está num hostal e está toda contente: tem toalhas, não tem de tirar o saco-cama, tem uma casa de banho com banheira e água quente e só para ela...
Estamos todas felizes! Ela fala, fala e vê-se que está feliz, que tinha muito para dizer, que esperava por este momento há muito tempo! Este Caminho é de facto cheio de surpresas!

Conta-nos a mesma história que os portugueses contaram sobre os brasileiros malucos. Acrescenta que eles ainda queria ir passar a tarde de Domingo no Porto e por isso têm de fazer o Caminho de taxi. Devem ser os que apareceram ontem em Airexe, de taxi, a carimbar as credenciais... a descrição corresponde...
Chegam os portugueses e o nosso polvo.
Logo depois chegam os espanhóis. Estamos todos à mesa e ali ficamos a conversar e a comer, felizes e satisfeitos.

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Os portugueses e os espanhois já se tinham conhecido também num albergue.
É bom estar aqui e já nem me lembro que isto está quase a acabar. Ontem de manhã decidi que não ia pensar nisso: ia pura e simplesmente aproveitar cada dia, cada hora, cada minuto, como se amanhã não existisse.
Rapidamente chegam mais peregrinos. A mesa atrás de mim está cheia. Mesmo por trás de mim está o rapaz, o nosso amigo espanhol cujo nome ainda não aprendi. Creio que é Chano mas como não tenho a certeza, prefiro não lhe chamar nada. Na mesa dele está também o peregrino da harpa. O rapaz conta-me que o encontrou no Caminho. O velhote pediu-lhe que lhe fizesse um favor. Tirou a harpa, começou a tocar e pediu-lhe que tirasse uma foto.

O jantar é divertidíssimo e o nosso amigo espanhol chama-me de vez em quando para contar mais qualquer coisa. De vez em quando diz que está tonto, que não percebe o que se passa mas que este vinho é muito forte... Há duas mesas, mas no fundo só há uma. É o Caminho: somos todos uma grande família e isto parece um jantar de amigos de longa data. Estamos todos muito alegres por causa do vinho e cada vez rimos mais. Estamos leves e felizes. É de facto maravilhoso estar aqui!

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Comemos imenso e no fim ainda pedimos uma tarte Santiago (claro). Chega a dolorosa... €11. Mas valeu a pena. Comeu-se bem e a companhia foi do melhor.
São dez da noite e temos de ir indo. Meio às curvas, mas lá vamos. Os velhotes espanhois já foram há um bocado e agora somos só os tugas. E a Chris que para mim é tuga também.
Tiramos umas fotos para mais tarde recordar

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e ainda ficamos um bocado a conversar à porta do Albergue com o Chano e uns outros que lá estão e que estavam na mesa dele ao jantar. Um deles está a fazer o Caminho de bicicleta e chega amanhã a Santiago. Quer fazer o Caminho português ao contrário e ir até Lisboa. O Paulo, que já fez o Caminho português dá-lhe as informações todas.

Despedimo-nos e subimos finalmente.
O dia acabou muito bem e agradeço a Deus por isso. E por ter encontrado o Paulo, o César e o Tiago que é um amor de menino! E divertido também! E agradeço por ter encontrado os nossos velhotes espanhóis! E agradeço por termos encontrado a Cristina. E agradeço por tudo, por este Caminho, por isto tudo!


Nota: a maioria das fotos são do Paulo

9.º Dia de Caminho: Airexe - Melide= 23 km

Acordo sem despertador às 7 da manhã. Dormi tão bem…
O casal alemão (ou serão austríacos?) ainda dorme. É impressionante o que estes dois dormem! Ontem, antes das nove da noite, já ressonavam, e às 7 da manhã ainda dormem na paz do senhor!
Deixo-me ficar mais um bocadinho a saborear o meu acordar ali. Estão ainda todos a dormir e não sou eu que vou fazer barulho. Não tenho pressa de chegar a lado nenhum. Tiro a venda e olho para o lado. O meu amigo acordou também e tal como eu está ainda a apreciar os primeiros minutos de sossego. Diz-me bom dia e eu sorrio. Volto a fechar os olhos e viro-me para o lado.
Os alemães levantam-se e eu acordo a Chris.
Despachamo-nos, apanhamos a roupa que ainda não secou e penduramo-la nas nossas mochilas.
Eu sou a primeira a sair para a rua, como de costume, e ali espero pela Chris enquanto fumo o primeiro cigarro do dia.
O rapaz sai também e espera comigo. Eu estou com muita vontade de ir à casa de banho e digo à Chris que vou indo. Explico ao rapaz que vou tomar o pequeno-almoço e que ali espero pela Chris que já não deve demorar.
Tomamos o pequeno-almoço os três juntos, no mesmo sítio bonito onde jantámos.
Enquanto comemos vejo chegarem dois peregrinos. São os que vimos ontem ao almoço em Ventas de Narón: o madrileno e o gordo que eu acho que é americano. O madrileno entra para o café em frente e o gordo continua o caminho. Devem ter saído muito cedo!
O nosso amigo dá-nos o seu contacto e pede o nosso também. Assim é que é. Este de certeza não precisou perder amigos no Caminho para aprender!
Saímos um pouco antes das nove, depois do habitual aquecimento.
Nós seguimos as duas enquanto ele fica a aquecer. Percebemos que quer caminhar sozinho e nós também preferimos assim.
Conversamos imenso as duas e passamos por várias terrinhas simpáticas. Numa delas encontramos a nossa velhota-avozinha do albergue. Lá vai, devagar devagarinho, com o seu saquinho na mão e a mochila às costas, sempre a sorrir. Vai até Casa Nova ou Leboreiro, ainda não sabe bem. De qualquer forma, não quer andar muito.

É amorosa!
Nós continuamos e conversamos mais um pouco.
O Caminho tanto vai pela estrada como pelo campo mas é sempre muito, muito bonito. E a luz de início de dia dá-lhe um encanto... Tudo é verde...
Entramos num caminho mais largo, com uma grande descida. Logo depois um campo enorme, verde. à esquerda está uma espécie de oficina e apoio ao peregrino e entramos. Tem vários panfletos espalhados pelas paredes. Brochuras dos vários caminhos, cartões de vários albergues. Tem casa de banho e aproveitamos.
Não nos demoramos muito ali e a rapariga não sabe dar informações nenhumas.
Um pouco mais à frente há um albergue enorme com um óptimo aspecto. Estamos em Avenostre.
Continuamos a caminhar. Temos pressa de chegar a Palas de Rei. É uma cidade grande e a Chris quer trocar os seus cheques. Eu quero aproveitar para tentar levantar dinheiro outra vez que já estou a precisar e não sei quando poderei fazê-lo.
A entrada é por uma descida enorme de alcatrão, com uns cafés pelo caminho. Eu nem acredito que aquilo já é Palas de Rei, mas a Chris jura que sim. E tem razão.
Há logo à entrada uma igrejazinha, minúscula mas muito bonita.
Continuamos a seguir as setas amarelas até ao Centro e assim que chegamos vemos um anúncio: massagens ao peregrino, curamos tendinites. Sinto-me muito tentada mas tenho de poupar dinheiro e isto vai atrasar-nos muito. O dia ainda agora começou, ainda temos 16km pela frente e não quero demorar-me muito aqui. Estávamos num bom ritmo e quero continuar.
Dirijo-me à primeira caixa multibanco que me aparece. Sem grandes esperanças meto o meu american express e peço a Deus que aquilo funcione se não fico em muito maus lençóis... Miraculosamente a máquina pede-me o pin e depois vomita os meus €100! Ai que maravilha! Estou rica outra vez!
AChris entra no seu banco para que lhe troquem os cheques e eu aproveito para entrar numa loja a perguntar se tem fechos para a peiteira da mochia... não acredito que vou fazer o Caminho todo com este saco plástico enrolado ao peito... Não tem.
No banco também não trocam e mandam-na para um outro mais adiante. Enquanto ela anda nestas andanças, vou ao DIA comprar pão e mortadela para o almoço e fruta para o caminho. Há ali tartes Santiago, mas comprar uma agora implica ter de a carregar até ao albergue, andar de saco pendurado e eu já trago tanta coisa pendurada em mim... Nãããã. Fica para depois.
Segue-se o que a mim me parecem três horas (foi só uma) de corridas a bancos. A Chris não consegue encontrar um banco que lhe troque os cheques.
Enquanto isso vou dando as minhas voltas e entro numa farmácia para comprar uma ligadura. Esta joelheira já não aperta o suficiente e ainda só fizémos 7km e já tenho dores. Enquanto espero a minha vez cheiro a amostra de perfume que ali está. É uma colónia de criança e cheira tão bem... Custa €2,60 e faço um-dó-li-tá para decidir se levo ou não. É dinheiro que gasto desnecessariamente e é peso que terei de carregar por mais uns dias, mas sabia-me tão bem ter um cheiro que não fosse a pomadas... e um perfume, mesmo que seja de bébé, disfarça as roupas sujas... Não é que as minhas cheirem mal (por acaso estou surpreendida com o meu desodorizante que se revelou ser maravilhoso!), mas um perfumezinho é outro conforto. O nosso amigo espanhol cheira a perfume. É uma forma de não perder a classe. Peregrino sim, mas cheiroso!
Acabo por não levar e vou ter com a Chris ao banco de onde não sai há 5 minutos (deve ser bom sinal).
Ali trocam-lhe os cheques mas demora um tempo infinito. Eu tenho tempo de pôr e tirar várias vezes a ligadura: da primeira vez apertei-a tanto que fiquei sem circulação.
Vou tomar um café enquanto espero e tento descobrir como se fazem chamadas a cobrar no destino.
Finalmente a Chris aparece, já contente com o seu dinheiro, e seguimos. Paramos ainda numa tabacaria para ela comprar uma tesoura (anda a cortar as almofadinhas dos pés com o meu canivete) e eu compro um cartão de telefones.
Sentados pelas escadas do albergue, muitos adolescentes... Tinha razão: estão ali as várias escolas que cruzámos. Ainda bem que ficámos em Airexe.

Retomamos o Caminho. O meu joelho está tão bem apertado agora que sinto o outro completamente desprotegido. Devia ter feito isto há mais tempo: tenho uma ligadura por baixo da joelheira e isto dá-me um apoio bestial.

Saímos de Palas de Rei
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e seguimos pela estrada por uns metros para logo entrar novamente no campo.
Está um calor dos diabos e eu começo a minha sessão de strip em andamento e sem tirar a mochila. Estou uma profissional! Talvez me dedique a isto quando voltar a Portugal. Já consigo até tirar uma camisola!!! Tendo em conta que tenho uma mochila nas costas e outra à frente e mais a máquina fotográfica pendurada no braço... é obra! Só preciso que a Chris me segure no cajado.
Voltamos a atravessar a estrada e então reentramos no campo profundo, sem barulhos de carros.

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O cheiro é incrível e só se ouvem os passarinhos a chilrear. E umas rãs a coachar.

De repente paramos extasiadas. À nossa frente novamente um lago ou um pântano, com uma ponte de pedra para passarmos.
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À nossa direita um pântano lindo.
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Pena as fotos não terem cheiro nem som. Ouvem-se milhentas rãs a coxar. Ficamos ali um bom bocado a apreciar esta maravilha. Quero guardar este momento para sempre, este som, este cheiro, este verde. Encho o peito de ar e retenho a respiração por um momento, como que a guardar este oxigénio e este cheiro todo para mais tarde recordar. Fecho os olhos. Queria ter uma câmara de filmar no lugar dos olhos para poder guardar tudo isto para sempre e poder lembrar sempre todos os pormenores. Isto é lindo!

Seguimos a custo depois de algumas fotos.

Voltamos a passar uma aldeola e reparamos que há um peregrino a falar com um aldeão.
"Não é o espanhol?", pergunta a Chris.
"Não Chris, são velhotes".
"Não... o outro espanhol! É ele sim, Joana!"
Não queremos acreditar! É o nosso amigo espanhol dos primeiros dias! Um dos velhotes de quem nos separámos no dia de Villafranca e Ponferrada e chuva e... Aceleramos o passo e vamos até ele que nos reconhece. Despede-se do homem com quem falava e conversa connosco enquanto caminhamos os três. Estou tão feliz! Reencontrámos o nosso amigo! Os nossos amigos, porque o outro já está mais adiante de certeza.
Tinha-me esquecido de como era difícil acompanhar o passo deste homem. Parece que corre. Vai contando uma série de coisas. Diz quantos quilómetros faltam para Santiago. Percebo que está a guiar-se pelos marcos do Caminho. Não coincidem com o meu guia, ora estão adiantados, ora estão atrasados em relação ao meu guia.
Digo-lhe que de acordo com o meu guia aqueles mojones não estão certos, que foram ali colocados mais por oportunidade que por distâcia. Ele diz que não, que é o oposto. Que é o meu guia que não está certo.
Encontramos António, o outro espanhol. Diz-me bom dia mas não me reconhece. É o outro, Miguel, que lhe diz quem sou. É natural... estou sem impermeável, sem as calças meio-impermeáveis, com muito menos roupa... Não consigo descrever a alegria que sinto neste momento! Reencontrei os meus velhotes! É indescritível!
Dizem-nos que vão para Melide e a Chris quer parar. Eles vão muito depressa e nós não lhes acompanhamos o passo facilmente. Estamos a chegar a Casanova e há ali um restaurante--albergue. Eles dizem que é muito bonito e muito bom. Despedimo-nos com um até logo, muito felizes por revê-los. Logo à noite estaremos juntos outra vez.
Entramos no tal restaurante mas digo à Chris que ficamos ali uma meia hora só. Temos pão e mortadela e vamos só beber um vinho. Todas aquelas crianças devem estar a caminho de Melide e eu quero ter uma cama quando lá chegar, por isso convém chegar cedo. Além disso já perdemos muito tempo em Palas de Rei e só voltámos a caminhar há uma hora. Tantas paragens quebram o ritmo.
Enquanto entramos e procuramos um sítio fresco para nos sentarmos, parece-me ouvir falar português.
"Estou a imaginar... deve ser galego", penso.
Continuo a ouvir qualquer coisa familiar e olho para os peregrinos pelos quais passámos. Estavam 3 sentados lá dentro (nós íamos a sair para o quintal) e parece-me que um deles tem cara de português e diz qualquer coisa em português. Ele também olha para mim enquanto diz qualquer coisa para o lado. Reparo na t-shirt dele. Diz Portugal.
"Pode ser só um turista que comprou a t-shirt", penso eu enquanto volto para perto deles sem parar de olhar para o tal. Sem pensar muito pergunto
"São portugueses?"
"Sim!!!"
Volto para trás e reentro no restaurante, sem sequer me lembrar que a Chris ainda está no quintal.
Não acredito! São os primeiros portugueses peregrinos que encontro!!! Que emoção! Voltar a ouvir o meu portugês sem sotaque! Nem me tinha apercebido que tinha saudades disto!
A Chris volta para dentro também e sentamo-nos numa mesa. Começamos a falar, a fazer uma série de perguntas.
Para melhorar, são todos do Porto! Nem acredito!
Paulo, César e Tiago. Começaram no sábado em Ponferrada.
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Acabamos por ficar ali uma hora! Eles comem um menu e nós acabamos por pedir uma sopa galega para acompanhar o vinho.
Contam-nos que também dormiram com um grupo de 15 adolescentes de uma escola e depois de muitas perguntas percebemos que não é nenhum dos grupos que encontrámos. Há pelo menos 3 grupos de crianças barulhentas!!! Estes são de tal modo indisciplinados que ninguém dormiu no albergue e os portugueses acabram por sair às 6 da manhã.
Contam-nos também que encontraram dois brasileiros meio doidos. Foram de táxi de Porto a Ourense onde apanharam novo taxi até Ponferrada. Fizeram 40 km num dia (o que inclui parte da subida do Cebreiro), mais 40 no dia seguinte e estão todos rotos... Por causa disso decidiram fazer o resto do Caminho de táxi...

O César, o Paulo e o Tiago também vão ficar hoje em Melide e ao fim daquela hora parecem-me já grandes amigos! É engraçado que com excepção do Tiago que é mais novo que eu (mais uma novidade), não consigo tratá-los por tu. São os únicos peregrinos, com excepção do francês amalucado de Astorga e da belga de ontem, que não trato por tu.
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Quando já estamos a terminar a nossa sopa aparece o madrileno de ontem, o que me pediu o cinzeiro em Ventas de Narón e que eu vi esta manhã a chegar a Airexe. Senta-se connosco. A Chris pergunta-lhe se sabe alguma coisa do casal de ontem, da belga com a tendinite. Um peregrino que estava sentado ao fundo do restaurante a escrever pergunta se são um casal que ele conhece e descreve-os. O rapaz tem tendinites nos dois joelhos e caminha com dificuldade e ela é loura. Dizemos que sim, que ela é loura mas ele não tem problema nenhum.
"Não devemos estar a falar das mesmas pessoas então. Não sei nada deles. Deixei-os em...(???) e não os vi mais".
Já sei de quem está a falar. Eles dormiram connosco há duas noites atrás em Portomarín, mas eu não os vi também.
O nosso amigo madrileno conversa connosco. Diz que hoje fica ali, no albergue municipal, e que amanhã vai até Ribadiso da Baixo que é a última aldeia antes de Santiago. A partir de Ribadiso o caminho segue sempre perto da carretera e fica muito feio. Quer aproveitar o campo enquanto pode. Sugere-nos isso também.
A mim agrada-me a ideia de ter mais uma noite como a de Airexe, no meio do campo e da natureza, numa aldeia pequenina e de gente simpática. Mas ficar amanhã em Ribadiso significa que amanhã farei só 10 km oq ue me parece pouco. Ele mostra-me o plano que fez em Madrid: 20km por dia. Foi tudo pensado ao pormenor. Amanhã 20 até Ribadiso, sábado mais 20 até Pedrouzo e no Domingo mais 20 até Santiago. Se sair cedo, chega lá a tempo da missa.
"Amanhã vemos isso então".
De facto parece-me exequível fazer 20 km no domingo e estar em Santiago ao meio dia. Basta que comecemos a caminhar às 7 da manhã e que não façamos estas paragens.
Converso mais um pouco com os portugueses. O Tiago está também viciado em Tartes Santiago e come duas! A mim também me apetecia, mas ainda tenho 10 km até Melide e pão e mortadela na mochila.
Despedimo-nos de todos e seguimos.
Passamos pelo abergue municipal onde vai ficar o madrileno e parece-nos fechado. Parece que o plano dele vai por água abaixo... A Chris diz-me que se chama Armando. É simpático, ele.
De repente o Caminho foi inundado de gente. É muito bonito, com as copas das árvores a tocarem-se e pedras e rochas no chão, mas nem conseguimos apreciar como deve ser porque é tanta gente e a falar tanto... A maioria é do grupo de adolescentes. Há um casalzinho. Ela caminha com grande dificuldade e tem a dor estampada no rosto! Pergunto-lhe se está bem. Diz que são as bolhas. Seguem-se as perguntas do costume... já as pinhascte? puseste betadine? tens compeeds?. A burra não as pinchou!!! Até a mim me doi só de pensar!
Continuamos a caminhar e de repente, quando dou conta, o Caminho já está quase vazio outra vez.
Uns passos mais à frente começo a ouvir uma música bonita. Olho em frente para perceber de onde vem e vejo dois peregrinos a olhar para o campo. Continuo a caminhar e percebo que é dali que vem a música. É uma harpa. Estamos num trecho lindíssimo e esta música não poderia ser mais adequada. E vem não se sabe de onde...
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Aproximamo-nos.
É um peregrino que está a tocar! Um velhote amoroso! Trouxe a sua harpa e toca no Caminho!
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Isto é de facto maravilhoso! Surpreendente! As pessoas que aqui se encontram, esta paz, estas surpresas, estas coisas... é incrível! Estou num outro mundo e estou a adorar! O Caminho dá-me tanto e eu nada dou ao Caminho! Sinto isso mesmo! O Caminho dá-me muitas coisas! Muito mais do que esperava quando para aqui vim! Estou a receber tanto! E quero tanto que isto dure...

Um pouco mais à frente voltamos a encontrar um grupo grande de adolescentes. São rapazes e muito barulhentos. Irrita-me esta barulheira toda. Há um que não pára de falar ao telemóvel. Sinto que estou a ser egoísta e arrogante, mas que raio estão estes miúdos a fazer no MEU Caminho? Ultrapassamo-los e comentamos esta algazarra toda. A Chris diz-me que eles nos devem estar a passar outra vez que ouve passos.
“Que passem de uma vez mas que passem lestinhos e caladinhos!”, digo-lhe eu.
“Olá!”
Afinal são os portugueses. Vão os três juntos em passo aceleradíssimo!
Estamos a chegar a Leboreiro e caminhamos agora por um caminho romano.
Leboreiro é feio e não corresponde minimamente ao meu guia.

O resto do Caminho é feito quase a par e passo com os adolescentes. Ora passamos nós, ora passam eles. E de repente tornou-se tudo feito. Estamos ao lado da estrada a passar por uma zona industrial horrorosa. Melide espera-nos lá ao fundo e embora já a vejamos, sabemos que ainda falta uma boa hora. Que seca! Esta é sempre a parte pior! Os últimos quilómetros da etapa são sempre os mais difíceis e nem sequer é pelo cansaço físico. E então quando se trata de uma cidade grande, a angústia é maior... Já imagino que o Albergue não será logo à entrada e por isso a chegada, o fim de etapa, será ainda mais penoso!

A Chris está cansada e quer parar. Eu também estou um pouco e tenho fome. Paramos por um bocadinho então. Não queria, porque quero passar esta criançada e chegar antes deles para poder ter uma cama, mas temos mesmo de parar.
Estamos as duas cansadas e quase nem falamos. Enchemos as garrafas, como mais um quadrado de chocolate e alongamos. Estamos num parque de merendas. À direita a estrada. Larga e longa. À esquerda fábricas. Coladas ao caminho há uma série de pedras, tipo as dos dez mandamentos (do filme), com nomes. São membros (damas e cavalheiros) de qualquer coisa que tem a ver com a Ordem de Santiago, acho eu. De vez em quando uns mini-monumentos ao peregrino. Um deles homenageia uns peregrinos mortos durante o Caminho há uns anos atrás. Imagino que tenham sido atropelados.
Enchemos o peito de ar e preparamo-nos para recomeçar os últimos 4 ou 5 km.
Os rapazes tinham passado por nós e acelero um pouco o passo. Encontro-os um pouco mais à frente, sentados no chão. Estão todos rotos, coitados e fico com pena deles. Percebo que estão a pensar o mesmo que eu, porque assim que me vêem põem-se em pé num salto e recomeçam a caminhar à minha frente. Reparo nas mochilas deles. Devem trazer roupa até dizer chega porque estão bem cheias e trazem sapatos pendurados. Alguns coxeiam.
Voltamos a entrar no bosque, mas por pouco tempo. Passamos Furelos que é uma mini-aldeia mesmo às portas de Melide. Tem uma ponte lindíssima e um rio com uma corrente fortíssima. Lindo de morrer!

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Melide está cada vez mais perto. Agora só falta uma subida por uma rua. Parece que já estamos na cidade e começa a angústia. Vejo vários peregrinos sentados no chão a descansar e à minha frente caminha o tal casal por quem perguntava o espanhol ao almoço. Reparo que o rapaz caminha com dificuldade e tem duas joelheiras. Eu também tenho muitas dores no joelho e por isso quero chegar rapidamente para poder descansar.
Chegada lá acima espero pela Chris que vem longe. Vejo-a pequenina lá ao fundo e espero que chegue mais perto para retomar. Vou fazendo isto a cada 100 metros. E ela pergunta sempre “é aí o albergue?”, o que só contribui para aumentar a minha impertinência. Estou a ficar irritada. Quero chegar e descansar, tomar um banho, comer e deitar-me um pouco. E de cada vez que paro ela pergunta se já é ali e lembra-me que não, que ainda falta um bocado e que não sei onde raio está a porcaria do albergue. Ela não tem culpa, também está impaciente e deve ter muitas dores nos pés porque vem mesmo muito devagarinho.
Entramos no centro da cidade e deixa de haver o que quer que seja de indicações. Espero então pela Chris, que mais uma vez me pergunta se já é ali, e agora caminhamos juntas até encontrarmos uma seta amarela. Para nosso desespero há duas a apontar para sítios diferentes. Seguimos uma delas e encontramos o nosso amigo espanhol (o de Airexe). Já tomou banho e está a sair com outros peregrinos. Diz que o albergue é já ali e que as meninas ainda não chegaram (refere-se às adolescentes). Afinal ficou no Albergue.
Depois de várias voltas, de perguntar a várias pessoas e de seguir várias indicações diferentes, lá encontramos o Albergue, mesmo no fim de cidade!
Estão aqui os burros!

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Li sobre esta família num jornal no Cebreiro. São uma família de 4: pai, mãe e dois filhos com 7 e 10 anos. São ingleses e o pai é psicólogo. Começaram o Caminho em Roncesvalles onde alugaram dois burros que lhes carregassem os sacos. Eles fazem o Caminho a pé.

À porta do Albergue é a confusão total. Montes de gente à porta, uma barulheira incrível, peregrinos de mochila às costas com ar de quem ainda não decidiu se ali fica. Nós entramos. Não há hospitaleira. Este é um albergue de donativo (na Galiza deixaram de haver albergues privados) e por isso imagino que seja mau.
Subimos à procura de cama. Os quartos já estão cheios, mas lá conseguimos encontrar duas camas de baixo num quarto quase lotado. Ouvimos vozes e percebemos que estão ali os portugueses. Eu, esfomeada que estou, como o pão com a mortadela que comprámos e sabe-me pela vida, apesar de o pão estar duro que nem cornos. A Chris está estoirada e nem quer tomar banho. Quer descansar. Aproveitamos para ver o guia e calcular as próximas etapas. Fiquei a pensar no que disse o madrileno (Armando). De facto, gostava de ficar mais uma noite na aldeia...

Os nossos novos amigos vão tomar banho e ouvem-se os gritos deles cá fora... a água deve estar gelada, mas ainda assim perguntamos quando eles saem. Ingénuas...
Vou procurar um quarto menos vazio e encontro os velhotes espanhóis (Miguel e António). O quarto deles parece-me menos cheio, mas eles dizem-me que as camas que quero já estão ocupadas. Só há as de cima e como eu não gosto de dormir no beliche de cima, prefiro ficar no quarto onde estamos.

Já temos tudo fora da mochila, estamos descalças e a preparar-nos para descansar quando chegam uns espanhóis gordos que imagino serem os monitores do grupo das crianças barulhentas. Dizem que a cama da Chris, apesar de não ter nada lá em cima, já estava ocupada por um deles. São antipáticos e eu faço a minha cara de má e ainda respingo. Por um lado estou contente que estava com vontade de ir para o quarto dos espanhóis velhotes que parece-me menos cheio. Nem que fique nas camas de cima. Mudamo-nos para lá. Afinal as camas não estão ocupadas. Eles dizem que não perceberam o que se passou mas quem ali estava deixou de estar. Estão também furiosos com este grupo. Dizem que vieram todos tomar banho para aquela casa-de-banho, embora ninguém esteja naquele quarto e que só lhes apetece fechar a porta à chave.
Logo atrás de nós vêm os portugueses que também desistiram de ficar naquele quarto. Melhor. Tomamos de assalto aquele corredor. É todo nosso! Há quatro beliches e são todos nossos!

Eu e a Chris vamos tomar banho. De facto esta canalização foi feita a pensar no peregrino... a água alterna entre quente e gelada a cada 30 segundos. É para facilitar a circulação! O que vale é que somos bem rápidas a tomar banho e já nem sentimos.
Os velhotes vão conhecer a cidade mas nós não temos coragem. A mim só me apetece pôr as pernas para cima, que sinto-as inchadíssimas e pesadas. Conversamos com os nossos amigos. O Tiago vai ter um teste na segunda-feira e tem de estudar. Não sei como consegue!
Saímos às 6, depois de combinarmos com eles o jantar no “Ezequiel” , o melhor restaurante de polvo das redondezas.
Movemos-nos com grande dificuldade... perecemos duas patas chocas...
Entramos num café para tomar qualquer coisa. Estamos com fome mas não queremos comer agora para não estragar o apetite para o jantar. Estão lá António e Miguel. Sentamo-nos e convidamo-los para a nossa mesa e ali ficamos um bom pedaço a beber uma cerveja e a comer aperitivos.

Perguntamos pelos outros: o italiano (Andrea), nunca mais viram. O Americano decidiu fazer etapas mais pequenas para não chegar cedo demais a Santiago.

Falamos de etapas e quilómetros, como manda a etiqueta do peregrino, e António conta-nos partes do seu Caminho. Eles vão chegar a Santiago depois de amanhã. Amanhã farão trinta e tal quilómetros até Arca/Pedrouzo que fica a 20Km de Santiago, e no Sábado saem cedo para chegarem antes da missa.

No ano passado fizeram o Caminho em 29 dias. Este ano queriam tentar fazê-lo em 25, mas vão acabar por fazer os 800km que separam Saint-Jean de Santiago de Compostela em 22 dias!!! Têm o triplo da minha idade!!!