Buen Camino

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O meu Caminho de Santiago!

sábado, abril 30, 2005

11.º Dia (III) - Santiago de Compostela

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Estamos no Obradoiro e sento-me no chão. Somos peregrinos, há que agir como tal.
Todos se sentam também.
Quero ligar à minha mãe e ao meu pai e dizer-lhes que estou bem, feliz como nunca estive e que cheguei ao meu destino. Imagino que a minha mãe esteja preocupada pois já passou há muito a hora habitual de lhe ligar. Costumava ligar-lhe no fim de cada etapa e isso acontecia por volta das 5... Imagina concerteza que continuei até Santiago e já deve ter ligado mil vezes para o meu telemóvel, mas como está sem bateria... já deve estar a imaginar-me num hospital... tenho de ligar-lhe mas não sei bem como.
O Chano continua a ligar, furiosamente, para todos os hoteis da sua lista. A nossa única condição é que seja perto da Catedral, para que não tenhamos de caminhar muito mais.
Está tudo cheio.
Eu continuo extasiada. Há muitos turistas ali, todos limpinhos e arrumadinhos. Apetece-me gritar-lhes que sou uma peregrina, que acabei de chegar de Leon, que hoje fiz... quantos? Armando diz que são 43km.
Temos uma reserva no Windsor e decidimos que mais importante que procurar um hotel é ir buscar as nossas Compostelanas. A oficina do Peregrino fecha às 9 da noite e já passa das 8. Não sabemos onde é. Temos apenas uma morada, mas as setas amarelas agora acabaram. Estamos numa cidade grande (para nós é enorme) e eu sinto-me meio perdida.
Tenho vontade de abraçar outra vez os meus amigos.
Levantamo-nos e caminhamos em busca da oficina do peregrino.

Agradeço ao Chano a companhia e a força que me deu. Principalmente hoje. Digo-lhe que me fez muito bem conversar com ele, que gostei muito da sua companhia. Não sei se noutra altura teria dito isto, ou se teria deixado o coração falar desta maneira, mas hoje, depois deste Caminho, sei que não devo nunca deixar nada por dizer, que não posso desperdiçar palavras nem beijos nem abraços.
Ele retribui e vejo que para ele também é um esforço.

Depois de muitas voltas encontramos a oficina do peregrino. Ainda temos de subir umas escadas e nós, as meninas, subimos com grande dificuldade. Mas estamos felizes e é isso que importa.
Perguntamos ali por hotéis e o Chano continua a ligar para milhentos. Tudo cheio.
Há um que tem vagas, mas é caro.
Encontramos um e vamos até lá para espreitar. Sai mais barato que o Windsor, onde ainda temos as nossas reservas, porque como fica mesmo no centro poupamos o taxi. Mas esta pensão, apesar de bonitinha, não nos agrada. Os quartos são abafados e no terceiro andar... sem elevador... e nós não estamos em condições de subir escadas.
Saímos outra vez e começamos a bater em todos os hotéis e pensões que encontramos. Tudo cheio. O Chano quer ficar no hotel caro, mas por mais que me apeteça também ter um pequeno luxo, não posso. Não sei como está o meu saldo, mas imagino que não seja grande coisa e ainda tenho de voltar para o Porto, alimentar-me por aqui até ir embora, ir a Finisterra e pagar as contas quando chegar a Portugal. Tenho de poupar.
Chano liga novamente para o Windsor para saber se ainda temos quartos e para dizer que afinal somos 5 e precisamos de mais um.
Tudo em ordem. Não têm quartos individuais mas vão pôr a Cristina num quarto duplo ao preço do individual.
Chamamos dois taxis e partimos.
O hotel fica muito perto do centro afinal e talvez dê para vir a pé.
Entramos extasiadas e mancas. Eu estou tão feliz que digo ao recepcionista que hoje fizémos 43km, que eu fiz mais de 120km com uma tendinite, que conseguimos chegar.
Ele dá-nos os parabéns e as chaves e nós subimos, de elevador.
Há uns tempos atrás, teria achado estes quartos uma merda... não têm vista, as camas são moles, a casa-de-banho minúscula e a banheira parece um bidé grande.
Hoje tudo isto me parece um hotel 5 estrelas! Não vou precisar de tomar banho de chinelos, tenho uma toalha de banho (nestas últimas semanas limpei-me com uma toalha de rosto), uma de rosto e uma de bidé, sabonete, água quente, um armário e ninguém a dormir por cima de mim!!!
Ligo finalmente à minha mãe. Estou tão feliz!!!
A Chris e eu descalçamo-nos... está um fedor que não se aguenta, mas nem quero saber. Estou cheia de fome, mas estou tão cansada que nem me apetece tomar banho. Dói-me só de imaginar que terei de sair e caminhar mais não sei quanto até um telefone para ligar ao meu pai e depois até ao centro para comer. Por mim comíamos mesmo aqui.
O Chano e o Armando chegam. O Chano tinha ido não sei onde buscar roupa limpa que tinha mandado para aqui antes de começar o Caminho.
O Armando abraça-nos mais uma vez. Estamos todos felizes!
“Só tenho vontade de vos abraçar a todos!”, diz ele.
A mim também me apetece abraçá-lo e beijá-los e dizer-lhes que os amo! Não caibo em mim de contente e sinto um amor enorme por esta gente que mal conheço. Parece que sempre vivi com eles!
O Armando faz-me mais uma massagem no pé. Agora é o outro. Diz que gosta. Eu já nem me importo com o meu cheiro, nem com o meu aspecto. Estou feliz! Sou uma peregrina e cheguei a Santiago!

Combinamos encontrar-nos lá em baixo, na recepção, às 10h30 para jantar.
Tomo um banho com água quente que me sabe pela vida. Obrigada meu Deus! Obrigada por todos os banhos de água fria! Obrigada por todas as noites de roncaria, por todos os beliches que abanavam, pelo frio e pelo calor! Obrigada por todo o desconforto, porque só assim posso dar agora o devido valor a este conforto.
Visto os calções, calço os chinelos, ponho o meu top e a t-shirt lavadinhos (as calças que ontem foram lavadas já estão cheias de caca desde as 9 da manhã!!!), visto o poncho e saio em busca de um telefone público. Quero ligar ao meu pai também, chega de mensagens! Quero dizer-lhe, de viva voz, que cheguei a Santiago e que estou muito, muito feliz! E agradecer-lhe pelo apoio! Quero ouvir a voz dele e senti-lo mais perto de mim hoje, como se aqui estivesse também, tal como já fiz com a minha mãe.
O Chano encontra-me e diz-me que vou ter frio assim, quer que eu vista umas calças dele. Mas dizgo-lhe que não, que estou bem protegida.

Encontro um telefone perto do hotel e ligo ao meu pai. Por momentos, e pela primeira vez, vêm-me as lágrimas aos olhos. Estou orgulhosa.
Volto para o hotel. A Chris está quase pronta, a Cristina não quer sair porque tem muitas dores nos pés. A Chris diz-me que o Chano ficou triste por não aceitar as suas calças... eu acho um piadão e decido então aceitar a sua oferta, segura de que não me vão servir.
Troco de calças no quarto dele, à sua frente. De repente volta a outra Joana, a que não é peregrina e fico meio envergonhada... mas por breves segundos. Lembro-me que dormi várias noites com ele, que fizémos vários quilómetros juntos, que não há dessas coisas entre nós. Somos peregrinos sem sexo nem vergonha. Faz-me mesmo confusão ter-me lembrado deste pudor, que foi coisa que nunca tive nestes últimos dias. Talvez seja por já não estar no Caminho e sim num hotel e portanto, de volta à realidade. É estranho.
Como imaginava, as calças caem-me, apesar de ele ser magro. Mas visto-as mesmo assim para que não se ofenda.
Convenço a Cristina a sair. Mas tanto ela como a Chris querem ir de taxi. A mim, curiosamente, apetece-me caminhar, apesar das dores. O hotel pareceu-me demasiado perto do centro e agora já não tenho mochila, já tomei banho e já descansei um pouco. Armando faz-lhes companhia no taxi e Chano e eu seguimos a pé. Combinamos encontrar-nos no Obradoiro.
Chano dizia que conhecia a cidade, mas perdemo-nos por várias vezes. Eu estou esfomeada e já nem penso direito. Neste momento estou capaz de comer qualquer coisa. Até fígado, se houver!!!
Sinto a falta do meu cajado, principalmente quando se trata de subir escadas... parece que já nem me consigo equilibrar. Realmente, estou a caminhar há 11 dias com ele, e nas aldeias, os passeios eram tão curtos que não sentíamos necessidade do cajado. Mas agora, está a fazer-me uma confusão tão grande caminhar sem ele...
Depois de meia hora de voltas e voltinhas, chegamos finalmente ao Obradoiro. Armando está a comer uns amendoins que ficaram perdidos, sabe Deus quando, dentro do bolso do seu casaco. Partilha-os comigo e conta-me como começou a gostar de anchovas. Num belo dia estava como eu estou agora: vesgo de fome. Não tinha nada mais para comer a não ser uma lata de anchovas, coisa que odiava... até àquele dia. Passou a achá-las uma verdadeira iguaria desde então.

Damos mais umas 500 voltas à procura de um sítio para comer, porque o Chano, obviamente, “conhece” tudo... Imagino que já seja quase meia noite quando finalmente nos sentamos para comer.
O jantar é divertidíssimo. Ainda estamos eufóricos. A Chris é a que está com um ar mais cansado e parece distante.
O Chano oferece-nos o jantar e saímos para um bar.
Encontramos os portugueses e ficamos um pouco à conversa. Eles chegaram de manhã e já fizeram as compras de turista e tudo. Amanhã vão embora logo depois da missa... recordo-me de que o Tiago tem teste na segunda.
A Cristina volta para o hotel, nós ficamos mais um pouco e continuamos a rir. Não sei se por não serem minhas, mas tudo me cai em cima das calças... às tantas é o Armando que entorna uma coca-cola inteira (com rum), em cima de mim... pobre Chano!
Dali, depois de o Armando ter inventado e demonstrado o strip peregrino, vamos para um outro bar com um velho mal-disposto.
Já passa das 3 quando voltamos a pé para o nosso hotel. A mim doem-me as bochechas de tanto rir...

É a Chris que vai à frente, porque para variar o Chano não se lembra do caminho...
Continua a fazer-me confusão caminhar sem o meu cajado e dou a mão ao Armando e ao Chano. Preciso de sentir um apoio.
Chegamos ao hotel e a Chris e o Armando sobem, enquanto eu e Chano ficamos na sala a conversar e a fumar mais um cigarro. Às 4 não aguento o cansaço e subo também.

Que dia comprido, o de hoje... a manhã em Arzúa parece tão distante... quem diri que hoje estaria aqui...

Estou feliz! Agradeço a Deus por este dia maravilhoso, por estas duas semanas, por esta experiência, por estes amigos e por todas as pessoas que conheci no Caminho. Agradeço-lhe por nunca me ter abandonado, por me ter mostrado a sua presença tantas e tantas vezes.

É engraçado isto. Não fiz o Caminho por motivos religiosos e no entanto senti a presença de Deus o caminho todo... sentia-O ao meu lado, nas montanhas, nos rios, nos pássaros, na chuva e na lama, no sol, nos meus amigos, nos albergues... e pela primeira vez, a frase "Deus está em todo o lado" fez sentido. Muito! Não é na igreja, não é no altar, não é na missa. Foi aqui! Nestes 300km. E agradeço-Lhe por isso. Por se ter manifestado em todas as pequenas coisas. Por me ter ensinado tanto!
Sim, estou feliz!
Muito feliz!

11.º Dia de Caminho Parte I : Arzúa - Pedrouzo= 20km

Dormi mal. Muito mal. Estava calor, o quarto muito abafado, a discussão de ontem, o medo de não ouvir o despertador, o miúdo por cima de mim que não parou de se mexer... O telemóvel toca às 6 horas e a mim parece-me que acabei de adormecer. Quero ficar mais uns minutos na cama, mas não posso. Os monitores estão também a acordar a criançada e em breve as casas de banho ficarão cheias. Fiquei também de acordar toda a gente e tenho de despachar-me.
Acordo a Chris e o Chano. Nenhum dos dois dormiu.
Levanto-me. Há uma série de tralhas no chão e algumas em cima da minha cama. São do puto de cima. Deve pesar uns 150kg porque a cada volta a cama abanava toda... Atiro tudo com raiva para cima dele e do que dorme por cima do Chano.

Ontem à noite a Chris e eu deixámos tudo preparado, como fizémos no Cebreiro, de modo a que a saída de hoje fosse o mais silenciosa possível. Pego na minha mochila, no meu saco-cama e no meu cajado e saio para o hall. Pouso tudo e volto para acordar o Armando. Entro no quarto da terceira idade para acordar a Cristina. A sinfonia é impressionante! Cada um ronca para seu lado e não imagino como é que alguém consegue dormir aqui... Não terá sido uma noite muito melhor que a nossa.

A criançada começa a sair para o hall também e eu decido descer para as casas de banho de baixo. Talvez até tome um banho, hoje de água quente.
À entrada do albergue, mesmo na porta, está alguém deitado a fumar um cigarro. Imagino que seja o velho da cruz e fico mais descansada. Coitado, deve ter vindo dormir para aqui.

Aqui tenho a casa de banho toda só para mim. Decido afinal não tomar banho. Parece-me que a água não aquece e não convém nada ir lá para fora de cabelo molhado.
Depois de pronta, saio para a rua. Já lá está o Armando e um monte de crianças e monitores. Como a gauffre que comprei ontem e bebo o leite de morango. Ainda é noite e está uma humidade incrível. Está frio, mesmo. Ainda bem que não vesti os calções de dormir como tinha pensado.
Aquecemos e fazemo-nos ao Caminho.
Está mesmo frio... é humidade, neblina, e imagino que assim que levantar ficará muito calor. Há um provérbio qualquer assim. Em espanhol também, porque o Armando, como se lesse os meus pensamentos, diz-mo. Mas por agora está um gelo... até me doem as mãos mas vai dar muito trabalho procurar as luvas. Tento protegê-las com as camisolas, mas dói mesmo e não há meio de aquecer!!!

Andamos só um pouco pela estrada e entramos no campo outra vez. Começa a amanhecer e os pássaros a acordar. Olho tudo em volta e encho o peito de ar. Quero guardar isto tudo. Quero ver cada pormenor, sentir cada cheiro, ouvir cada pássaro...não perder nada. É o penúltimo dia de viagem e isso angustia-me. Fico um pouquito triste mas faço um esforço para não pensar mais nisso... se penso acabo por não aproveitar estes dois últimos dias.
O Armando vem para perto de mim e pergunta-me o que acho eu da ideia de apanharmos um autocarro em Pedrouzo até Monte do Gozo. Fazíamos os 20 km até lá e depois os últimos 5 e ainda conseguíamos chegar hoje. Ou então ficávamos no albergue de Monte do Gozo e amanhã chegaríamos a Santiago de manhãzinha. Eu digo-lhe que por mim não há problema, afinal já fiz batota de O Cebreiro até Sarria... Mas na verdade fico com um incómodo cá dentro... logo se vê... depende de como estivermos. Queria caminhar estes dois últimos dias, porque logo logo isto vai acabar... Penso para mim que não vale a pena pensar ainda nisso enquanto não chegarmos a Pedrouzo. Por mim fico lá hoje e recomeço amanhã, ou no máximo tento ir até algures entre Pedrouzo e Monte do Gozo e durmo num hostal... quando chegarmos a Pedrouzo veremos, ele vai perguntar outra vez e aí eu vejo o que é melhor.
Vai atrás e percebo que está a falar com os outros. Volta para me dizer que tanto o Chano como a Chris não apreciaram a ideia e que de facto ele também prefere chegar pelos seus próprios meios.


Depois de uma subida íngreme damos de caras com um espectáculo lindo! Subimos tanto que passámos a neblina e ela agora está lá em baixo. O sol, a nascer.

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Ficamos todos maravilhados... não conseguimos dizer nada... limitamo-nos a fotografar desenfreadamente... é impossível não agradecer a Deus por este espectáculo maravilhoso...
É Armando que nos chama... apetece tirar milhentas fotos, mas ainda temos muitos quilómetros pela frente. Há que continuar.

Passamos por uma mini aldeia e está tudo fechado. Eu desespero por um café... mas acho que ainda vai demorar muito tempo até o poder beber. São sete e pouco da manhã e estas coisas não costumam abrir antes das 9h30... Faço as contas mentalmente... ainda falta muito para o meu café...

A mochila começa a magoar-me os ombros e eu, como estou à frente do grupo, paro. O Armando faz-me uma massagem fantástica nos ombros e eu ponho uma camisola à volta da cintura para que a mochila aperte melhor na barriga. Devo estar mesmo mais magra.

Há duas peregrinas a caminhar ao mesmo tempo que nós. Ora passamos nós por elas, ora passam elas por nós. Acho que são americanas. São muito novinhas.

Um pouco antes de Calle encontramos, no meio do bosque, um homem. Diz-nos que há em Calle dois cafés e que o primeiro não presta.
“No segundo há tarte Santiago. Muito boa! Não vão ao primeiro, vão ao segundo.”
Agradecemos e continuamos a andar. Graças a Deus há alguma coisa aberta e eu vou poder tomar o meu café. A minha enxaqueca, que andava a ameaçar desde Arzúa, começa a dar sinais de si e já me dói um olho.
Chegamos ao primeiro café e tem tão bom aspecto que decidimos entrar para experimentar.
A rapariga é simpática e bebemos café. Ainda não são nove horas e já fizemos 8km.
A minha enxaqueca torna-se mais visível e pela primeira vez nestes 15 dias tomo os meus comprimidos da enxaqueca e peço mais um café. Caminhar com calor e enxaqueca não é bom.
Decidimos que em Pedrouzo não ficamos, porque devemos chegar lá por volta da hora do almoço. Fazemos algumas perguntas à rapariga e a um outro senhor que entretanto chegou e dizem-nos que no Monte do Gozo estaremos a meia hora de Santiago. Talvez não valha a pena ficarmos lá uma noite, também. Começamos a animar-nos
Conversamos sobre a discussão de ontem. Armando estava no beliche ao lado do do homem da cruz e assistiu a tudo de camarote. Diz que o outro, o Fernando, o puxou da cama (de cima) e o atirou ao chão sem dó nem piedade. A Cristina apercebeu-se de alguma agitação, mas como estava no outro quarto não sabia bem o que era. Contam-me que afinal era o tal Fernando que estava a dormir no colchão à porta do Albergue. Devia ser para se assegurar que o da cruz não voltaria a entrar. Todos concordamos que a discussão foi exagerada e que o Fernando acabou por perder a razão. O pobre homem da cruz, por pior que tenha feito, é um pobre coitado, doido, provavelmente não tem noção de nada, e tudo aquilo foi exagerado.
Faço uma massagem ao meu joelho e tomo o anti-inflamatório. Já tenho algumas dores, o que não é nada bom... Não é normal já ter dores a esta hora da manhã... Se não fosse por ele, acho que seria capaz de chegar ainda hoje a Santiago. Estamos a caminhar a um bom ritmo. Lembro-me que há também o calor e se agora estamos muito bem, daqui por duas horas estaremos todos de pernas inchadas e muito mais cansados. É melhor não fazer grandes planos.
A rapariga, muito bonita, pergunta-nos se encontrámos pelo caminho um homem a fazer publicidade ao segundo café de Calle. Dizemos que sim.
“E disse-vos o quê?”
Ela explica que esse homem é o dono do segundo café e que todos os dias vai para o Caminho dizer mal do primeiro. Chega mesmo a dizer que está contaminado e que as coisas estão todas estragadas. Os peregrinos acreditam e raramente param no primeiro, onde estamos agora. A rapariga diz que já chamou por diversas vezes a polícia, que já fez queixa a uma série de entidades, mas o homem não desiste e continua a fazer esta publicidade enganosa e negativa e a estragar o negócio deste pequeno café.
Ficamos indignados.
Pedimos-lhe que nos tire uma foto e seguimos. Passamos pelo tal café do homem do bosque e compreendemos por que tem de fazer publicidade negativa: o café tem um aspecto horrível.


O sol aquece e nós continuamos no campo. O meu joelho doi cada vez mais...
Numa subida encontramos um monumento triste.
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À direita, no nicho, está um par de botas de ferro. À esquerda uma placa com uma vieira. Por baixo da vieira diz:
“ A GUILLERMO WATT
PEREGRINO
Abrazo a Dios a los 69 años
A una jornada de Santiago
El 25 de Agosto de 1993, año santo
vivas in cristo”
Fico toda arrepiada.
A um dia apenas!
Rezo uma Avé-Maria e um Pai- Nosso por ele e peço ajuda a Deus para que me deixe chegar a Santiago. Nada é garantido e o facto de ter chegado até aqui não significa que o Caminho esteja feito... Coitado do senhor... de onde terá vindo? Como terá morrido? Do coração, provavelmente... 25 de Agosto... devia estar muito calor... e ainda por cima em ano santo! Fico verdadeiramente impressionada!

São 10h30 quando decidimos parar novamente.
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Estamos em Brea (há muitas “Breas” na galiza e esta deve ser a décima por que passamos!) e já fizémos mais 6,5 km. Estamos neste momento a 5 km de Pedrouzo. Chegaremos lá antes da hora do almoço e talvez almocemos noutro ponto qualquer mais à frente.
Peço gelo para o meu joelho... estou com muitas dores e mal consigo andar até à casa de banho.
O Armando e o Chano pedem um Aquarius cada um e perguntam se não queremos também.
Por todo o Caminho vi peregrinos a beber aquilo, mas nunca quis experimentar. Parece-me um refrigerante e não quero beber nada que tenha cafeína ou açúcar a mais. O Armando explica que não, que não tem gaz nem açúcar demais, que é bom porque repõe os minerais que vamos perdendo. Nós ficamos convencidas e experimentamos também. De facto é bom.
Estamos cada vez mais animados e começamos a colocar a hipótese de chegar hoje a Santiago... Se nos mantivermos a este ritmo é possível. O único problema é o meu joelho... A Chris está bem melhor das suas bolhas e nos últimos km já vinha à frente, muito mais depressa que eu e a caminhar muito bem, como se passeasse. A Cristina está mais dorida, por causa das suas bolhas e diz que fica em Pedrouzo, não quer continuar.
Levantamo-nos para sair, muito animados com a perspectiva de chegar hoje e mando mensagem ao meu pai e à minha mãe. Não lhes quero dizer que talvez cheguemos hoje a Santiago para que não fiquem preocupados. Se a minha mãe desconfia, vai ficar preocupada e ansiosa e com medo pelo meu joelho e não vale a pena preocupar-se.
Digo-lhes apenas que já fiz 15 km e peço-lhes que rezem por mim. É o suficiente para que a minha mãe me ligue em pânico... pensa que aconteceu alguma coisa... explico que não, que está tudo bem, que estou muito feliz e que tenho de desligar porque já íamos recomeçar a caminhar. Pergunta se chegamos hoje. Digo que não sei.

Recomeçamos e passa por nós o homem da cruz com o miúdo que dormiu por cima do Chano e um outro.
Caminhamos muito pela estrada com carros a passar. Não gosto disto. É o penúltimo (ou último, quem sabe?) dia e queria continuar pelo campo.
Logo depois de Santa Irene voltamos a entrar no bosque. As dores no meu joelho estão a passar e já caminho melhor.
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Estou feliz, muito feliz.
Um dos fechos da minha mochila rebenta e cai tudo o que tinha lá dentro. Mais um. Já rebentou quase tudo... a cabaça já caiu n vezes e agora vai presa no fecho da mochila da frente, só um dos fechos da mochila funciona e este agora saltou completamente. Era onde tinha presa a minha vieira e guardo-a agora na mochila da frente. O Chano volta a pôr tudo dentro da bolsa e fecha-a com uns alfinetes.
Os papéis inverteram-se e agora é a Chris que caminha à frente. Vai com o Armando. Eu fico um pouco para trás e caminho com o Chano.
Atrás de nós, muito atrás, a Cristina. Vem cheia de dores nas suas bolhas apesar de hoje calçar sandálias, e pesa-lhe muito a mochila.
Estamos quase a chegar a Pedrouzo e o sol já queima.
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Chano fala-me das ilhas. Pergunto-lhe como está, se já tem as respostas que procurava. Diz-me que não, mas que pelo menos saiu da bola e que agora terá a calma e a serenidade para que as respostas cheguem por si. Digo-lhe o mesmo. Falamos um pouco mais sobre tudo isso. Ele está feliz. Enfim, não totalmente, porque o Caminho está a acabar e isso deixa-o triste. Tanto eu como ele queríamos continuar a caminhar.
Esta manhã Armando dizia-me a mesma coisa.
“Não sei como será quando chegar, porque sinto que esta é a minha vida! Parece que sempre fiz isto, que o meu dia-a-dia era este e quando penso na vida que tinha antes do caminho, parece que não é realidade, parece que não existiu. A minha vida é caminhar!”
Mesmo triste por estar a chegar, o Chano parece-me bem melhor do que nos primeiros dias. Parece mais feliz, mais despreocupado. Continuamos a conversar mais um pouco e entramos na estrada.
A Cristina e a Chris querem parar e descansar. A Cristina aliás, quer ficar ali.
Sim, eu também estou cansada, mas talvez fosse melhor aproveitar o facto de o meu joelho estar melhor para caminhar... Ou talvez não... Está muito calor e estou com alguma fome. Vamos parar por ali.
O Armando sugere que pousemos as mochilas no albergue e que procuremos um sítio para almoçar. Descansamos um pouco e continuamos até onde der.
Encontramos o albergue, mas como é meio-dia e meia ainda está fechado. Pousamos tudo e sentamo-nos nuns bancos à sombra. Estão ali as peregrinas americanas. Converso um pouco com elas. Tiraram uma semana de férias e vieram fazer o Caminho. Hoje ficam por ali.
Descalço-me e deito-me no chão, com as pernas para cima.
Converso com Armando e Chano. A Cris e a Christina estão num outro banco mais à frente. Ambas se descalçaram e estão a tratar-se.
Falamos sobre várias coisas, sobre o Caminho, no que nos deu, nas lições que tirámos, no simbolismo do Caminho.
Armando fala-me da música que estava a ouvir. Fala da vida, de como tudo está ligado, das voltas que a vida dá.
É uma da tarde quando nos levantamos.
Entretanto chegaram os miúdos das Canárias. Também vão continuar. Hoje ficarão no Monte do Gozo.
Almoçamos no Regueiro, um restaurante mesmo ao lado do Caminho que o meu guia sugere.
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A Cristina, a Chris e o Armando pedem um menu. Eu e o Chano um hamburguer. Está demasiado calor para comer tanto... Bebemos vinho, claro. E comemos o delicioso pão da Galiza.
Estamos todos excitados e rimos à gargalhada por tudo e por nada. O Armando brinca e diz piadas e tudo é motivo de piada. Ele tem um humor bestial.
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Cristina

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Chris

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Armando

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Eu

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A famosa tarte Santiago


A Cristina e a Chris decidem tomar um relaxante muscular cada uma... que mais tomarão?
O Armando goza... estamos todos viciados em pomadas e medicamentos. Sentiremos a falta destes cheiros e destas coisas quando chegarmos.
Conversamos sobre os nossos planos. A Cristina já desistiu de ficar em Pedrouzo. Caminhará mais um pouco connosco mas só até encontrar um hostal. No máximo até Labacolla.
O Chano e eu queremos chegar hoje a Santiago e achamos que é possível. A Chris e o Armando são os mais cautelosos. Falam do meu joelho e do pé de Chano. Temos os dois tendinites e somos os mais optimistas.
A verdade é que neste momento não me dói o joelho e acho perfeitamente possível fazer 20 km durante a tarde. Não precisamos de ter pressa em chegar, podemos ir parando a cada 5 km e se pensarmos que é 5+5+5+5 parece fácil. É certo que está calor, mas...
Combinamos que vamos ver. Vamos com calma e paramos onde tivermos de parar. Vamos até onde os nossos pés e as nossas pernas nos deixarem ir.
O Chano oferece-se novamente para levar a mochila da Cristina. Ele está por tudo! Quer é chegar hoje!

Diz que se chegarmos hoje a Santiago, oferece-nos o jantar.


Quero escrever, mas não vou tirar o meu caderno da mochila que com estes alfinetes todos dá demasiado trabalho.
Arranco um papel do bloco do empregado de mesa e escrevo lá. Escrevo também no meu guia:
“São duas da tarde, viemos de Arzúa e acabámos agora de almoçar. Vamos tentar chegar hoje a Santiago. Que Deus e Santiago nos ajudem. A alegria já é imensa e a excitação também! Duas semanas maravilhosas!!! E está quase. Obrigada Deus!”
“Estou entusiasmada!”
Na página que tem a etapa Pedrouzo- Santiago escrevo “30.04 de tarde. Oxalá que sim!”
Estou feliz, feliz, feliz! Num excitex que só visto! Sim, eu serei capaz de chegar hoje a Santiago! Até estou emocionada!

11.º Dia de Caminho Parte II- Pedrouzo - Santiago = 23km

Pagamos, aquecemos, fazemos os últimos xixis, enchemos as garrafas e partimos.
Está um calor abrasador e a Cristina entra na farmácia.
“Mas que mais drogas vai esta mulher comprar?”, pergunta Armando. Rimos todos. Acabou de tomar um relaxante muscular, estamos todos quitados com medicamentos e drogas de todos os tipos e a esta altura do campeonato ainda há o que comprar na farmácia???
O Chano continua a alongar e passa alguém que fica a olhar para ele com ar de espanto. Ele está agarrado a uma parede enquanto na borda de um canteiro alonga os gémeos. É o suficiente para que eu me ria até chorar... é mesmo da excitação.
A Cristina volta e recomeçamos a caminhar.
O sol aperta muito e eu arrependo-me de não ter trazido o meu protector solar. Sinto o braço e a cara a arder e adivinho um escaldão.
Mas a Cristina tem protector à mão, na bolsa da cintura e empresta-me.
Ela trocou de mochila com o Chano, mas não se ajeita. Quer a sua de volta.
Claro, depois de quase 300km com a sua, que já se adaptou ao seu corpo, deve ser muito desconfortável ter agora uma mochila diferente, mesmo que seja mais leve. Voltam a trocar.
Caminhamos devagar, para não nos rebentarmos.
A Chris e o Armando estão à frente, o Chano continua a caminhar comigo, e a Cristina continua atrás.
Ela queixa-se muito. Diz que somos todos malucos, que se chegar hoje a Santiago quer ser canonizada.
“Claro que sim! Santa Cristina de las Ampollas!”, diz-lhe Armando. Rapidamente arranja nome para todos nós no caso de sermos também canonizados.

Voltamos a entrar no bosque e aqui está-se melhor, mais fresco.

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Está muito calor e custa muito caminhar... apetecia-me fazer uma sesta, ou sentar-me num sítio fresco, mas quero também chegar a Santiago. Quero muito.
“Se chegarmos hoje a Santiago quem vai para o hospital sou eu, em coma alcoólico!”, digo eu, enquanto chamo uma série de nomes menos bonitos a esta terra maldita que é cheia de subidas e descidas... Hoje merecerei tudo! O Chano diz-me para pensar em toalhas, lençóis, água quente, cama... sim, e penso também num quarto só com a Chris, sem ninguém por cima de mim a mexer-se, sem roncos...
Imagino a minha cama no Porto, o meu quarto vazio e sinto uma angústia enorme. Acho que vou sentir-me muito sozinha quando voltar... já não terei mais ninguém no meu quarto...
O bosque não dura por muito tempo e em breve chegamos a uma estrada. Olho tudo em volta com mais amor ainda. Penso nos milhares de peregrinos que ao longo destes mil e tantos anos passaram por aqui, sem as condições que eu tenho hoje, sem estradas, sem albergues, com sol e chuva. Todos nós tínhamos o mesmo objectivo, mesmo que por razões diferentes e fico contente por existir ainda um Caminho de Santiago. Um Caminho com mais de mil anos que eu estou agora a percorrer.
Há por aqui várias subidas e descidas ainda e afinal o Caminho não é tão fácil como se dizia.
De vez em quando passamos por um casal jovem. Encontramo-los sempre parados, deitados no chão. Nunca passaram por nós. Talvez tenham passado sempre que parámos nos cafés. Vi-os pela primeira vez em Arzúa, ontem, no albergue. São os dois muito bonitos. Ele parece o Brad Pitt.
Chegamos ao aeroporto, o que quer dizer que estamos já muito perto de Labacolla. A cada marco que passamos, o nosso coração enche-se de alegria... 15, 15,5, 14, 14,5...
Faltam 13 km para Santiago, estamos a chegar a San Paio onde vamos parar e eu e o Chano esperamos um pouco pela Cristina. Estamos mesmo ao lado do aeroporto. É nessa altura que o meu joelho começa a doer muitíssimo. Não devia ter parado! De repente quase que não o consigo mexer e é com uma enorme dificuldade que recomeço a caminhar.
Chego a San Paio a arrastar o joelho e peço gelo à senhora do hostal-restaurante onde entramos.
Estão ali vários peregrinos que encontrámos no Caminho. Uns ficarão ali, outros no Monte do Gozo. Todos nos dizem que somos doidos por querer chegar hoje a Santiago.
Na verdade, o alemão do tal casal de Airexe que ontem estava em Arzúa disse-me que não era muito boa ideia chegar amanhã a Santiago, a menos que fosse de madrugada. Os miúdos das escolas vão chegar Domingo também e muitos outros peregrinos e a fila para as Compostelanas vai ser enorme e não conseguiremos ter a nossa antes da missa.
Explico isso a um peregrino dinamarquês que conheci em Villafranca no albergue do Jesus. Explico também que amanhã quero acordar tarde (nove horas pelo menos) que não quero dormir mais uma noite num albergue, que quero ter uma cama e não um beliche, que quero um banho de espuma em vez de um duche frio de dois minutos... que não quero dormir no saco-cama que ultimamente se enrola todo durante a noite... Ele ouve-me com atenção, mas continua a achar uma loucura.
Há ali também uma italiana com uns comprimidos naturais que curam tudo e o Armando pede-lhe um. Estamos já completamente viciados em tudo o que seja pastilha...
Bebemos os nossos Aquarius e pedimos mais uma rodada. Estamos viciados nisto. Nesta altura estamos já dopados mesmo e rimos por tudo e por nada... os outro olham para nós como se fossemos doentes mentais.


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Estamos todos estropiados e no entanto rimos até às lágrimas com as maiores idiotices e ainda queremos chegar a Santiago hoje.
Chegam entretanto os miúdos de uma das escolas e o casal jovem e bonito. O Armando fala com o rapaz. São dinamarqueses.
Recomeçamos o Caminho embora eu tenha dores horríveis no joelho. Tomo outro anti-inflamatório mas parece que o meu joelho arde por dentro de tão quente que está. Imagino o motor de um carro que sobreaqueceu.
Como caminho com dificuldade, o Chano e eu partimos na frente. Há uma grande subida e as dores são indescritíveis. Começo a duvidar que consiga chegar hoje a Santiago... Nós não falamos, só caminhamos e eu tento não me concentrar na dor.
Entramos numa aldeia e passamos por uns peregrinos franceses com umas mochilitas pequeninas. Chega um carro com matricula francesa e percebo pela conversa que são peregrinos com apoio de carro. Para eles é fácil... No fundo, fico com pena deles.
Há uns montes à nossa frente e imagino que tenhamos de os subir. O Chano pergunta a um homem qual é o melhor caminho para chegar a Santiago: o Caminho ou a estrada. O homem diz que é o Caminho, que só teremos mais esta subida e que depois é tudo plano, que por ali vamos mais protegidos porque há árvores. A estrada é mais quente e perigosa e não compensa.
Vamos pelo Caminho, então.

Subimos. Eu já não tenho mais truques para que a coisa custe menos. Custa de todas as maneiras. O Chano sugere que eu caminhe de costas mas dá igual. O meu joelho dói até mesmo parado e eu imagino que chegando a Santiago terei de ir para o hospital. Mas era esse o acordo com Deus: deixar que eu chegasse a Santiago mesmo que ficasse toda rebentada.
No alto da subida, alerta ampollas: o Armando tem de parar e pôr vaselina. Empresto-lhe a minha que é a que está mais à mão. O Chano fica com ele mas nós, meninas, continuamos. Voltamos a cantar. Agora o Caminho é plano mas muito feio. Estamos ao lado de uma estrada e digo mal do homem que nos disse que este era melhor. Tem subidas sim (já vejo mais umas descidas e subidas ao fundo), não estamos nada mais protegidas do sol e é feio!
Passamos pela TV Gallega e Armando e Chano aproximam-se. Vamos parar em San Marcos, que fica a 1km do Monte do Gozo. A Chris precisa de parar para fazer não sei o quê.
Eu digo que talvez seja melhor que eu continue. O meu joelho está um pouco melhor. Tenho medo de parar e ficar com tantas dores que não consiga caminhar mais. Foi por ter parado antes de San Paio que fiquei com tantas dores e não quero isso outra vez...
O Chano diz que se eu continuar acompanha-me.
O Armando e a Chris vão parar e a Cristina quer ficar no Monte do Gozo. Trocamos números de telefone para nos encontramos em Santiago e eu percebo que se eu continuar a caminhar talvez chegue primeiro a Santiago. A Chris entretanto diz que já não quer parar, que vai continuar comigo, mas eu sei que ela precisa de parar. Ela hoje deu-lhe forte e deve estar cansada.
É a decisão mais difícil de todo o Caminho e peço a Deus um sinal. Todos os sinais que lhe peço dizem-me para continuar, mas mesmo à entrada de San Marcos decido parar. Quero entrar em Santiago com a Chris e não vou arriscar não o fazer. Santiago só faz sentido se chegar com a Chris, a minha companheira de sempre! Claro que quero entrar com todos eles, com Armando e com Cristina, se der. Depois do dia de hoje, quero entrar com os 4 e acho que devemos entrar os 5 juntos! Mas essencial é mesmo a Chris e tenho de parar com ela.
Paramos todos.
As dores no meu joelho são tantas que mal me arrasto. Está um calor insuportável lá dentro e sentamo-nos cá fora a beber os nossos Aquarius, a nossa droga. Que pena não ter descoberto esta maravilha mais cedo...
Estou cheia de fome e com muita vontade de fazer xixi, mas nem posso pensar que tenho de caminhar até lá.
Há ali uma balança e o Chano pesa-se. Também tenho curiosidade de saber quanto estou a pesar agora. Acho que estou mais magra, mas por outro lado tenho uma barriga que não tinha quando cheguei. E devo ter muito mais músculo e o músculo pesa mais. Não tenho coragem de me pesar, porque isso implica tirar o gelo que tenho no joelho, pôr-me em pé e caminhar, e não consigo.
O Armando tenta fazer-me uma massagem no joelho, mas está demasiado gelado. Limita-se a aquecê-lo com uma mão por cima e outra por baixo. Dividimos o meu chocolate. Ele também é guloso.
O Chano começa a ligar para os hotéis todos em Santiago. Traz uma lista enorme de hotéis que já tinha visto antes de vir para o Caminho. Está tudo cheio, mas ele continua. Finalmente deixa uma reserva feita no Hostal Windsor. O problema é que fica a 10 minutos do centro e nós queremos um hotel ao lado da Catedral para não termos de caminhar mais. Hoje podemos ir e vir de taxi, mas amanhã e depois...
A Cristina liga para a família e diz que afinal chega já amanhã. Diz que está com uma brasileira e uma portuguesa malucas que a querem arrastar para Santiago ainda hoje, mas ela não consegue. Tem muitas bolhas e vai ficar ali em San Marcos, porque há ali um hostal.
Reparo no pé dela. Acabou de aparecer uma bolha enorme de lado. Parece que vai rebentar a qualquer momento e não consigo compreender como é possível que apareça uma bolha ali naquele sítio. E daquele tamanho! Dói-me só de olhar.
O Armando não consegue massajar o meu joelho e então tira-me a bota e a meia para me massajar o pé. Fico com vergonha. Não gosto dos meus pés que são muito feios, mas não estou em posição de ter vaidades neste momento. Afinal de contas a aparência do meu pé é o que menos importa agora... estou cansada, suja, malcheirosa, queimada do sol... Ele diz-me que os meus pés são bonitos e que estão muito bem tratados. Nunca os tratei. Limitei-me a passar talco ou vaselina por causa das bolhas. E por falar em bolhas, acho que está a nascer-me uma no pé esquerdo, mesmo no tornozelo.
Chega entretanto o casal dinamarquês bonito. Bebem qualquer coisa enquanto se sentam a conversar connosco. São muito simpáticos e descubro que são eles os amigos do Paul, o velhote belga que fez o Caminho do Norte. Eles falam do que se passou esta noite no Albergue. O rapaz dormia por cima do Armando, mesmo ao lado do velho da cruz e também assistiu a tudo. Fez-lhes muita confusão porque, tal como o Paul, estavam habituados a ter o albergue só para eles e de repente não só encontram muita gente, como ainda assistem a uma discussão daquelas.
Depois de conversar um pouco, eles decidem ir também para Santiago hoje. O Chano indica-lhes um restaurante e diz que é onde estaremos hoje. Gato Preto.
Vou à casa-de-banho a muito custo. O meu joelho agora dói menos e peço a Deus que me acompanhe nestes últimos 6km.
Pegamos nas nossas mochilas e preparamo-nos para seguir. São 6h30.

O rapaz fica admirado com a quantidade de coisas que trago comigo. Tudo pendurado. De facto nem sei o que pareço.
Tenho uma mochila grande, uma mochila pequena à frente, uma bolsa à cintura, um cajado com um cachecol pendurado, a cabaça pendurada na mochila da frente. Um poncho de lã pendurado na mochila das costas, uma sweat à cintura e uma t-shirt presa numa alça da mochila grande. Explico que é o que fui despindo e que assim não pesa tanto, porque está mais repartido. E pergunto porque raio tem um ténis calçado num pé e no outro uma bota. Os pares estão pendurados na sua mochila. É a namorada que explica: as botas magoavam-no num pé e os ténis no outro. Então ele deu-lhe a ideia de se calçar com os dois: o ténis no pé que a bota magoava, a bota no pé que o ténis magoava. Hoje está muito melhor e caminha muito bem!
Despedimo-nos e voltamos a caminhar.
A Cristina decide vir connosco afinal.
Mais uma subida e já se vê Santiago. Está muito muito perto, mas ainda temos 5 km até à Catedral. Começo a ficar emocionada e angustiada. O Caminho está mesmo a acabar e agora não há como não chegar. Dado o primeiro passo depois de San Marcos, não há como voltar atrás.
Mais uma descida e uma ponte à nossa frente. Olho a placa ao nosso lado
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Peço à Chris que me tire uma foto com a sua máquina. Só tenho mais duas fotografias e quero guardá-las para a Catedral.
(a Chris tirou mas não mandou ainda e a que está por cima é do Chano)
Procuro o meu telemóvel para ver as horas, mas está desligado, sem bateria. ( não sei se foi a Chris que me disse, mas tenho a ideia de que eram 7h30)
Conseguimos! Estamos em Santiago! Rimos as duas e damos as mãos. Nós conseguimos! Nós conseguimos! Nós conseguimos! Contra tudo e contra todos, fizémos o Caminho de Santiago, o nosso Caminho, à nossa maneira e caminhámos mais de duzentos quilómetros. Estamos em Santiago! Conseguimos!!!
Estou tão feliz...
Faltam ainda alguns quilómetros até á Catedral, onde termina o Caminho.
Enquanto atravessamos a cidade, estes 11 dias tão intensos passam à minha frente, como cenas de um filme a que assisti. Custa-me a crer que tenham passado só 11 dias. Vejo o aeroporto de Leon com a avionetazinha que nos trouxe de Madrid, o albergue das monjas e a chegada, o medo e a excitação na bênção da primeira noite, o vento de Leon e Villar de Mazarife e Fabiana. Vejo Santibañez e a velha do albergue manhoso, a holandesa que vinha da Holanda a pé, Astorga e o francês que apregoava a tempestade, Santa Catalina, Andrea, os velhotes espanhois e o Americano. O dia de Ponferrada e Villafranca. Jesus e Angel. O Cebreiro e Eduardo e a sensação de que tinha saltado uma parte importante. A camioneta e todas as aldeias e as etapas que saltámos. Todos os meus medos e tristezas, todas as alegrias. O recomeço, Chano, Portomarín, Airexe... O reencontro com os espanhóis, os portugueses, Melide. Ontem e hoje. E hoje parece que durou uma semana. Sinto Armando e Cristina como amigos de sempre. Chano nem se fala e Chris é como uma irmã. Nem acredito que daqui por uns dias voltaremos a ter um oceano a separar-nos.

Aperto o meu cajado bem forte e despeço-me dele, agradecendo-lhe a companhia e a ajuda que me deu... o meu companheiro de tantos quilómetros.
A Chris continua, mecanicamente, a anunciar a sua chegada com o cajado: tok, tok, tok.
Armando diz-me que está muito orgulhoso de todos nós. Que maravilha que é chegar com amigos. Tivemos a chegada que merecíamos, com as pessoas que merecíamos.
É engraçada a vida.

No Caminho, tal como na vida, fazemos amigos que entretanto perdemos. Mais adiante reencontramos alguns e conhecemos outros. E só se tornam nossos amigos porque perdemos os anteriores, porque ficámos disponíveis, receptivos. O Caminho, como a vida, é cheio de encontros e reencontros e perdas e ganhos.
Mais uma lição: não vale a pena ficar triste e presa ao passado porque a vida é um grande ciclo, ou uma sucessão de ciclos. E o que se perde agora recupera-se mais tarde. Mas só recuperarei se estiver aberta a isso, desligada do passado, se aceitar que o passado é isso mesmo.

A Cristina continua lá atrás e de vez em quando esperamos por ela.
A Chris continua com a pica toda e quer chegar rapidamente à Praça do Obradoiro. Está sempre a perguntar se ainda falta muito. Sim, um bocado, mas vai parecer muito mais. Foi sempre assim. Os últimos quilómetros foram sempre os que pareciam demorar mais tempo, principalmente em cidades. Agora será pior, porque são os últimos quilómetros do Caminho. Curiosamente, nem me parece isso. Parece-me que o Caminho já acabou. Estes já não contam. A etapa de hoje está feita. E está feito o Caminho, embora ainda não seja capaz de realizar isto.
Chegamos ao centro, eu continuo a ver as imagens mais marcantes do meu Caminho, a lembrar todas as minhas lições e a agradecer a Deus. Tenho tanto para agradecer!!! Estou tão agradecida!!! E vou-Lhe pedindo que permita que estes efeitos se mantenham em mim por muito tempo. Que o espírito do Caminho não esmoreça nunca!
Já avistamos as torres da Catedral.
Mais um pouco e aqui está ela!
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Apesar de tudo é visível a minha cara de felicidade. Extrema felicidade.
A Cristina chora como um bebé. Eu estou também muito emocionada. Todos estamos e ninguém fala.
Damos a volta e chegamos enfim ao Obradoiro. Agora sim, a nossa peregrinação acabou. Aqui estamos nós. Doridos, cansados, malcheirosos, mas terrivelmente felizes! A Catedral à nossa frente. Nós juntos.
Abraçamo-nos os cinco. Conseguimos! Nós conseguimos! 43km num só dia, debaixo de um sol abrasador. O dia mais quente de todo o Caminho (uns 30 graus, imagino).
Eu, o Armando e o Chano com tendinites, a Chris e a Cristina com bolhas e conseguimos. CONSEGUIMOS!!!!!!!!!
Não consigo dizer nada. Só quero continuar a abraçá-los a todos e a saborear aquele momento. Eu consegui! Eu consegui!
A minha auto-estima está lá em cima, tão alta como as torres desta catedral. Se eu consegui isto, consigo tudo! Dou-me conta que afinal era isto que procurava. Vim para aqui em busca de respostas mas no fundo, no fundo, o que eu precisava era de recuperar a minha auto-estima. Agora vejo isso. Nada me preocupa. As respostas virão. Eu gosto de mim. Sei que sou capaz de conseguir tudo o que quiser ser ou fazer porque tenho uma vontade de ferro! E tudo o que se quer com muita força consegue-se.
Eu consegui fazer 150km com uma tendinite!
Eu consegui caminhar estes 43km com calor e dores de meia-noite. Eu consegui chegar a Santiago.
Eu consegui amar-me!
Sinto uma paz enorme! Eu gosto de mim e afinal é essa a resposta para todas as perguntas. Eu gosto de mim!
Baixei as minhas defesas como nunca e dei. E dei-me. Sem pensar, sem pedir nada em troca, sem esperar nada, sem medo nenhum. Dei-me. E recebi tanto em troca!!!
Amei os meus amigos e sinto o amor deles. E é esse amor que faz com que neste momento eu me ame a mim também.
Então é isto a felicidade...

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